domingo, 31 de julho de 2016

O anjo exterminador

Quando a porta era aberta lentamente, a pessoa que sonhava observava que atrás dela só existia o negro absoluto, e sentia que de um momento para outro o anjo exterminador sairia para lhe dar cabo da vida. Era o terror absoluto que ele jamais experimentara em sua longa vida. Ao afastar-se da porta recordou-se de uma criança que recostara a cabeça sobre ela e se expressara apenas por um sorriso. Naquela época a criança ainda não sabia falar, ou falava de uma maneira meio atabalhoada. Mais tarde, no seu primeiro dia de aula... Como foi mesmo o primeiro dia de aula? Uma farda um pouco comprida, uma lancheira, um brinquedo preferido. Bem, todas as lembranças desapareceriam no momento exato em que o anjo exterminador golpeasse com a sua espada afiada. Talvez na última fração de segundo ainda desse para recordar a apreensão da realidade expressa por Marcel Proust no volume Sodoma e Gomorra, a quarta parte de Em busca do tempo perdido, na tradução de Mário Quintana:

"O contraste entre a continuação, não só da sua existência, mas da plenitude de suas forças, e o aniquilamento de tantos amigos que eu vira aqui e ali desaparecerem, me dava essa mesma sensação que experimentamos quando, nas últimas notícias dos jornais, lemos justamente a que menos esperávamos, por exemplo, a de um falecimento prematuro e que nos parece fortuito porque as causas de que ele é o desenlace nos permaneceram desconhecidas. Esse sentimento é de que a morte não atinge uniformemente a todos os homens, mas de que uma vaga mais avançada da sua maré trágica carrega uma existência situada ao nível de outras que por muito tempo ainda as vagas seguintes pouparão."

Ou, então, a passagem na qual o jovem personagem Marcel recordava da avó com o remorso por tê-la feito sofrer:

"(...) e ainda pior, eu que agora não podia conceber felicidade senão a de encontrá-la espalhada, em minha lembrança, nas linhas daquele rosto modelado e inclinado pela ternura, tinha dedicado outrora uma insensata fúria em procurar extirpar-lhe os mais pequenos prazeres, tal como no dia em que Saint-Loup tirara o retrato de minha avó e em que, tendo dificuldade em dissimular-lhe a puerilidade quase ridícula da sua coqueteria em posar com um chapéu de abas largas numa penumbra favorável, eu me deixara arrastar a uns resmungos impacientes e ofensivos que, sentira-o por uma contração da sua face, tinham atingido o alvo, tinham-na ferido; era a mim que dilaceravam, agora que era impossível para sempre o consolo de muitos e muitos beijos.

Mas jamais poderia apagar aquela contração de sua face e aquela dor de seu coração, ou antes do meu coração; pois como os mortos não mais existem a não ser em nós, é a nós mesmos que batemos sem trégua quando nos obstinamos em recordar os golpes que lhes assestamos."



quinta-feira, 30 de junho de 2016

A flor de "champa"

Nesses dias em que um usurpador brinca de ser rei, um pedaço de poesia de Tagore, para se ter um pouco de alento. A flor de 'champa'.

Tagore

Supondo, por gracejo, que eu me transformasse em uma flor de "champa" crescesse em um dos mais altos ramos da árvore, entre novos rebentos e que o vento alegre me balançasse; tu me reconhecerias, mãe?

Tu me chamarias: "Onde estás, filhinho?"

Eu riria para mim mesmo e ficaria escondido, escondido. Depois devagar eu abriria as minhas pétalas e te olharia, enquanto trabalhavas.

Quando depois do banho, os cabelos úmidos sobre as espáduas, passasses à sombra da árvore de "champa", no pátio onde dizes as tuas orações, tu sentirias o perfume da flor, mas não saberias que o perfume saía de mim.

E, quando, depois do meio-dia, tu te sentasses à janela, tendo o Ramaiana, e a sombra da árvore caísse sobre a tua cabeça e o colo, eu gostaria de projetar minha diminuta sombra na página aberta do livro que estivesses lendo.

