terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O princípio

Tagore


'De onde vim? De onde me trouxeste?', perguntava o menino à sua mãe.

Ela respondeu, chorando e rindo ao mesmo tempo, apertando o filho ao colo: Querido, estavas escondido em meu coração, eras o meu desejo! Estavas nas bonecas dos meus brinquedos de menina, e quando, todas as manhãs, eu fazia com areia a imagem do meu Deus, eu também modelava a tua.

Estavas com o Deus de nossa casa dentro do nicho e eu te adorava.

Estavas em todas as minhas esperanças, em todo o meu amor, em toda a minha vida, na vida de minha mãe.

No ventre do Espírito protetor de nosso lar, estiveste durante muitos anos.

Quando em minha mocidade o meu coração abriu as pétalas, tu esvoaçavas em torno como um perfume.

O teu doce e delicado crescimento era como um esplendor celeste, antes da aurora.

Meu querido, gêmeo da luz matutina, vagaste seguindo a correnteza da vida, até que ancoraste em meu coração.

Quando vejo a tua face, vejo nela mistérios que me dominam. Tu que pertences a tudo, és meu agora.

Receio perder-te. Por isso te trago e aperto em meu colo. Que magia atraiu para os meus braços o tesouro do mundo?


* Esta pequena obra prima de Tagore foi publicada em seu livro Lua Crescente.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A garota com brinco de pérola

Vermeer foi um pintor de quadros que imitavam bastante bem a realidade, chamados foto-realísticos, que pareciam fotografia, isso mais de um século e meio antes da técnica ter sido inventada. "A garota com brinco de pérola" é a representação de uma moça que usa um estranho turbante. Ela olha ligeiramente de lado e está iluminada por uma luz que vem de sua frente. Entretanto, a iluminação que permite a perfeita visualização do lenço que lhe cai da cabeça fornece um ar artificial, de certa forma fantasmagórico, à imagem. Também impressiona o brinco que brilha no escuro como se tivesse uma luz emanando do seu interior. A garota exprime uma certa tristeza e muito de mistério (na verdade, uma das mais enigmáticas figuras da pintura universal). Seus olhos negros e sua boca entreaberta fornecem um aspecto de perplexidade à figura. Como teria vivido aquela garota? Em que ela pensava no momento em que a tinta registrou para sempre aquele momento de inquietação? Tendo um semblante triste, de gente sofrida, talvez fosse uma pessoa bem pobre e o brinco de pérola não passasse de uma fantasia de Vermeer: um presente imaginário a uma bela garota que jamais tocaria uma joia daquela natureza. Mas ali está o registro de uma menina singela que percorreu caminhos desconhecidos e teve um destino ignoto.


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Do alto do morro

Do alto do morro eu consegui ver todo o bairro, silencioso, um silêncio falso pois o drama de milhares de pessoas ali se desenrolava. Numa casa daquelas, que minha visão fitava apenas na direção aproximada, estava uma vida bastante particular. Mas a pessoa, com certeza, neste momento nem desconfiava que a casa onde morava era procurada por uma vista meio desiludida, meio conformada.

A ambiguidade da realidade é algo surpreendente. Como a figura no meio da plantação no 'Nosferatu' do Murnau; à princípio pensamos que é uma pessoa ou mesmo um fantasma, quando na verdade trata-se de um espantalho.

Quando retornei à casa observei a novidade do meu rádio empoeirado que nunca mais tocara nenhuma música e que servia apenas como guarda-cartas, com envelopes e páginas escritas jogadas sobre ele. Para aquelas folhas riscadas não houvera resposta. E num instante mágico eu retornei em pensamento ao alto do morro e consegui ver toda a minha ambiguidade: a coragem do sonho e o meu silêncio. Teria sido surpreendente chegar à casa da minha amiga e, sem rodeios, dizê-la: "vim porque estava morrendo de saudade". Ela então, recuperada da pequena surpresa, abriria um sorriso e diria: "que bom".

30/10/1994

Pequeno reboco amarelo

Há poucos dias li na "A Prisioneira" de Proust, uma passagem impressionante. Resumidamente, a passagem é  mais ou menos o seguinte: um escritor está muito doente e lê num jornal a crítica sobre a exposição de um pintor holandês falecido, pouco famoso, autor de uma obra que ele, o escritor, achava tratar-se de uma obra-prima e pensava conhecê-la em todos os detalhes. O crítico do jornal falava exatamente desta obra e dizia da beleza de "um pequeno pedaço de reboco amarelo no muro". Então o escritor doente dizia: "nunca vi este detalhe". E sai, desesperado, para o museu. Ao chegar quase agonizante em frente ao quadro que ele pensava conhecer perfeitamente, observa pela primeira vez alguns pequenos personagens em azul, que a areia era rósea e, finalmente, "a matéria preciosa do minúsculo reboco do muro amarelo". E então o escritor pensa neste instante que era assim que ele deveria ter escrito, que deveria ter construído frases preciosas em si mesmas, como aquele pequeno reboco no muro amarelo. O narrador deixa o escritor de lado e se pergunta: o que faz uma pessoa recomeçar vinte vezes uma coisa que produzirá uma admiração futura tão insignificante para o seu corpo já devorado pelos vermes, como aquele pequeno reboco de muro amarelo pintado com tanta sabedoria e delicadeza por um artista para sempre desconhecido?

