sábado, 8 de fevereiro de 2020

Um ano de tragédia

Após o golpe de 2016, três acontecimentos marcaram de forma mais contundente a perda de direitos dos cidadãos, entre várias outros que continuam a ocorrer: a PEC do teto de gastos, a reforma trabalhista e a reforma previdenciária. O capital teve bastantes motivos para sorrir - e aqui a gente humaniza o desumanizador apenas para usar a linguagem dos economistas neoliberais e da mídia hegemônica financiada por ele - como se pode atestar num único exemplo, o lucro apenas do Banco Bradesco em 2019, que foi de R$ 25 bilhões. O desmatamento recorde da Amazônia, as queimadas gigantescas dessa mesma floresta, a invasão das terras e assassinatos de indígenas, o derramamento de petróleo nas praias do Nordeste, a 'venda' da Embraer para a Boeing, a entrega da Base de Foguetes de Alcântara para os Estados Unidos, a venda da Petrobrás Distribuidora, a entrega de vários poços de petróleo do Pré-Sal para empresas internacionais, a privatização da Casa da Moeda, a privatização dos Correios, da Caixa Econômica e do Banco do Brasil, a liberação para a exploração mineral em terras indígenas e o seu consequente extermínio, as notas inacreditavelmente erradas do ENEM, o apagão no INSS, o aumento dos assassinatos pelas Polícias Militares, são facetas perversas de uma mesma realidade. Ao mesmo tempo, pessoas como vários membros da família do presidente da República são poupados de investigação pela justiça e pelos órgãos de fiscalização comandados pelo ex-juiz Sérgio Moro, os ministros do Turismo e do Meio Ambiente são acusados de vários crimes e a Damares e o Araújo ficam falando bobagem, servindo de bobos da corte. 


Uma análise bastante primorosa do primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro foi fornecido pela Profa. Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Céli Regina Jardim Pinto, no texto reproduzido abaixo denominado "O governo Bolsonaro: um projeto vitorioso?". Trata-se do sexto ensaio de uma série sobre o primeiro ano de Jair Bolsonaro na Presidência, constituindo parte de uma parceria entre o 'Nexo" e a Associação Brasileira de Ciência Política. 