Mas adivinharias o teu filho naquela pequeníssima sombra?

À noite, quando andasses pela vacaria, segurando a lâmpada luminosa, eu gostaria de voltar à terra, ser outra vez o teu filho e pedir-te que me contasses uma estória.

"Onde estiveste, filho mau?"

"Não quero dizer, mãe". E seria isso tudo quanto diríamos um ao outro.

sábado, 23 de abril de 2016

Hienas atacam o Brasil

O dia 17 de abril de 2016 ficará marcado para sempre pela ultrajante atitude perpetrada pela Câmara dos Deputados ao aprovar a admissibilidade de crime de responsabilidade da Presidenta Dilma Rousseff e encaminhar a análise de impedimento ao Senado Federal. A referida sessão da Câmara pode ser vista como uma peça mal escrita, encenada por atores medíocres que fremiam e tremiam no palco (Macbeth com o seu dedo em riste) enquanto vomitavam no público indisfarçáveis hipocrisias.  

Deputados reconhecidamente envolvidos em crimes de lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas votando contra a corrupção. Desprezíveis acompanhantes de prostitutas oferecendo votos para as esposas e os filhos. Contumazes achacadores e ladrões votando em nome de Deus e da ética. Como disse a deputada do PCdoB-AP, Professora Marcivânia, nunca se viu tanta hipocrisisa por metro quadrado quanto naquela sessão circense.

Muito foi escrito sobre aquela tarde triste. Escolhi para deixar registrado nesse blog, que apresenta textos de literatura e história, um escrito de Pepe Escobar, escrito originalmente para o Resistir.Info. O título é “Guerra híbrida das hienas dilacera o Brasil” e, com exceção do que o autor escreve sobre a Dilma gestora – que não concordo absolutamente – acredito que é um texto que mostra bem os interesses escondidos na farsa do impedimento. Isso é o que conseguimos enxergar hoje, apenas seis dias após o golpe ter sido dado.
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Guerra híbrida das hienas dilacera o Brasil 
Pepe Escobar

A sombria e repulsiva noite em que a presidente da 7ª maior economia do mundo foi a vítima escolhida para um linchamento de hienas num insípido e provinciano Circo Máximo viverá para sempre na infâmia.Por 367 votos a 137, o impeachment/golpe/mudança de regime contra Dilma Rousseff foi aprovado pelo circo parlamentar brasileiro e agora irá ao Senado, onde uma “comissão especial” será instituída. Se este for aprovado, Rousseff será então marginalizada durante 180 dias e um ordinário Brutus tropical, o vice-presidente Michel Temer, ascenderá ao poder até o veredito final do Senado.

Esta farsa desprezível deveria servir como um alerta não só aos BRICS, mas a todo o Sul Global.Quem é que precisa de NATO, R2P (“responsability to protect”) ou “rebeldes moderados” quando pode obter a sua mudança de regime apenas com o ajustamento do sistema político/judicial de um país?

O Supremo Tribunal brasileiro não analisou o mérito da questão – pelo menos ainda não.Não há qualquer evidência sólida de que Rousseff tenha cometido um “crime de responsabilidade”. Ela fez o que todo presidente norte-americano desde Reagan tem feito – para não mencionar líderes de todo o mundo: juntamente com o vice-presidente, o desprezível Brutus, Rousseff foi ligeiramente criativa com os números do orçamento federal.

O golpe foi patrocinado por um vigarista certificado, o presidente da câmara baixa Eduardo Cunha, confirmadamente possuidor de várias contas ilegais na Suíça, listado nos Panama Papers e sob investigação do Supremo Tribunal. Ao invés de reger hienas quase analfabetas num circo racista, em grande medida cripto-fascista, ele deveria estar atrás das grades. Custa crer que o Supremo Tribunal não tenha lançado ação legal contra Cunha.

O segredo do seu poder sobre o circo é um gigantesco esquema de corrupção que perdura há muitos anos, caracterizado pelas contribuições corporativas para o financiamento das suas campanhas e de outros. E aqui está a beleza de uma mudança de regime light, uma revolução colorida da Guerra Híbrida, quando encenada numa nação tão dinamicamente criativa como o Brasil. A galeria de espelhos produz um simulacro político que teria levado descontrucionistas como Jean Braudrillard e Umberto Eco, se vivos fossem, a ficarem verdes de inveja.

