terça-feira, 24 de março de 2015

Procura-se

Tarso Freire *

     O conto reproduzido abaixo possui uma história bastante interessante: certa vez na cantina do IFCH bati um longo papo com uma aluna de Filosofia, a qual não citarei nome pois o que relatarei a seguir é não autorizado. Na conversa descobrimos que havíamos habitado, quando de nossa chegada à Campinas (em épocas diferentes, naturalmente), o mesmo familiar hotel. Mas a maior coincidência é que havíamos ficado exatamente no mesmo quarto. Isto porque só havia um quarto no sótão do casarão. Mas o quarto era cheio de coisas velhas, com dezenas de livros, cujas páginas quebravam-se ao contato com as mãos, além de centenas de papéis rabiscados. Quando retirou-se do hotel, contou-me a garota, levou uma pasta repleta destes papéis velhos, pura travessura. Por ter sido obrigada a fazer uma viagem em agosto do ano passado, a filósofa deixou-me a pasta com os tais papéis e, arrependida, pediu-me que encontrasse o verdadeiro dono. Nesta pasta havia dois contos, um dos quais é reproduzido abaixo, uma carta endereçada a uma certa Maria Filomena, e setenta e três aquarelas belíssimas, todas assinadas por H.S.S.P. Voce. Como elas devem valer um dinheiro razoável no mercado de arte, retornei para devolver a algum dos donos do hotel, mas para minha surpresa o prédio situado na avenida Morais Sales havia sido demolido. Procurei achar alguém com o sobrenome Voce. Na lista telefônica de Campinas de 94 não existia ninguém com este sobrenome. Mas folheando na Telesp listas antigas encontrei um assinante chamado J.P. Voce. O nome deste assinante constava até o ano de 1989, depois do qual desapareceu das listas. Mesmo assim, telefonando para o número de 89 fui informado de que se tratava de uma loja de livros antigos especializada em religiões antigas e sociedades secretas, que ninguém ali conhecia o Sr. Voce e que o telefone pertencia à loja desde 1982!!! Descobri, no acervo histórico do IFCH, que um certo senhor Ferdinando Castilho Voce, havia trabalhado para o Sr. Barão Geraldo há muito tempo atrás, quando Campinas não passava de uma cidadezinha. Corria a lenda, na época, que o Sr. Ferdinando possuía minas de diamantes lá nas Gerais, como está escrito num livro sobre o interior paulista no início do século. Mas os descendentes deste Sr. Voce estão desaparecidos, ou talvez, este H.S.S.P. Voce tenha sido a última pessoa da família. (Gostaria de destacar que os papéis referentes ao Sr. Ferdinando não estavam mais disponíveis ao público na semana seguinte. Indagando o porquê, recebi como resposta da bibliotecária que aqueles papéis haviam sido requisitados por um pesquisador da USP!?) Por isto publico o conto abaixo: na esperança de encontrar uma pessoa que possua verdadeiros direitos sobre as aquarelas. Então, se o leitor tiver informação a respeito de alguém que assine com o sobrenome Voce, eu agradeceria imensamente. Atenciosamente, P.T.C. Freire. (observações - a: as informações a este respeito podem ser enviadas para o endereço eletrônico da APGF; b: a grafia das palavras do conto foram atualizadas, evitando-se assim os "l"s dobrados, os "ph"s no lugar de f, os "ct" e coisas do gênero, para facilitar a vida do leitor; c: no final do texto, escrito claramente com tinta diferente e na diagonal da folha de papel foram rabiscadas as letras Sá. - Si., que devido não se encaixarem no contexto do conto, foram suprimidas na reprodução).

