quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Canção: Tagore

Dois poemas de Rabindranath Tagore para se ler em voz alta, ou sussurrar no silêncio da noite.



Minha canção

Minha canção te envolverá com sua música, como os abraços sublimes do amor. Tocará o teu rosto como um beijo de graças. Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido. Minha canção será como asas para os teus sonhos e elevará teu coração até o infinito. Quando a noite escurecer o teu caminho, minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel. Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até a alma das coisas. Quando minha voz se calar para sempre, minha canção te seguirá em teus pensamentos.


Flor de lótus

No dia em que a flor de lótus desabrochou,
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia, e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim,
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu próprio coração.

Encontro com Circe

A Odisséia, de Homero, conta a história do retorno do herói Ulisses à sua casa, após ter ajudado os gregos a venceram a batalha de dez anos contra Tróia. A viagem de volta também demora dez longos anos, e é repleta de aventuras. No livro X da Odisséia, Ulisses e seus camaradas chegam à ilha da feiticeira Circe, a de belas coifas, no dizer de Ezra Pound. Abaixo reproduzimos alguns pequenos versos da belíssima tradução portuguesa – um verdadeiro tesouro, de Manoel Odorico Mendes (1899 – 1964) - quando os marujos se deparam com Circe pela primeira vez.


"Na ilha aporto Eéia, da terrível
Música Circe de madeixas de ouro,
Irmã de Etas prudente, nados ambos
Do claro Sol e da Oceânia Persa.
A largo surgidouro um deus nos guia;

 Lá, de cansaço e de ânsias corroídos,
Longamente e em silêncio repousamos.
Da aurora crinisparsa à luz terceira,
A espada e lança tomo, um alto subo
Donde ouça vozes ou culturas veja;
Paro no áspero tope, enxergo um fumo
Que dentre um carvalhal saía em cerco
Do palácio de Circe. N’alma volvo
Se após o fumo avance; mas prefiro
Ir a bordo, e à maruja dado o almoço,

 Enviar adiante exploradores.
Da nau já perto, condoído um nume
Da minha soledade, ofereceu-me
Galheiro cervo, que do pasto ao rio
Vinha beber, da calma estimulado:
 A bronze o atravessei pelo espinhaço,
E o bruto cai berrando e a vida exala;
Pulo, saco-lhe o hastil, por terra o deixo,
Vimes despego e silvas, e torcendo-os
Corda formo de braça, os pés lhe amarro;
Firme n’hasta, ao cachaço o levo preso,
Porque de uma só mão, sobre uma espádua,
Suster carga tamanha era impossível.
Ante os sócios o arrojo, e em modo afável
Os conforto um por um: “A Dite, amigos,
Só baixaremos do fatal instante;
Comei, bebei, de fome não morramos.”


   Dóceis levantam-se, e na praia admiram
O enorme cervo, e os olhos tendo fartos,
As mãos lavadas, o festim preparam.
Veação gorda e vinho, até ser tarde,
Nos regalaram; sobre a noite escura
Na marítima areia adormecemos.
No amanhecer, convoco e falo a todos:
“Por mais graves que sejam nossas penas,
Atendei-me, consócios. Ignoramos
Se a terra é donde o Sol mergulha em trevas,
Ou do fúlgido eôo em que ele nasce;
Quero vos consultar, eu nada afirmo.
Do cume de um penhasco, vi que a cinge
Mar infinito, humilde ilha pequena,
Que dentre basto carvalhal fumega.”
   Estala o coração, lágrimas chovem;
Das cruezas de Antífates se lembram,
E do fero antropófago Ciclope.
Chorar que vale? Em corpos dous os nossos,
Mando eu um, outro Euríloco deiforme:
Sacudidas as sortes no elmo aêneo,
Sai a do bravo Euríloco; este parte
Com vinte dous gementes companheiros,
Que apartam-se de nós também gementes.