O governo Bolsonaro: um projeto vitorioso?
Interpretar o governo Bolsonaro como um fracasso é um equívoco perigoso. Ao mesmo tempo, anunciá-lo como a vitória definitiva de um projeto autoritário-fascista é igualmente equivocado.
O projeto do governo é inserir o Brasil no neoliberalismo profundo, riscando do mapa a presença do Estado na economia e nas políticas públicas sociais.
Bolsonaro tem importância relativa nesse projeto. É uma figura caricata, violenta, inculta, mas que interpela com êxito largas parcelas da população. A Presidência caiu no seu colo como um prêmio de loteria. É transparente que ele não tem ideia do que é ser presidente da república, mas isso tem pouca importância para o projeto. Certamente é foco de chacota em encontros internacionais, mas há cinismo nisso. Ao mesmo tempo que deve ser desconfortável para o sofisticado Macron, a cientista Merkel ou o milionário Trump conviver com Bolsonaro, eles sabem que o ex-tenente é um peão importante no xadrez do imperialismo capitalista do século 21.
O governo se organiza com muita esperteza para cumprir esse papel. Enganam-se os que imaginam que estamos frente a dois governos paralelos, um competentemente neoliberal e técnico, outro culturalmente obscuro e ideológico. Essa divisão é falsa e serve a muitos interesses.
A equipe econômica aparece como respeitável para todos os setores conservadores do país: os empresários de diferentes plumagens e a grande mídia, mesmo as que Bolsonaro “detesta”, como a Globo e a Folha. Na última, colunas de opinião dão chances a críticas, já na Globo, mesmo em sua versão mais sofisticada, a Globonews, as reformas propostas pelo governo são anunciadas por todos os seus jornalistas como necessárias e bem-vindas. Nisso a mídia é uma aliada importante do Poder Legislativo, liderado pelo hábil Rodrigo Maia na Câmara dos Deputados, que articula a aprovação de reformas ultraconservadoras. O governo teve uma importante vitória com a aprovação da reforma da Previdência e certamente outras virão.
Mas o projeto desestruturante necessita de uma sociedade desorganizada e passiva, uma sociedade não demandante. Essa talvez seja a questão mais séria que o neoliberalismo em geral enfrenta no século 21, pois há sociedades mobilizadas que se espalham por diferentes partes do mundo, com organizações diversas e demandas variadas. Seria uma imprudência analítica encontrar uma causa comum para todas as manifestações que ocorrem desde 2011, mas seria igualmente temeroso atribuí-las à mera coincidência.
O problema é que não se elimina a consciência crítica da sociedade em um passe de mágica. No Brasil, o governo Bolsonaro faz dois ataques estratégicos e simultâneos nesse sentido: o primeiro reduz ao mínimo, quando não zera, recursos orçamentários para as áreas da cultura e da educação: faz ameaça contra o cinema, o teatro, as artes visuais, a música, a educação em todos os níveis e a ciência. O segundo ataque se dirige aos setores que necessitam ser convencidos de que cultura, ciências, luta por direitos, por liberdade e igualdade são farsas. Qualifica todas as áreas da cultura e da educação como produtoras do marxismo cultural, da ideologia de gênero e de riscos à família e à religião e assim dá sentido à farsa, central para fragilizar as classes populares e minimizar suas possíveis demandas. Nesse esforço, as igrejas evangélicas são aliadas fundamentais.
Não se pode satanizar as igrejas evangélicas e afirmar que elas só existem para apoiar governos como o de Bolsonaro. O crescimento exponencial das denominações pentecostais é um fenômeno complexo e não pode ser atribuído a cenários momentosos. Mas o que se deve pontuar aqui é que essas igrejas formam lideranças e congregações predispostas a se colocarem em antagonismo às liberdades individuais, às ciências, à cultura, à luta por direitos.
As congregações são celeiros para teorias terraplanistas, antiecológicas, antivacinação, antiborto, a favor da família tradicional, da violência policial, do armamento e do encarceramento. Criam espaços privilegiados para ministros que afirmam ter visões de entidades religiosas, ou como o da educação, que trata de convencer a população de que nas universidades há grandes plantações de maconha e que seus laboratórios de química produzem anfetaminas. Nesse cenário, dirigir carros de aplicativos acaba parecendo muito mais digno do que perder tempo em antros amorais como as universidades. Em um país com índices muito baixos de leitura, a fala do presidente, ao dizer que os livros didáticos têm texto demais, cai como uma luva.
O êxito do governo na desmobilização e/ou paralisia política da sociedade pode ser medido, paradoxalmente, por dois eventos muito festejados pelas forças de oposição: as revelações do Intercept Brasil, que mostraram as formas não republicanas como foram montadas as provas contra Lula pelo então juiz Moro na operação Lava Jato, e a soltura do próprio Lula, por consequência da decisão do STF contra a prisão de condenados em segunda instância. Moro continua sendo o ministro mais popular do governo, mais popular que o próprio Bolsonaro. E Lula, solto, fez pouca diferença.
A questão mais séria em tudo isso, que necessita ser pensada para além de justificativas ao sucesso de Bolsonaro como consequência das fake news, é por que, após um ano de governo — que precarizou a vida das camadas mais pobres da população; reduziu verbas para a saúde; atacou a educação e, principalmente seu setor de maior êxito, as universidades federais; matou pobres, principalmente crianças e jovens negros nas comunidades; desqualificou a cultura; perseguiu movimentos sociais — não está sendo produzida uma reação popular capaz de ameaçar esse projeto autoritário, obscurantista, no limite do fascismo?
O sucesso do governo não pode ser medido pela melhoria das condições de vida do brasileiro em qualquer aspecto, seja a saúde, a educação, o emprego. Não foi a isso que veio, mas, sim, na confortável apatia da população frente a quem está a destruir com precisão cirúrgica conquistas fundamentais para os brasileiros, algumas inclusive garantidas na Constituição de 1988.
2020 é um ano eleitoral, portanto um ano muito imprevisível. É esperar para ver.

domingo, 8 de setembro de 2019

Momentos do dia

Na sexta parte de Em busca do tempo perdido, também conhecido como A Fugitiva, Albertine morre e um grande número de sentimentos invade a alma do narrador. Entre tristezas, angústias, ciúmes e nostalgia, o autor faz uma long areflexão sobre a morte de um ente amado. Há uma passagem, em particular, em que Proust relaciona momentos do dia a sentimentos relacionados a pequenos fatos do cotidiano. Na tradução de Carlos Drummond de Andrade:

"...tudo isto modificava o caráter de minha tristeza retrospectiva tanto quanto as impressões de luz ou de perfume que lhe estavam associadas, e completava cada um dos anos solares que eu tinha vivido - e que, só elas suas primaveras, suas árvores, suas brisas, já eram tão tristes por causa da lembrança inseparável dela -, duplicando-o com uma espécie de ano sentimental, em que as horas não eram definidas pela posição do sol, mas pela espera de um encontro, em que o comprimento dos dias ou os progressos da temperatura eram medidos pelo voo de minhas esperanças, pelo progresso de nossa intimidade, pela transformação progressiva do seu rosto, pelas viagens que ela fizera, pela frequência e pelo estilo das cartas que escrevera durante certa ausência, pela sua maior ou menor precipitação em me ver de volta."