      A morte do escritor
         H.S.S.P. Voce

    O Escritor pegou o resultado do exame feito com células do tumor que o incomodava há tempos, dobrou-o, colocou-o no bolso da calça um pouco velha e foi em direção ao bar mais agitado do centro da cidade. A cidade lhe dava forças e a praça central era o símbolo dentro do símbolo. Ele já possuía a frase com que começaria o seu próximo livro: "Qualquer forma de amor que possua algum resquício de egoismo, mesmo estando a um milhão de anos luz de distância, já está contaminado e não é mais verdadeiro." Era sua prática pensar durante algum tempo em cada frase antes de escrevê-la. "Qualquer forma de amor... parece-me bom", e assim pensando chegou ao bar e pediu a sua bebida preferida. Seria bom olhar o anúncio de uma eventual desgraça com o conforto do álcool amigo.
    O ambiente por alguns segundos pareceu-lhe estranho, como se os clientes, os garçons, copos, garrafas, fumaça, nada daquilo pertencesse ao mundo, ou então, que ele é que fosse o intruso no ambiente. A entrada de um mendigo pedindo um copo de aguardente destruiu a sua estranheza do mundo. Com aquela imagem o escritor imaginou que a dor da úlcera daquele pobre homem seria um conforto para suas mágoas e seus sofrimentos; até a própria dor para ele poderia ser um remédio, uma espécie de analgésico para uma dor maior. O pobre diabo deu um ligeiro sorriso para um copo vazio.
    Mas enquanto o mendigo tratava de encher o seu copo para novamente deixá-lo repleto de ar, o escritor colocou a mão no bolso e começou a desenrolar o papel com o resultado do seu exame. Estava um clima quente e seco e sem nenhuma razão aparente veio-lhe à mente "As flores do mal" e sentiu a presença iluminada do outro poeta. Uma estrela, um coração sangrando - a luz, era necessário luz!
    A sua vida não havia sido muito boa até aquele momento. Era um eufemismo. A vida havia sido um passear por sarjetas, embora aqueles momentos de boa leitura lhe dessem um prazer que o ar não lhe dava, um prazer maior que escrever os seus livros. E escrever livros era, na verdade, a ilusão de um escritor que era o narrador de um livro que começaria com a frase "Qualquer forma de amor...", livro este que contaria a história de um escritor que estava com cancro.
    Por causa disso ele poderia ser chamado de farsante, embora ele se sentisse apenas como uma pessoa que rasgava, desesperadamente, uma após outra, as cortinas da mentira. Mesmo sabendo que o número delas era infinito.
    O mendigo virou novamente o copo com uma vontade absurda. O mundo que dava voltas iguais para ele era o mundo que girava igual e cinicamente para todos. O suicídio lento e silencioso do pobre diabo era apenas o pungente grito de revolta contra a situação que o estava conduzindo à morte.
    Leu o escritor o resultado: era maligno! Neste momento foi como se o mundo todo acabasse e restassem apenas ele e aquela maldita folha de papel. Apesar de saber da possibilidade de poder receber a pior notícia, ele possuía a secreta certeza de que esta jamais viria. A sentença em suas mãos silenciou para sempre o mundo: nunca os verdes olhos de que Camões cantara possuiria mais a mesma beleza e nunca mais ele se permitiria atravessar a barreira dos cristalinos e tentar compreender as manifestações irracionais, ou não, dos que cruzavam o seu caminho.
    E escreveu esta carta:
    "Minha adorável e doce senhora Marta, agora que o mundo faz menos sentido ainda, vou partir. Ter que suportar o fardo desta... a falta de ar, estes ambientes sufocantes, estes quartos sujos, a eterna queda em direção à lama que poderia inclusive purificar o mais sujo dos humanos, purificá-lo de sua angústia esmagadora, de sua consciência do ... vazio, do nada que o chama como a chama luminosa que atrai as feras na floresta em noite escura; eu gostaria que minha carta testamento tivesse a eloquência do silêncio: que nesta noite tenebrosa de agosto de novecentos e quatorze não dissesse absolutamente nada!
    João Ladino Péricles, o seu criado que parte."
    A vila de São Carlos é testemunha. O escritor João Péricles desapareceu pouco a pouco consubstanciando-se no vácuo, como se fosse uma sombra que se dissolve vagarosamente com o cair da tarde, assustada com a chegada da noite...