Um Congresso atulhado com palhaços/tolos/traidores/vigaristas, alguns dos quais investigados por corrupção, conspirou para depor uma presidente que não está sob qualquer investigação formal de corrupção – e que não cometeu qualquer “crime de responsabilidade”.

A restauração neoliberal

Ainda assim, sem um voto popular, os maciçamente rejeitados gêmeos Brutus tropicais, Temer e Cunha, descobrirão que é impossível governar, muito embora eles encarnassem perfeitamente o projeto das imensamente arrogantes e ignorantes elites brasileiras.

Um triunfo neoliberal, com a “democracia” brasileira espezinhada abaixo do chão. É impossível entender o que aconteceu no Circo Máximo neste domingo sem saber que há um rebanho de partidos políticos brasileiros que está gravemente ameaçado pelos vazamentos ininterruptos da Lava Jato.

Para assegurar a sobrevivência deles, a Lava Jato deve ser “suspensa”; e isto será feito sob a falsa “unidade nacional” proposta pelo desprezível Brutus Temer. Mas antes a Lava Jato deve produzir um escalpe ostensivo. E este tem de ser Lula na prisão – comparado ao qual a crucificação de Rousseff é uma fábula de Esopo. Os media corporativos, conduzidos pelo venenoso império Globo, saudariam isto como a vitória final — e ninguém se preocuparia com a aposentadoria da Lava Jato.

Os mais de 54 milhões que em 2014 votaram pela reeleição de Roussef votaram errado. O “projeto” global é um governo sem voto e sem povo; um sistema parlamentar de estilo brasileiro, sem aborrecimentos com “eleições” incômodas e, crucialmente, campanhas de financiamento muito “generosas” e flexibilidade que não obrigue a incriminar companhias/corporações poderosas.

Em resumo, o objetivo final é “alinhar” perfeitamente os interesses do Executivo, Legislativo, Judiciário e media corporativos. A democracia é para otários. As elites brasileiras que fazem o controle remoto das hienas sabem muito bem que se Lula concorrer outra vez em 2018, vencerá. E Lula já advertiu; ele não endossará qualquer “unidade nacional” sem sentido; estará de volta às ruas para combater qualquer governo ilegítimo que surja.

Agora estamos abertos à pilhagem

No pé em que está, Rousseff corre o risco de se tornar a primeira grande baixa da investigação Lava Jato, com origem na NSA [National Security Agency, dos Estados Unidos], que perdura há dois anos. A presidente, reconhecidamente uma gestora econômica incompetente e sem as qualificações de um político mestre, acreditou que a Lava Jato – que praticamente a impediu de governar – não a atingiria porque ela é pessoalmente honesta. Mas a agenda não tão oculta da Lava Jato foi sempre a mudança de regime.

Quem se importa se no processo o país for deixado à beira de ser controlado exatamente por muitos daqueles acusados de corrupção? O desprezível Brutus Temer – uma versão fútil de Macri da Argentina – é o condutor perfeito para a implementação da mudança de regime. Ele representa o poderoso lobby bancário, o poderoso lobby do agronegócio e a poderosa federação de indústrias do líder econômico do Brasil, o Estado de São Paulo.

O projeto neo-desenvolvimentista para a América Latina – pelo menos unindo algumas das elites locais, investindo no desenvolvimento de mercados internos, em associação com as classes trabalhadoras – agora está morto, porque o que pode ser definido como capitalismo sub-hegemônico, ou periférico, está atolado na crise após a derrocada de 2008 provocada por Wall Street.

O que resta é apenas restauração neoliberal, a TINA (“there is no alternative”). Isto implica, no caso brasileiro, a reversão selvagem do legado de Lula: políticas sociais, políticas tecnológicas, o impulso para expandir globalmente grandes companhias brasileiras competitivas, mais universidades públicas, melhores salários.