  Num vale acham marmóreo insigne paço,
Que cercam lobos e leões, de Circe
Com peçonha amansados: contra a gente
Não remeteram de unhas lacerantes,
Sim alongando a cauda os afagaram,
Como festejam cães o meigo dono
Que lhes traz do banquete algum bocado;
Mas, a tal vista, ao pórtico medrosos
Retiveram-se os Gregos. Dentro ouviam
Cantar suave a crinipulcra Circe,
Teia a correr brilhante, que só deusas
Lavram tão fina e bela. Eis diz Polites,
Chefe que eu mais prezava: “No alto, amigos,
Mulher ou deusa tece; o pavimento
Ressoa todo ao cântico: falemos.”

  Gritam; Circe aparece, e abrindo as portas
Resplendentes, convida esses incautos;
Só, receoso, Euríloco repugna.
Senta-os a deusa em tronos e camilhas;
Escândea e quijo com Paneio vinho
Mistura e fresco mel, poção lhe ajunta
Que deslembra da pátria. Mal a engolem,
Toca-os de vara, na pocilga os fecha,
Porcos sendo no som, no vulto e cerdas,
A inteligência embora conservassem.
Tristes grunhindo, a maga lhes atira
Glande, azinha e cornisolo, sustento
Próprio desses rasteiros foçadores."

 

Dama de Anton

"A dama do cachorrinho" é um belo conto do escritor russo Anton Tchékhov (1860 - 1904). Por causa de um encontro quase casual de duas figuras bastante comuns, imersas em vidas absolutamente normais - semelhantes ao de milhares de outras pessoas - os personagens principais da história vão lutar contra o cotidiano esmagador e tentar transcendê-lo. Tentativa, sabe-se bem.

"Certa vez, à noite, saindo do clube dos doutores na companhia de um funcionário público, seu parceiro no jogo, ele não se conteve e disse:
- Se o senhor tivesse ideia da mulher fascinante que conheci em Ialta!
O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas de repente virou-se e gritou:
- Dmitri Dmitritch!
- O quê?
- O senhor estava certo hoje cedo. O esturjão estava estragado.
De repente, essas palavras, tão comuns, por algum motivo deixaram Gúrov indignado e lhe pareceram humilhantes, impuras. Que costumes selvagens, que caras! Que noites sem sentido, que dias desinteressantes, sem nada de importante! Frenéticos jogos de cartas, comilança, bebedeira, conversas sobre o mesmo assunto. Essas atividades inúteis e as discussões consumiam as melhores parcelas do tempo, as melhores forças, e, no final, restava uma vida limitada, prosaica, uma idiotice, mas sair dela, fugir, era impossível, como se a pessoa estivesse trancada num hospício ou numa penitenciária!
Gúrov não dormiu aquela noite, indignado, e depois passou o dia inteiro com dor de cabeça. Nas noites seguintes também dormiu mal, ficava sentado o tempo todo na cama, pensando, ou caminhava de um lado para o outro. As crianças o entediavam, o banco também, não queria ir a lugar nenhum nem conversar sobre nada."

Lembrando Clarice

A solidão ocupando todos os recantos do quarto, da sala, da casa e do mundo. Lembrando um pouco Clarice Lispector.

DÁ-ME A TUA MÃO
"Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."


HÁ MOMENTOS
"Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre."


Sóror... Saudade

Solidão lispectoriana num outro tempo e num outro lugar!
Florbela Espanca: uma pluma pousou sobre a flor.


FUMO

"Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinho

Os dias são outonos: choram, choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredo
Invoco o nosso sonho, entendo os braços

e é ele oh meu amor, pelos espaços
fumo leve que foge entre os meus dedos."


TARDE DEMAIS...

"Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, ó meu Amor?!."


FANATISMO

"Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
'Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...' "