* Este texto foi publicado originalmente no Jornal da APGF (Associação de Pós-Graduandos de Física da Unicamp), em janeiro de 1995. Durante uma mudança, quando deixei a cidade de Campinas - em julho de 1995 - todas as aquarelas e muitos livros que possuía foram extraviados. Mas fiquei acompanhando notícias sobre exposições de pinturas e aquarelas que ocorriam pelo Brasil durante muito tempo, na expectativa de encontrar algum indício que me levasse de volta às belas aquarelas. Tive a sorte de reconhecer numa chamada de uma exposição em determinado museu de arte moderna, uma das aquarelas (ou algo muito semelhante) desaparecida dez anos antes. Como a exposição ocorrera em uma cidade bastante distante de onde morava na época, não foi possível conferir se se tratava de uma das aquarelas extraviadas. Posteriormente, ao relatar estes acontecimentos para um colega que pesquisa sobre sociedades secretas existentes desde a Idade Média - não que eu acredite que exista alguma mínima relação entre elas e esta história - ele comentou que "Sá - Si" poderia ser interpretado como Sábios de Sião, uma misteriosa sociedade secreta secular com origem na Europa e com possível ramificação aqui no Brasil trazida por algum membro da corte de D. João VI. Embora crível, preferi descartar tal hipótese. Dei, então, por encerrada esta história. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A mercadoria em Antonil

     Segundo estudiosos e analistas da sociedade, a mercadoria é um conceito que possui um importante papel na estrutura do pensamento de Karl Marx. Além de possuir um valor de uso e um valor de troca, a mercadoria também seria uma unidade de medida do trabalho que a criou. Aqui não é o lugar de discutir o conceito de mercadoria, além do que o autor destas linhas não tem conhecimento suficiente para fazê-lo. Este parágrafo inicial é apenas para introduzir um texto do sacerdote da Companhia de Jesus, João Antonio Andreone (algumas vezes referido como André João Antonil, ou simplesmente Antonil), que chegou ao Brasil em 1681 a convite do Pe. Antonio Vieira. Antonil viajou pelo país e captou com os olhos de um europeu deslumbrado, aspectos relacionados às riquezas de uma colônia que crescia sob a égide da mão de obra escrava. Entretanto, os escravos eram não-sujeitos, agentes de transformação que foram tornados invisíveis pela pena ágil dos relatores da história oficial, como era o caso de Antonil. 

     Apesar de Antonil - um italiano nascido em Lucca - ter produzido uma importante obra acerca do Brasil Colonial, quase foi esquecido pelas gerações posteriores. O esquecimento só não foi completo graças aos trabalhos de alguns pesquisadores como João Capistrano de Abreu e Visconde de Taunay, entre outros. Uma bela descrição de parte dos escritos do Pe. Antonil é fornecida, por sua vez, pelo Prof. Alfredo Bosi na sua obra monumental, Dialética da Colonização, no capítulo "Antonil ou as lágrimas da mercadoria". Assim, antes de apresentar o texto de Antonil, seria interessante mostrar uns poucos parágrafos de Alfredo Bosi, em particular, discutindo a maneira como Antonil conseguiu transformar os sujeitos da história (os escravos) em objetos e o objeto (a cana) em sujeito: 

     "Os escravos são os pés e as mãos dos senhores, e esta figura redutora lhes tira a integridade de atores. São construções verbais passivas e impessoais que Antonil enfileira para descrever o plantio da cana: a terra roça-se (quem a roça?), queima-se (quem o faz?), alimpa-se (quem?). Que a  cana não se abafe; que se plantem os olhos da cana em pé, ou que se deite em pedaços; deita-se também inteira, uma junto à outra, ponta com pé; e cobrem-se com terra moderadamente... Dirá a gramática tradicional que em todos esses casos o sujeito é a terra ou a cana; e aqui a razão formal do gramático coincide com a do economista da era mercantil. O objeto exterior ganha foros de sujeito na linguagem de Antonil. Ao mesmo tempo, o agente real (o escravo que roça, queima, alimpa, abafa, deita, cobre...) omite-se por um jogo perverso de perspectivas no qual a mercadoria é omnipresente e todo-poderosa antes mesmo de chegar ao mercado, e precisamente porque deve chegar ao mercado inteira, branca e brunida.

     Vinda a hora da safra, tampouco nos é dado ver homens inteiriços na faina do eito. 'Quando se corta a cana, se metem até doze ou dezoito foices no canavial.'  Metem-se foices a ceifar, e a metonímia do instrumento pelo trabalhador diz o que deveras importa ao olhar do autor: as canas a cortar, não os obreiros que as cortam. Depois, é preciso contar os feixes, operação de cálculo; mas como acomodá-la 'à rudeza dos escravos boçais, que não sabem contar?'.  Usando seus dedos e mãos. Dez feixes para cada dedo. Cinco dedos tem a mão: a mão vale cinquenta feixes. Duas mãos têm cem feixes. E sete mãos têm trezentos e cinquenta feixes, 'e tem por obrigação cada escravo cortar num dia trezentos e cinquenta feixes', ou seja, sete mãos.