Numa mensagem à Nação, Brutus Temer admitiu isto; a “esperança” de que o pós-impeachment será absolutamente excelente para o “investimento estrangeiro”, pois lhe permitirá pilhar a colonia à vontade; um retorno à tradição histórica do Brasil desde 1500. De modo que Wall Street, o Big Oil dos EUA e os proverbiais “American interests” vencem este round no circo – graças às, mais uma vez proverbiais, elites vassalas/compradoras.

Executivos da Chevron já estão a salivar com a perspectiva de porem as mãos nas reservas de petróleo do pré sal; que já foram prometidas por um vassalo confiável, integrante da oposição brasileira. O golpe continua. As hienas reais ainda não atacaram. De modo que isto está longe de ter terminado.”


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Praça do Ferreira em 02/04/2016

No final do século XIX e começo do século XX existiam quatro restaurantes nas quinas da praça do Ferreira. Segundo o Prof. Nirez Azevedo, no canto noroeste ficava o Café do Comércio; no canto nordeste da praça ficava o Café Java onde o pessoal da Padaria Espiritual se reunia; no canto sudoeste ficava o Restaurante Iracema, onde se encontravam os membros da Academia Rebarbativa, e no canto sudeste da praça, o Café Elegante (na verdade este foi o último a surgir, apenas em 1902). Era uma época em que os homens andavam de paletó e gravata, não necessariamente de black tie, pois o clima não permitia. Mas a praça do Ferreira era um local de encontros, de discussões, de discursos, enfim, um local onde as pessoas podiam expressar democraticamente suas opiniões.

A Bellé époque passou. Os cafés foram derrubados e nunca mais o pessoal da Padaria Espiritual caminhou pela praça. Várias reformas aconteceram durante o século XX...

Mas apesar das mudanças, as pessoas continuaram utilizando a praça como um local de encontro e de discussão. No começo do mês de abril do presente ano, 52 após o golpe militar de 1964, o país passa novamente por uma grande crise política. Trata-se da tentativa da elite brasileira e dos capitalistas da ocasião (e não os acusaria de utilizarem simultaneamente todas as formas de acumulação de riqueza como contrabando, roubo, tráfico, corrupção, empréstimos camaradas de bancos estatais, sonegação de impostos, ciranda financeira, agiotagem oficializada, jogatinas e a maravilhosa mais valia) de voltarem a comandar o país na esfera federal através de um golpe jurídico-midiático. 

Nos treze anos de presidência de Lula e Dilma, uma série de programas sociais foi implementada no país. Estes programas possuem nome e sobrenome: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Fies, ProUni, Pronatec, Sisu, Ciência sem Fronteiras, Programa Luz Para Todos, Samu, Mais Médicos, Rede Cegonha, Brasil Sorridente, Farmácia Popular, Pro Jovem Urbano, Brasil Conectado, Cidades Digitais, Projeto Jovem Aprendiz, Programa Água Para Todos, Brasil Sem Miséria, Aqui Tem Agricultura Familiar, Casa da Mulher Brasileira, entre outros.

Tais programas, que permitiram que, entre outros números impressionantes, 32 milhões de pessoas saíssem da miséria, e que o Brasil deixasse o mapa da fome da ONU, maltratou bastante a classe dominante do país. Através dos meios de comunicação e de parte do judiciário (isso renderá diversas dissertações e teses ao longo de várias décadas) acusou-se o ex-presidente Lula e o partido da presidenta Dilma de estarem atolados em corrupção (palavra mágica que quando gritada e cuspida pela classe média - que inadvertidamente se apropria de um discurso criado pela classe dominante - a um partido político em particular, a faz se sentir diferenciada, pura e santificada). 