Antígona e Hêmon

Uma injustiça cria toda uma série de acontecimentos que podem terminar numa tragédia. Após Édipo deixar Tebas, seus filhos Etéocles e Polinice, filhos de Édipo e Jocasta, ficam revezando-se no trono da cidade. Entretanto, numa das vezes, Polinice não passa para o irmão que se junta a sete heróis e sitia a cidade. Acontece então um duelo no qual os dois irmãos se matam. Creonte, tio de Etéocles e Polinice, impondo-se como tirano, faz um belo enterro para Etéocles e ordena que Polinice fique apodrecendo fora dos portões da cidade, deixando que as aves de rapina o devorem. Antígona, irmã dos dois, desobedece as ordens do tirano e o enterra, cavando uma cova para o irmão com as próprias mãos. Creonte ao saber da desobediência de sua ordem, condena à morte Antígona (a outra irmã, Ismênia, apesar da desconfiança do tirano, é poupada da sentença capital). Antígona é enterrada viva, apesar do apelo do primo Hêmon, que por ela era apaixonado, ao seu pai Creonte. Com a morte da filha de Édipo, Hêmon também se mata e ato contínuo, sua mãe, Eurídice. Creonte, então, percebe que sua arrogância levou a desgraça para a sua família, perdendo assim o filho amado e sua esposa. Antes da tragédia ser consumada, entretanto, na tentativa de dissuadir seu pai da sentença contra Antígona, Hêmon solta as seguintes palavras, segundo Sófocles na sua obra Antígona:

"Seu irmão jazia insepulto; ela não quis que ele fosse dilacerado pelos cães e pelos abutres. 'Por acaso não merece ela uma coroa de louros?' eis o que todos dizem, reservadamente. Para mim, meu pai, tua prosperidade é o bem mais precioso. O que de melhor podem ter os filhos, do que a glória de seu pai; e que maior alegria terá o pai, do que a glória dos filhos? Não creias porém que só as tuas decisões sejam acertadas e justas... Aqueles que pensam ter sozinhos os dons da inteligência e da palavra, e um espírito superior, quando os vemos de perto mostram-se inteiramente vazios! Mesmo que nos tenhamos por muito sábios, é sempre proveitoso aprender ainda mais, e não teimar em juízos errôneos... Quando passa a enxurrada, alimentada pelos aguaceiros, as árvores que vergam mantém seus ramos, e as que resistem são arrancadas pelas raizes. O piloto que, em plena tempestade, mantiver as velas enfunadas, fará soçobrar o navio, mostrando a quilha para o céu! Transige, pois no teu íntimo, e revoga teu édito. Se minha pouca idade me permitir que emita um parecer, direi que aquele que possuir toda a prudência possível deverá levar vantagem sobre os demais; mas como tal virtude é impossível de ser encontrada, manda o bom senso que aproveitemos os conselhos dos demais."


Destino de Édipo

Édipo Rei, tragédia de Sófocles, é considerada por Aristóteles como a obra prima da tragédia grega. O tema de Édipo foi abordado ainda por Sófocles em “Édipo em Colona” e “Antígona” e também pelos outros dois grandes poetas trágicos gregos: Ésquilo, na peça “Sete contra Tebas” e Eurípedes, na peça “As fenícias”. A história de Édipo começa com uma maldição do rei Pélope, de Elida, sobre o pai de Édipo, Laio. Este último volta para Tebas e se casa com Jocasta, vivendo uma vida feliz e tranqüila. Entretanto, a maldição de Pélope não sai da cabeça de Laio, que então consulta o Oráculo de Delfos. O Oráculo revela que se Laio tiver um filho, por ele será assassinado, e este ainda casará com sua mulher. Apesar de todos os cuidados, o casal tem um filho, Édipo, e para evitar a maldição predita pelo Oráculo, abandona a criança recém nascida na floresta com os pés amarrados. Um pastor o encontra e o leva a Corinto, onde o rei Políbio o cria como filho legítimo. Mas quando adolescente desconfia que talvez não seja filho legítimo do rei de Corinto e para tirar a dúvida consulta o Oráculo de Delfos que assevera: “tu matarás o teu pai e desposará a tua mãe.” Para fugir do seu destino, acreditando ser filho de Políbio, Édipo sai de Corinto e refugia-se em Tebas. Entretanto, no caminho, por causa de uma discussão, ele mata um senhor e o seu cocheiro. Aqui, parte da profecia se cumpre pois o senhor era Laio, o seu pai. Na entrada da cidade de Tebas havia um monstro, metade mulher e metade leão – a Esfinge – que devorava a todos que não conseguissem decifrar um enigma proposto por ela. Por causa disso o governante de Tebas oferecera um prêmio a quem decifrasse o enigma: o trono e a mão da viúva, rainha Jocasta. A Esfinge desafia Édipo: “Qual é o animal que de manhã tem quatro pés, ao meio dia dois e à tarde três?” Édipo: “O homem, pois na infância engatinha, quando adulto anda, e na velhice tem o auxílio de um bastão”. A Esfinge reconhece a correção da resposta e se joga de um penhasco. Édipo é declarado rei e passa a viver com Jocasta, de cujo casamento nascem quatro filhos: Etéocles, Polinices – cuja luta fraticida futura é descrita por Ésquilo e Eurípedes – Ismênia e Antígona. Tebas prospera sob a égide do filho de Laio, mas aparece uma peste que dizima homens e animais a rodo. Para saber a razão da fúria dos deuses, Édipo envia o seu cunhado, Creonte, ao Oráculo de Delfos. Neste ponto da história começa a peça “Édipo Rei”. Creonte retorna dizendo que a peste é devida ao fato de Tebas estar abrigando o assassino do rei Laio. Édipo, então, exige que o assassino seja descoberto. Inicia-se uma investigação e Édipo chama o advinho Tirésias que após muita insistência do rei afirma “és tu o assassino que procuras”. Édipo acredita que isso seja parte de um complô entre Tirésias e Creonte, mas as informações de dois pastores que acharam o pequeno Édipo no bosque e o entregaram ao rei de Corinto, revela toda a verdade. Após a revelação o coro, representando o sussurro dos deuses, é incisivo:



Ô geração de mortais, a vossa vida e o nada em igual conta eu tenho. Quem já conheceu felicidade que não fosse apenas de parecer feliz, para recair na treva, finda aquela doce ilusão? Diante de seu destino de amargura, ó Édipo, posso afirmar que não há felicidade para os humanos.”



Ato contínuo à revelação, Jocasta se mata e Édipo fura os próprios olhos e se retira da cidade. Antes do exílio, porém, acontece uma das partes mais comoventes de toda a tragédia: é quando Édipo se despede de suas filhas Ismênia e Antígona:



Mas minhas infelizes filhas, ainda inocentes, que sempre sentavam no meu colo, à mesa, dividindo o alimento que para mim se preparava, oh! Eu te peço Creonte, tem piedade delas! Consente que eu possa ainda afagá-las, e que ainda deplore com elas a nossa desdita! Eu te suplico, ó rei nobre e generoso! Se puder tocá-las com as mãos, será como se as visse, como quando as via realmente... Mas... que digo eu? Creio ouvir, ó deuses! O choro de minhas filhas!... Creonte, por compaixão de mim é que mandaste vir minhas filhas queridas?



Entram Antígona e Ismênia, ainda crianças, guiadas por uma serva. Aproximam-se do pai.



Édipo: (...) E meus olhos sem luz têm muitas lágrimas por vós, a quem não mais verei, e pelas agruras que tereis de sofrer pela vida afora... A que reuniões, a que festas podereis comparecer, sem que tenhais de voltar em prantos, impedidas de freqüentá-las? E atingida a idade florida do casamento, quem será o noivo corajoso o bastante que suporte as infâmias, eterno flagelo para vós e para a vossa prole? Que maior infâmia poderá haver do que esta: vosso pai matou o próprio pai, fecundou o seio que o concebeu, e deste consórcio nascestes vós. Assim serão as injúrias que vos atirarão ao rosto... Quem vos quererá por esposa? Certamente ninguém, minhas filhas! Tereis de viver na solidão e na esterilidade. Só tu, Creonte, será doravante, como um pai para elas – pois sua mãe e eu, que as geramos, já não viveremos! Não permitas que elas vagueiem, mendigas; não consintas que sua sina se agrave pelo peso de minhas culpas! Tens pena delas, Creonte: tão jovens e tão desvalidas, exceto pelo teu apoio. Que tua generosidade dê um sinal de assentimento! E vós, minhas filhas, se tivesses idade para me compreender eu teria muitos conselhos para vós; por ora, orai sempre para encontrar um lar, e que vosso destino seja mais feliz que o de vossos pais!