     Atada em feixes e levada em carros de bois, bate a cana às portas da casa de moer, 'com o artifício que engenhosamente inventaram'. É a vez de uma descrição técnica minudentíssima da moenda: períodos sobre períodos articulados em torno da máquina por excelência do engenho, onde rodas de eixo dentadas se entrosam e desentrosam e reentrosam para melhor espremer a cana e extrair o sumo, o caldo, que se recolherá para ferver.

    Quase no fecho destas páginas metodicamente obsessivas, em que o olho de Antonil parece medusado por aquelas engrenagens que não param nunca de rodar, vislumbra-se rápida a imagem de uma negra 'boçal' que, vencida de sono ou emborrachada, 'passa moída entre os eixos'. A escrava distraída escapa, às vezes, se intervém a tempo a mão prestante da companheira que lhe corta o braço com um facão, caso o feitor prevenido não se tenha esquecido de encostá-lo junto à moenda para evitar o pior."

    Após este excerto da análise do professor Bosi (e aqui sugere-se a leitura do Dialética da Colonização), vamos lançar o olhar sobre o texto que era o objetivo inicial desta postagem, escrito pelo Pe. Antonil há mais de três séculos. Ele compõe a parte XII do Livro II de sua obra Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Nunca uma mercadoria havia sido tão humanizada, mas infelizmente, à expensas da total destruição do real sujeito da história, como comentado anteriormente.

     "Do que padece o açúcar desde o seu nascimento na cana, até sair do Brasil"