Entretanto, observemos com atenção esses dados, os governos de Lula e Dilma criaram diversas ações para combater exatamente a corrupção; outros tiveram oportunidade de fazê-lo e não o fizeram. Em 2003 a Controladoria Geral da União teve seu status elevado a Ministério; em 2004 foi criado o Portal da Transparência; em 2005 foi feita a regulamentação dos Pregões Eletrônicos; em 2008 foi criado o Cadastro de Empresas Inidôneas e Suspensas (CEIS); em 2012 foi aprovada a Lei de Acesso à Informação e em 2013 foi aprovada a Lei Anticorrupção. Vários mecanismos, portanto, foram criados pelos dois presidentes visando combater um dos males que a classe dominante é useira e vezeira em participar. Talvez aí se encontre um dos grandes empecilhos à governabilidade. 

E a governabilidade começou a ser minada por pessoas que ao invés de estarem falando em acabar a "corrupção" (não tem para onde fugir, é um mantra) deveriam estar respondendo pela prática de ações bastante obscuras. Quem se informa por fontes alternativas à grande imprensa familiar tem conhecimento das off-shores de Paulo Henrique Cardoso, filho de FHC; das contas secretas de Aécio Neves e familiares em Liechteinstein; do apartamento em Miami comprado por um ex-juiz do STF através de off-shore nas Ilhas Virgens Britânicas; da mansão de Paula Azevedo Marinho, herdeira da Rede Globo, numa praia em região de preservação ambiental, adquirida também por off-shore. Essas estranhas transações estão todas documentadas. Causam indignação e textos de reprovação - como este - mas, infelizmente, podem ser considerados como filigrana num quadro bem mais complexo. Se preferirmos, podemos dizer que são apenas exemplos da hipocrisia da classe dominante e de alguns de seus representantes.

Hipocrisia que nem original chega a ser. Já no Brasil do século XVII, o padre Antonio Vieira, nos seus famosos sermões, mostrava numa retórica inigualável quão hipócritas eram os donos dos engenhos e os senhores fazendeiros que exploravam o trabalho escravo e semi-escravo durante a semana e no domingo iam ouvir a palavra de Cristo. "Se as galas, as jóias e as baixelas, ou no Reino, ou fora dele, foram adquiridas com tanta injustiça e crueldade, que o ouro e a prata derretidos, e as sedas se se espremeram, haviam de verter sangue; como se há-de ver a fé nessa falsa riqueza? Se as vossas paredes estão vestidas de preciosas tapeçarias, e os miseráveis a quem despistes para as vestir a elas, estão nus e morrendo de frio; como se há-de ver a fé, nem pintada nas vossas paredes? (...) Se as pedras da mesma casa em que viveis, desde os telhados até os alicerces estão chovendo os suores dos jornaleiros, a quem não fazíeis féria, e, se queiram buscar a vida a outra parte, os prendíeis e obrigáveis por força; como se há-de ver a fé, nem sombra dela na vossa casa?" A hipocrisia da classe dominante é uma herança.

A questão básica é que esta mesma classe dominante, além de possuir os meios de produção e os bancos, detém os meios de comunicação e o coração e a mente da maior parte do judiciário. Os exemplos que ilustram esta afirmação são muitíssimos e certamente serão exploradas pelos pesquisadores das áreas de humanas no futuro. Mas tem um caso particular que ainda hoje acho absolutamente inacreditável, o do tal juiz Sérgio Moro, que mandou grampear a conversa de um ex-presidente da República com a atual presidenta. Para ver o absurdo da situação, imaginemos um juiz de uma cidade do Wyoming ordenar a um policial do FBI o grampo de uma conversa entre o ex-presidente Bill Clinton com o atual presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, e entregar a gravação no mesmo dia à rede ABC, ou à Fox, e elas divulgarem - participando de um crime contra a Segurança Nacional - no telejornal da noite! Isso nunca aconteceria. Nunca, never, jamais, mai... 

Como consequência, distorcem-se acontecimentos, inventam-se fatos, manipula-se descaradamente a opinião pública escondendo-se crimes que deveriam ser condenados exemplarmente. E condenam-se pessoas sem provas a troco de prêmios fajutos ou aparições ridículas em chamadas ao vivo de telejornais ou em capas de revistas sem nenhuma credibilidade. A verdade dos fatos, infelizmente, parece estar escondida no helicóptero do senador da República no qual foram encontrados os 450 kg de pasta base de cocaína e que a grande imprensa brasileira misteriosamente não noticiou.