Junho/1994.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Último índio abatido

Quando o índio viu que das casas de sua vila só havia cinzas e que jamais voltaria a falar com os seus amigos pois já estavam todos mortos e compreendendo a sua solidão, por ter escapado do massacre por estar à caça distante da vila, ele chorou amargamente como nenhum ser humano jamais choraria, e cantou uma antiga canção de seu povo, que lhe fora ensinada pelo seu avô, quando ele ainda era uma criança e os europeus ainda não sujavam aquelas terras sagradas com pólvora e a manchavam de sangue.

E por entre as lágrimas do seu choro, o índio sonhou com uma estrada no futuro para veículos modernos, coisas que só seriam inventadas alguns séculos depois, e que esta estrada cortaria a sua terra, e do seu povo não restaria mais a mínima lembrança, como se aquela civilização tivesse sido apenas uma lenda, como se os seus parentes trucidados não tivessem possuído sonhos, como se aqueles seres humanos que dormiam sobre a areia furados pelo sabre e pelo chumbo não tivessem amado.

Aquela estrada no futuro certamente teria um nome e seria uma homenagem aos exterminadores que vieram do outro lado do oceano.

15/04/1993.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Os dragões da ponte

Em Ljubljana, sobre a ponte, dragões vigiam a cidade e observam sorrateiramente os transeuntes. Eles encontram-se petrificados mas sabe-se que de uma hora para outra poderão voltar à vida e queimar, com seus hálitos de fogo, as últimas lembranças do passado, que se seguram com forças sobre-humanas aos parapeitos da memória, numa tentativa final de não se precipitarem no abismo do esquecimento. No rio, pássaros voam e cantam como se tivessem a eternidade à disposição. E crianças também, ao lado, brincam com a mesma ilusão. Caleidoscópio, canetinha colorida, caderno de desenho, papel vegetal, pião. E as pessoas passam para ver a feira de antiguidade ao largo do rio: pinturas, selos, moedas, cédulas, medalhas, porta-jóias, cadeiras, mesinhas, colares, envelopes, cartões postais... uma carta da avó que veio de Sarajevo, um postal de Zagreb, uma pintura de Montenegro e uma lembrança do bisavô registrada numa fotografia amarelada. 

01/09/2013.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Setenta anos de Hiroshima

Há 70 anos uma bomba, lançada de um avião norte americano, destruía Hiroshima. A loucura alcançava o seu mais alto grau de sofisticação. Um brinquedo, uma ponte, uma janela, um livro, uma balaustrada, um violino, uma mesinha, uma baqueta, um pedaço de pão, um cobertor, um sapato, uma caneta, um vaso, uma rosa, uma carta, uma criança no chão. O silêncio. O estrondoso e assustador silêncio.

E para a efeméride não passar em branco, segue um pequeno texto de Gérard de Nerval, em Aurélia, a realidade dentro da loucura:

"Como pintar o estranho desespero a que essas ideias aos poucos me reduziram? Um mau gênio tinha tomado o meu lugar no mundo das almas; para Aurélia, era eu mesmo, e o espírito desolado que vivificava meu corpo, enfraquecido, desdenhado, ignorado por ela, via-se para sempre destinado ao desespero ou ao nada. Empreguei todas as forças da minha vontade para penetrar ainda o mistério de que tinha tirado alguns véus. Só posso dar aqui uma ideia estranha do que resultou dessa contenção de espírito. Sentia-me deslizar por um fio estendido de comprimento infinito. A terra, atravessada de veias coloridas de metais em fusão, como já a tinha visto, se clareava aos poucos pela expansão do fogo central, cuja brancura se mesclava com a cor cereja dos flancos do orbe interior. Surpreendia-me encontrar às vezes vastas manchas de água, suspensas como são as nuvens no ar, e mesmo assim oferecendo uma tal densidade que se podiam destacar flocos. mas sem dúvida se tratava de um líquido diferente da água terrestre, e por certo a evaporação do que figurava o mar e os rios para o mundo dos espíritos."