     É reparo singular dos que contemplam as cousas naturais ver que as que são de maior proveito do gênero humano não se reduzem à sua perfeição sem passarem primeiro por notáveis apertos; isto se vê bem na Europa no pano de linho, no pão, no azeite e no vinho, frutos da terra tão necessários, enterrados, arrastados, pisados, espremidos e moídos antes de chegarem a ser perfeitamente o que são. E nós muito mais o vemos na fábrica do açúcar, o qual, desde o primeiro instante de se plantar, até chegar às mesas e passar entre os dentes a sepultar-se no estômago dos que o comem, leva uma vida cheia de tais e tantos martírios que os que inventaram os tiranos lhes não ganham vantagem. Porque se a terra, obedecendo ao império do Criador, deu liberalmente a cana para regalar com a sua doçura aos paladares dos homens, estes, desejosos de multiplicar em si deleites e gostos, inventaram contra a mesma cana, com seus artifícios, mais de cem instrumentos para lhe multiplicarem tormentos e penas. Por isso, primeiramente fazem em pedaços as que plantam e as sepultam assim cortadas na terra. Mas, tornando logo quase milagrosamente a ressuscitar, que não padecem dos que a vêem sair com novo alento e vigor? Já abocanhadas de vários animais, já pisadas das bestas, já derrubadas do vento, e alfim descabeçadas e cortadas com fouces. Saem do canavial amarradas; e, oh!, quantas vezes antes de saírem são vendidas! Levam-se, assim presas, ou nos carros ou nos barcos à vista das outras, filhas da mesma terra, como os réus, que vão algemados para a cadeia, ou para o lugar do suplício, padecendo em si confusão e dando a muitos terror. Chegadas à moenda, com que força e aperto, postas entre os eixos, são obrigadas a dar quanto têm de substância? Com que desprezo se lançam seus corpos esmagados e despedaçados ao mar? Com que impiedade se queimam sem compaixão no bagaço? Arrasta-se pelas bicas quanto humor saiu de suas veias e quanta substância tinham nos ossos; trateia-se e suspende-se na guinda, vai a ferver nas caldeiras, borrifado (para maior pena) dos negros com decoada; feito quase lama no cocho, passa à fartar às bestas e aos porcos, sai do parol escumado e se lhe imputa a bebedice dos borrachos. Quantas vezes o vão virando e agitando com escumadeiras medonhas? Quantas, depois de passado por coadores, o batem com batedeiras, experimentando ele de tacha em tacha o fogo mais veemente, às vezes quase queimado, e às vezes desafogueado algum tanto, só para que chegue a padecer mais tormentos? Crescem as bateduras nas têmperas, multiplica-se a agitação com as espátulas, deixa-se esfriar como morto nas formas, leva-se para a casa de purgar, sem terem contra ele um mínimo indício de crime, e nela chora, furado e ferido a sua tão malograda doçura. Aqui, dão-lhe com barro na cara; e, para maior ludíbrio, até as escravas lhe botam, sobre o barro sujo, as lavagens. Correm suas lágrimas por tantos rios quantas são as bicas que as recebem; e tantas são elas, que bastam para encher tanques profundos. Oh, crueldade nunca ouvida! As mesmas lágrimas do inocente se põem a ferver e a bater de novo nas tachas, as mesmas lágrimas se estilam à força de fogo em lambique; e, quanto mais chora sua sorte, então tornam a dar-lhe na cara com barro, e tornam as escravas a lançar-lhe em rosto as lavagens. Sai desta sorte do purgatório e do cárcere, tão alvo como inocente; e sobre um baixo balcão se entrega a outras mulheres, para que lhe cortem os pés com facões; e estas, não contentes de lhos cortarem, em companhia de outras escravas, armadas de toletes, folgam de lhes fazer os mesmos pés em migalhas. Daí, passa ao último teatro de seus tormentos, que é outro balcão, maior e mais alto, aonde, exposto a quem quiser maltratar, experimenta o que pode o furor de toda a gente sentida e enfadada do muito que trabalhou andando atrás dele; e, por isso, partido com quebradores, cortado com facões, despedaçado com toletes, arrastado com rodos, pisado dos pés dos negros sem compaixão, farta a crueldade de tantos algozes quantos são os que querem subir ao balcão. Examina-se por remate na balança do maior rigor o que pesa, depois de feito em migalhas; mas os seus tormentos gravíssimos, assim como não têm conta, assim não há quem possa bastantemente ponderá-los ou descrevê-los. Cuidava eu que, depois de reduzido ela a este estado tão lastimoso, o deixassem; mas vejo que, sepultado em uma caixa, não se fartam de o pisar com pilões, nem de lhe dar na cara, já feita em pó, com um pau. Pregam-no finalmente e marcam com fogo ao sepulcro em que jaz; e, assim pregado e sepultado, torna por muitas vezes a ser vendido e revendido, preso, confiscado e arrastado; e, se livra das prisões do porto, não livra das tormentas do mar, nem do degredo, com imposições e tributos, tão seguro de ser comprado e vendido entre cristãos como arriscado a ser levado para Argel entre mouros. E, ainda assim, sempre doce e vencedor de amarguras, vai a dar gosto ao paladar dos seus inimigos nos banquetes, saúde nas mezinhas aos enfermos e grandes lucros aos senhores de engenho e aos lavradores que o perseguiram e aos mercadores que o compraram e o levaram degradado nos portos e muito maiores emolumentos à Fazenda Real nas alfândegas.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O vapor que se dissipa no ar

Olhando na escala de séculos, o orgulho de um homem não vale muita coisa. "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade." Em certas páginas de Em busca do tempo perdido, Proust nos mostra a ilusão da soberba de um nobre que será para sempre esquecido, a vaidade de uma princesa que, duzentos anos após, estará registrada no máximo num livro empoeirado que não será aberto por ninguém, ou as preocupações de um homem que cruzou um caminho, que foi coberto pelo mato e dele não ficou o mínimo registro. Abaixo encontram-se as reproduções de dois momento de "Sodoma e Gomorra", na tradução poética de Mario Quintana" em que afloram, respectivamente, o orgulho e a inveja doentia de um pobre homem e a pseudo-modéstia de uma rica duquesa:

"  O sr. de Froberville forçosamente se havia beneficiado da situação de favor que desde pouco era concedida aos militares na sociedade. Infelizmente, se a mulher a quem desposara era parenta muito legítima dos Guermantes, era também uma parenta extremamente pobre, e como ele próprio perdera a fortuna, não tinham relações quaisquer, e eram dessas pessoas a quem deixavam de lado a não ser nas grandes ocasiões, quando lhes sucedia perderem ou casar algum parente. Então verdadeiramente faziam parte da comunhão do alto mundo, como os católicos de nome que só se aproximam da Santa Mesa uma vez por ano. Sua situação material seria até desastrosa se a sra. de Saint-Euverte, não tivesse auxiliado de todos os modos o casal, fornecendo vestidos e distrações às duas meninas. Mas o coronel, que passava por um bom sujeito, não tinha um coração agradecido. Invejava os esplendores de uma benfeitora que era a primeira a celebrá-los sem trégua e sem medida. A garden-party anual era para ele, sua mulher e seus filhos um prazer maravilhoso que não desejaria perder por todo o ouro do mundo, mas um prazer envenenado pelas satisfações de orgulho que dele tirava a sra. de Saint-Euverte. O anúncio dessa garden-party nos jornais que, em seguida, após um relato detalhado, acrescentavam maquiavelicamente: 'Voltaremos a tratar dessa bela festa', os pormenores complementares sobre as toaletes, dados durante vários dias seguidos, tudo isso fazia tanto mal ao Froberville, que eles, bastante privados de prazeres e sabendo que podiam contar com o daquela festa, chegavam a desejar cada ano que o mau tempo lhe prejudicasse o êxito, consultando o barômetro e antegozando uma tempestade que pudesse fazer gorar a festa."

" - Olhe, sabe a quem foi que causou muito pesar o casamento de Swann? À minha mulher. Oriane tem muitas vezes o que eu chamarei uma afetação de insensibilidade. Mas, no fundo, sabe sentir com uma força extraordinária. - A sra. de Guermantes, encantada com essa análise do seu caráter, escutava-o com ar modesto, mas não dizia palavra, por escrúpulo de aquiescer ao elogio, e principalmente por medo de o interromper. Poderia o sr. de Guermantes falar ainda uma hora sobre o assunto, que ela ainda menos se teria movido, como se lhe tocassem música. - Pois bem! recordo-me de que, ao saber do casamento de Swann, ela sentiu-se melindrada; julgou  que era muito mal feito da parte de uma pessoa a quem testemunháramos tanta amizade. Estimava bstante a Swann, e sentiu muitíssimo. Não foi, Oriane? A sra. de Guermantes julgou que deveria responder a uma interpelação tão direta, sobre um fato concreto que lhe permitiria, sem que o parecesse, confirmar os louvores que sentia terminados. Num tom tímido e simples, e com um ar tanto mais estudado quanto pretendia parecer 'sentido'. - É isso mesmo, Basin, não está enganado."

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Quanto mais sós...

A amada que foi levada pelo tempo, que não respondeu a uma carta (um e-mail ou um whatsapp, para os jovens leitores), que faltou a um encontro, que menosprezou um presente, que esnobou um poema, que nem se dignou a cruzar o seu olhar na direção onde o angustiado homem se encontrava, ávido por alguns segundos de atenção... Os encontros e os desencontros da vida novamente na pena ágil de Marcel Proust (O caminho de Guermantes, terceiro volume de Em busca do tempo perdido) na tradução de Mario Quintana:

"E passado o último carro, quando sentimos com dor que ela não mais virá, vamos jantar na ilha; por cima dos álamos trêmulos que recordam sem fim os mistérios do entardecer mais do que respondem a eles, uma nuvem rósea põe uma última cor de vida no céu asserenado. Algumas gotas de chuva caem sem ruído na água, antiga, mas na sua divina infância, que continua sendo da cor do tempo e que esquece a todo instante as imagens das nuvens e das flores. E depois que os gerânios, intensificando a iluminação de suas cores, lutaram inutilmente contra o crepúsculo ensombrecido, uma bruma vem envolver a ilha que adormece, passeamos pela úmida escuridão, pela margem da água, onde, quando muito, a passagem silenciosa de um cisne nos pasma como num leito noturno os olhos abertos um instante e o sorriso de uma criança que não supúnhamos desperta. Então quiséramos tanto mais ter conosco uma amada quanto mais sós nos sentimos e mais longe nos podemos crer.
(...)
Quando me encontrei sozinho em casa, lembrando-me que tinha ido fazer uma excursão vesperal com Albertine, que cearia depois de amanhã em casa da sra. de Guermantes e, de que tinha de responder a uma carta de Gilberte, três mulheres a quem havia querido, considerei que a nossa vida social está cheia, como o estúdio de um artista, de esboços abandonados em que por um momento julgáramos poder plasmar a nossa necessidade de um grande amor, mas não pensei que às vezes, se o esboço não é muito antigo, pode acontecer que o retornemos e façamos dele uma obra muito diferente, e talvez até mais importante do que aquela que havíamos projetado a princípio."