Então de um lado há uma presidenta que aposta alto nos programas sociais e no combate à corrupção; e do outro lado há os que têm interesses exatamente antagônicos. Dilma é uma pedra no meio do caminho que precisa ser retirada de qualquer forma, até por golpe, se for preciso. Para perpetrar o golpe final na presidenta eleita com mais de 54 milhões de votos, sem nenhum crime pesando sobre ela, um sujeito condenado pelo STF recebe as bênçãos dos meios de comunicação, dos bancos, das redes de supermercados, de empresas de telefonia, da FIESP, enfim, de todos aqueles que lucram com os mecanismos bem conhecidos de enriquecimento do nosso sistema capitalista. 

Tudo parecia favas contadas. Parecia que o golpe seria inevitável. Mas durante o mês de março de 2016, duas grandes manifestações ocorreram em diversas cidades do país, uma no dia 18 e outra no dia 31, todos falando claramente que no Brasil não há mais espaço para aventuras de malandros que querem alcançar o poder de uma forma absolutamente espúria.

Chegamos, então, no início de abril de 2016 e Lula vem ao Ceará para um comício a favor da democracia e contra o golpe que parte do Congresso, que incrivelmente não está representando os interesses da maior parte da população, pretende perpetrar contra a presidenta Dilma. A acolhedora praça do Ferreira foi o local escolhido para a manifestação daqueles que acreditam no valor de ser governado por alguém que venceu uma eleição legítima através de regras democráticas previamente estabelecidas.

A chuva e a emoção na velha praça do Ferreira marcaram de forma inesquecível o segundo dia do mês de abril. Trabalhadores vindos de várias cidades do Ceará, perfazendo um total de quase 20.000 pessoas assistiram ao discurso de um Lula quase sem voz, mas com muita vontade de defender a decisão popular traduzida no mandato da presidenta Dilma. Entre várias frases, Lula expressou: "E eu às vezes fico vendo televisão, as revistas e os jornais e fico me perguntando por que tanto ódio? Será que é ódio porque a empregada doméstica passou a ter direito neste País? Porque filho de pobre negro da periferia passou a fazer universidade nesse País? Porque em apenas 12 anos geramos 22 milhões de empregos nesse País? Será que é porque durante 12 anos todos os trabalhadores organizados tiveram aumento de salário? Porque nós criamos o FIES e colocamos milhões de jovens na universidade? Por causa do Pronatec, das escolas técnicas, do programa de aquisição de alimentos, do Minha Casa Minha Vida, do Bolsa-Família, do aumento do salário mínimo? Eles precisam explicar poque tanto ódio da primeira mulher que governa este País".

O dia 02 de abril de 2016 ficou definitivamente marcado na história da praça do Ferreira e na história da cidade de Fortaleza. Foi como se as vozes de milhares, milhões de pessoas dissessem aos golpistas de todas as matizes: Não Vai Ter Golpe!




Foto da Praça do Ferreira na manhã do dia 02 de abril de 2016, quando cerca de 30.000 pessoas, juntamente com o ex-presidente Lula e vários políticos protestaram contra o golpe na presidenta Dilma Rousseff. 


Notas:
1. O texto do professor Nirez que serviu de embasamento para o início deste texto foi publicado no "folha DO CENTRO", número 42, setembro de 96.



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Adeus, Umberto

Ontem Umberto Eco viajou e não retornará nunca mais. 'Viajou' combina bem com o que ele escrevia acerca do mundo real e acerca do mundo ficcional, do qual ele era fascinado. Lembro-me que em 1993 tive a oportunidade de passar uma manhã na cidade de Alessandria, a terra-natal do velho escritor. Caminhei pelas ruas e, junto com um amigo italiano, concordamos: è una città brutta. Pelo menos talvez no meu caso eu esperasse - já tendo o conhecimento de que se tratava da cidade de nascimento do grande Umberto - uma cidade grandiosa, cheia de mistérios e personagens estranhos e extraordinários. Ao contrário, as pessoas pareciam ser bastante normais, um pouco tristes, como um padre fleumático caminhando com o seu hábito e uma senhora marcada pelo tempo com uma sacola na mão... Não consegui ver ninguém que se parecesse com Sylvie, ninguém saindo de um teatro, nem detetives medievais ou cavaleiros templários. Tive vontade de algum dia ter ido à cidade de Bologna e ter assistido a uma aula do velho mestre na milenar universidade. Mas essa chance eu não tive (poderia repetir a frase de um dos narradores da obra de Gérard Labrunie "As ilusões caem uma após outra, como as cascas de uma fruta, e a fruta é a experiência" mas acho que isso seria muito lugar-comum; Eco quase certamente não aprovaria). Enfim, para prestar uma rápida homenagem ao grande mestre, pequeno excerto de "Seis passeios pelo bosque da ficção":

"Contudo, há outro motivo pelo qual nos sentimos metafisicamente mais à vontade na ficção do que na realidade. Existe uma regra de ouro em que os criptoanalistas confiam - a saber, que toda mensagem secreta pode ser decifrada, desde que se saiba que é uma mensagem. O problema com o mundo real é que, desde o começo dos tempos, os seres humanos vêm se perguntando se há uma mensagem e, em havendo, se essa mensagem faz sentido. Com os universos ficcionais sabemos sem dúvida que têm uma mensagem e que uma entidade autoral está por trás deles como criador e dentro deles como um conjunto de instruções de leitura."

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Eppur si muove

Affonso Romano de Sant’ Anna

Não se pode calar um  homem 
Tirem-lhe a voz, restará o nome.
Tirem-lhe o nome 
e em nossa boca restará
a sua antiga fome.

Matar, sim, se pode.
Se pode matar um homem.
Mas sua voz, como os peixes,
nada contra a corrente
a procriar verdades novas
na direção contrária à foz.


Mente quem fala que quem cala consente.
Quem cala, às vezes, re-sente,
Por trás dos muros dos dentes, 
edifica-se um discurso tranparente.

Um homem não se cala
com um tiro ou mordaça. A ameaça
só faz falar nele
o que nele está latente.


Ninguém cala ninguém,
pois existe o inconsciente.
Só se deixa enganar assim
quem age medievalmente.
Como se faz para calar o vento
quando ele sopra
com a força do pensamento?
Não se pode cassar a palavra a um homem,
como se caçam às feras o pêlo e o chifre
na emboscada das savanas.
Não se pode, como a um pássaro,
aprisionar a voz humana
A gaiola só é prisão
para quem não entende
a liberdade do não.
Se a palavra é uma chave,
que fala de prisão, o silêncio
é uma ave- que canta na escuridão.


A ausência da voz
é, mesmo assim, um discurso.
É um rio vazio, cujas margens sem água
dão notícia de seu curso.

No princípio era o Verbo
- bem se pode interpretar:
no princípio era o Verbo
e o Verbo do silêncio
só fazia verberar.
Na verdade, na verdade vos digo:
mais perturbador que a fala do sábio
é seu sábio silêncio,
con-sentido.

O que fazer de um discurso interrompido?
Hibernou? Secou na boca, contido?
Ah, o silêncio é um discurso invertido,
modo de falar alto
- o proibido.

O silêncio
depois da fala
não é mais inteiro.
Passa a ter duplo sentido.
É como o fruto proibido, comido
não pela boca,
mas pela fome do ouvido.

Se um silêncio é demais,
quando é de dois, geminado,
mais que silêncio
- é perigo,
é uma forma de ruído.