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Ave Maria, cheia de graça!




Ave Maria, cheia de graça!. Sandro Botticelli (1445 - 1510).

No almoço

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Obra de Zinaida Serebriakova(1914). Zinaida Serebriakova foi uma pintora russa que viveu entre 1884 e 1967. Algumas de suas obras mais famosas são Pastores (1914), No almoço (1914) e Retrato de uma jovem mulher (1915). 

domingo, 19 de outubro de 2014

Eco e a questão do narrador

O narrador, em um romance, desempenha um interessante papel no desenvolvimento da história. Umberto Eco dedica parte do primeiro capítulo da sua obra "Seis passeios pelo bosque da ficção" a discutir os conceitos de narrador, autor-modelo, leitor-modelo, etc. Eco cita o início do romance Sylvie, de Gérard de Nerval "Je sortais d'un théâtre où tous les soirs je paraissais aux avant scènes en grande tenue de soupirant [...]" e a seguir comenta:

"Agora vamos examinar o 'je' com o qual a história se inicia. Os livros escritos na primeira pessoa podem levar o leitor ingênuo a pensar que o 'eu' do texto é o autor. Não é, evidentemente: é o narrador, a voz que narra. P.G. Wodehouse certa vez escreveu na primeira pessoa as memórias de um cachorro - uma demonstração incomparável de que a voz que narra não é necessariamente a do autor.

Em  Sylvie, temos que lidar com três entidades. A primeira é um cavalheiro que nasceu em 1808 - e que por acaso se chamava Gèrard de Nerval, mas sim Gèrard Labrunie. Com um guia Michelin na mão, muitos turistas ainda procuram em Paris a rue de la Vieille Lanterne, onde o escritor se enforcou. Alguns deles nunca entenderam a beleza de Sylvie.

A segunda entidade é o homem que diz 'eu' na novela. Essa personagem não é Gérard Labrunie. Tudo que sabemos sobre ele é que nos conta a história e não se mata no final, quando faz a melancólica reflexão: 'As ilusões caem uma após outra, como as cascas de uma fruta, e a fruta é a experiência'.

Meus alunos e eu resolvemos chamá-lo de Je-rard, mas, como esse trocadilho não se pode traduzir em inglês, vamos chamá-lo de narrador. O narrador não é o sr. Labrunie, e a razão disso é a mesma pela qual a pessoa que inicia Viagens de Gulliver dizendo:'Meu pai possuía uma pequena propriedade em Nottinghanshire; eu era o terceiro de cinco filhos. Ele me mandou para o Emanuel-College, em Cambridge, quando tinha catorze anos', não é Jonathan Swift, que estudo no Trinity College, em Dublin. Pede-se ao leitor-modelo que se comova com as ilusões perdidas do narrador, e não com as do sr. Labrunie.

Por fim, há uma terceira entidade, em geral difícil de identificar e que eu chamo de autor-modelo, de modo a criar uma simetria com o leitor-modelo. Labrunie pode ter sido um plagiário, e Sylvie poderia ter sido escrita pelo avô de Fernando Pessoa, mas o autor-modelo é a 'voz' anônima que inicia a história com 'Je sortais d'un théâtre' e a encerra fazendo Sylvie dizer: 'Pauvre Adrienne! elle est morte au convent de Saint-S..., vers 1832' ['Pobre Adrienne! Ela morreu no convento de Saint-S..., por volta de 1832']. Nada mais sabemos sobre ele, ou melhor, sabemos apenas o que essa voz diz entre o primeiro e o último capítulos da história. O último capítulo se intitula 'Dernier feuillt', 'Última folha': para além dela tudo que resta é o bosque da narrativa, e cabe a nós entrar e percorrê-lo. Uma vez que aceitamos essa regra do jogo, podemos até tomar a liberdade de dar um nome a essa voz, um nom de plume: com permissão de vocês, acho que encontrei um lindo nome: Nerval. Nerval não é Labrunie, nem o narrador. Nerval não é um ele, assim como George Eliot não é uma ela (só Mary Ann Evans era). Nerval poderia ser es, em alemão, it, em inglês (infelizmente a gramática italiana me obrigaria a dar-lhe um gênero)."