Por isso que o silêncio
de algumas consciências,
quando passa a ser ouvido
não é silêncio
- É estampido.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O livro do viajante

Depois de uma longa viagem o viajante chegava a uma cidade estranha. Depois de uma noite de descanso e já estando quase para deixar o hotel, avistava um antigo amigo que se encontrava na janela de um apartamento de um prédio vizinho. Isso revelava-se como uma grande surpresa, mas os dois conversavam sobre as novidades da vida. Então o viajante falava que quando visitara a sua mãe, aproveitara a oportunidade para visitar a avó e a mãe do amigo que moravam próximas na cidade natal. E o viajante lembrava de Teresa, que andava com calça jeans riscada, usava todas as gírias da juventude de sua época, colecionava posteres de bandas de rock e tinha uma coleção de borboletas. Também devido à beleza das flores, principalmente daquelas que cresciam no jardim da casa de seus pais, Teresa resolvia estudar biologia, mas não conseguia terminar o curso de bacharelado. Casava-se com um velho marinheiro que tocava viola e ficava deprimido sempre na época de lua cheia. Dizia-se que era mal de família, mas nenhum dos seus companheiros chegara a conhecer um único de seus familiares. Após o casamente, ela se mudava e ia morar em uma cidade bem distante, mas a bem da verdade, o viajante não sabia o porquê do amigo ter contado este particular de sua irmã. Muito provavelmente o viajante e Teresa jamais se veriam novamente. Ele despedia-se do amigo e ia ao parque onde tinha um encontro.

No caminho para o parque percebia que as folhas de todas as árvores estavam absolutamente imóveis, não havia o menor indício de vento na rua que levaria ao seu objetivo. Depois de caminhar umas duas quadras, o viajante tinha a sensação de estar sendo perseguido, mas alguns passos depois convencia-se que era apenas uma impressão. Chegava ao lugar marcado e sentava-se num banco afastado no centro da praça bastante arborizada. O chão tinha folhas secas, parecia que havia vários dias que não era varrido. O contato que o viajante esperava chegava vagarosamente. No silêncio em que estava, afastou-se, após deixar um embrulho nas mãos do que esperava. Um policial que encontrava-se a uma certa distância parecia estar observando a cena disfarçadamente. O viajante pegava o embrulho e seguia o seu caminho. Um vento forte soprava repentinamente ao que vieram se juntar raios e trovões. Quase que imediatamente, uma chuva forte caía sobre a cidade.

Ao chegar ao seu quarto no hotel, molhado e cansado, ele abria o embrulho e descobria um pequeno livro com letras pintadas de roxo formando três palavras em uma língua desconhecida. Por que razão lhe passaram aquele livro? No seu interior havia um texto incompreensível e uma folha de papel amassada com um mapa que ele reconheceu como o da cidade onde ele se encontrava. O viajante jogava o livro sobre a mesa e começava a rabiscar um relatório. O vento voltava a soprar e a janela ficava batendo repetidamente no parapeito do quarto. O viajante descia e iniciava uma breve caminhada, parando na entrada de um prédio que parecia ser um pequeno colégio e que estava marcado no mapa recebido. Ele entrava cautelosamente e, ao atravessar um longo corredor, saía numa rua cujo calçamento era todo de pedra. Diferentemente da rua onde tivera acesso ao prédio, aquela rua possuía pouquíssimas casas. O viajante parecia reconhecer um bairro onde ele morara durante a sua infância. É como se ele tivesse voltado ao passado, com as mesmas ruas vazias compostas por poucas casas, cachorros que perambulavam pelas calçadas, carroças que eram puxadas por burros e crianças que corriam sem preocupação. Uma das casas era exatamente igual a de uma velha senhora que dava esmola para pobres indigentes que chegavam do interior fugindo da seca. Duas árvores frondosas formavam um túnel de folhas na entrada da casa que possuía um alpendre com bancos cinzas feitos de pedra. Na época das chuvas, ele lembra bem, aqueles bancos ficavam cobertos de formigas de asas. E a janela com quatro bibelôs era uma marca registrada: com certeza não havia nenhuma igual aquela em todo o mundo. Ao olhar as crianças que corriam de pega-pega o viajante conseguia reconhecer a pequena Teresa com os seus oito aninhos de vida. Aquilo era absolutamente inacreditável. Ele acabara de voltar ao passado ao atravessar o corredor de um prédio quase abandonado em uma cidade perdida no meio do mapa e do tempo.

O prédio do longo corredor desapareceu após uma leve neblina se dissipar e uma chuva forte voltar a cair. Que pena do viajante. Saiu para recuperar um livro incompreensível e ficou preso para sempre no passado.