As narrativas literárias, como mostra Umberto Eco, são verdadeiramente ricas. Lembro-me, por exemplo, da "Memórias da Casa dos Mortos", de Fiodor Dostoiévski, que apresenta um aspecto interessante a respeito do narrador. Na verdade, na "Memórias", há dois narradores. A narração dos sofrimentos de uma prisão siberiana, a casa dos mortos, é feita por um velho taciturno, de origem desconhecida, que morreu sozinho e deixou o seu relato em diversos papéis no fundo de um baú. Estes papéis foram encontrados por um outro narrador, que fala da existência do primeiro narrador e dos seus alfarrábios, e resolve levá-los a lume. Destaca-se que o próprio Dostoiévski viveu alguns anos numa prisão na Sibéria, mas nenhum dos dois narradores da "Memórias" se chama Fiodor e, portanto, não pode ser o escrito russo.

Outra obra em que o autor se confunde com o narrador e o autor-modelo é "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. O narrador da obra, escrita em primeira pessoa, conta a história de um senhor que viveu em Paris, Combray e Balbec, que era filho único, e que se apaixonou por, no mínimo, três mulheres: Gilberte, a Duquesa de Guermantes e Albertine. Embora o narrador também tivesse problemas de saúde como o próprio Proust, ele claramente não é o escritor, uma vez que este tinha um irmão, além de ter tido um relacionamento homossexual. No quarto volume da obra, "Sodoma e Gomorra", Proust apresenta de uma forma absolutamente explícita um discurso entre o autor e o leitor. Na verdade, talvez propositadamente, no final da discussão ele confunde o autor com o próprio narrador. Essa parte do romance mereceria uma discussão mais aprofundada, mas por enquanto, reproduzirei apenas a tradução do texto na pena de Mário Quintana:

"Pois os nomes de etapa por que passamos antes de encontrar o nome verdadeiro são falsos e não nos aproximam dele. Nem são propriamente nomes, mas muita vez simples consoantes que não se encontram no nome reencontrado. Aliás, tão misterioso é esse trabalho do espírito a passar do nada à realidade que afinal de contas é possível que essas consoantes falsas sejam degraus previamente erguidos para nos ajudar a aferrar-nos ao nome exato. 'Tudo isso", dirá o leitor, 'nada nos revela sobre a falta de complacência da referida dama; mas já que vos demorastes tanto tempo, deixai-me, senhor autor, que vos faça perder um minuto mais para dizer-vos ser lamentável que, jovem como éreis (ou como era o vosso herói se ele não for a vossa própria pessoa) tivésseis já tão pouca memória a ponto de não conseguir lembrar o nome de uma dama a quem conhecíeis muito bem'. É muito lamentável, com efeito, senhor leitor. E mais triste do que julgais quando se sente aí o anúncio da época em que os nomes e as palavras desaparecerão da zona clara do pensamento e em que será preciso renunciar para sempre a dizer para nós mesmos o nome daqueles a quem melhor conhecemos. É lamentável com efeito que desde a juventude se necessite desse labor para encontrar nomes bastante conhecidos. Mas se só se desse essa invalidez quanto aos nomes apenas conhecidos, muito naturalmente olvidados e que não se quisesse ter o trabalho de recordar, esse mal não deixaria de ter as suas vantagens. 'E quais são, por favor?' Pois bem, senhor, é que só o mal faz observar e aprender e permite decompor os mecanismos que, sem isso, a gente não ficaria conhecendo. Um homem que cada noite tomba como uma massa no seu leito e não vive até o momento de despertar e levantar-se, esse homem jamais pensará em fazer, se não grandes descobertas, pelo menos pequenas observações sobre o sono. Mal sabe se dorme. Um pouco de insônia não é inútil para apreciar o sono, para projetar alguma luz nessa noite. Uma memória sem desfalecimentos não é um excitante muito poderoso para estudar os fenômenos da memória. 'Mas, afinal, a sra. de Arpajon vos apresentou ao príncipe?' Não, mas calai-vos e deixai-me retomar minha narrativa."