Essa passagem fez-me lembrar de um texto de Ítalo Calvino em que este descreve a cidade de Zaíra. De certa forma, Calvino revisita Proust de uma maneira muito feliz na sua obra As cidades invisíveis:

"Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever a cidade de Zaíra dos altos bastiões. Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do seu passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendentes de um usurpador enforcado: o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela: a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos remendando as redes que, sentados no molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe."

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Pessoas cruéis

Sórdidos, monstros, sujos, sem alma, canalhas, gente lixo, desumanos, gente de almas degeneradas, último degrau da indigência, rancorosos, soberbos, baixos, indignos, gente corrupta tramando patifarias no submundo, gente ordinária, boçais, arrogantes, megalomaníacos, pessoas desprovidas de sentimentos, elite vagabunda, pessoas cruéis, escrotos, seres da pior espécie, adoecidos pelo ódio, tóxicos, cretinos, meliantes, sem caráter, vagabundos, mesquinhos... Por que adjetivos tão pesados dirigidos a um grupo de pessoas, no caso, aos procuradores federais de Curitiba [1] pela grande rede?

Bem, hoje a VazaJato através do TheIntercept Brasil e do UOL divulgou mais um vazamento das mensagens do Telegram da Força Tarefa da Lava Jato. De todas as revelações bombásticas, a de hoje foi a que mais chocou porque mostrou o deboche generalizado dos procuradores de Curitiba em relação às mortes da esposa de Lula, D. Marisa Letícia; do seu irmão Vavá e do seu neto querido Arthur. Boa parte da comunidade ficou absolutamente estarrecida com a falta de empatia e com a boçalidade dos procuradores. O jornalista Fernando Brito pontuou: "Este é o calcanhar de Aquiles da Lava Jato: ter abandonado qualquer obrigação moral em nome do que supõe ser a sua 'missão moral', de todo-poderosos, ungidos que foram por um concurso público e uma nomeação que os transformou numa casta diante da qual a 'ralé' representada por Lula não tem direito sequer ao luto." E numa análise rápida o sociólogo Jessé Souza asseverou: "O ódio dos Tessler, Moro, Cheker, Dallagnol e Hardt a Lula não tem nada de pessoal. É o ódio de uma classe média branca, brega e racista, que se acredita europeia sem compartilhar nenhum valor europeu, ao povo que humilha todos os dias. Essa é a verdadeira canalhice Brasileira!" Eu diria mais, os Moro, Wolf, Hardt, Martinazzo, Dallagnol, Groba, Jabur, Burmann, Viecili, Tessler, Martello, Pozzobon, Welter, Paludo, Cheker, Lau, Gebran, Paulsin, Thompson, Fux e Fachin se uniram para esmagar um Silva. Entretanto, como escrevi em outro local, Lula é capítulo de livro de história, enquanto que os sobrenomes da classe média branca são notas de rodapé.


[1] Para não ser injusto com nenhum dos procuradores, vamos citar o nome de todos os participantes da Força Tarefa de Curitiba, de acordo com o sítio do próprio Ministério Público Federal: Deltan Martinazzo Dallagnol, Andrey Borges de Mendonça, Carlos Fernando dos Santos Lima, Diogo Castor de Mattos, Isabel Cristina Groba Vieira, Alexandre Jabur, Antônio Augusto Teixeira Diniz, Athayde Ribeiro Costa, Felipe D´Elia Camargo, Jerusa Burmann Viecili, Juliana de Azevedo Santa Rosa Câmara, Júlio Carlos Motta Noronha, Laura Tessler, Marcelo Ribeiro Oliveira, Orlando Martello Junior, Paulo Roberto Galvão, Roberson Henrique Pozzobon, Antônio Carlos Welter, Januário Paludo.

segunda-feira, 4 de março de 2019

A caminho de Piura

Bia encontrava-se a onze quilômetros de altura, possivelmente sobre o Mato Grosso, indo em direção ao oeste. Em algum ponto da viagem seria meia-noite, mas chegaria em Lima um pouco antes desse horário. Ela viajava na direção do fuso horário e de certa maneira, era como viajar para o passado. Mas contrário ao simbolismo, ela estava viajando para o futuro.

A viagem começara algumas horas antes em Fortaleza, quando as irmãs foram deixá-la no aeroporto. Algumas delas, crianças ainda, sentiriam a ausência da Bia durante toda a sua viagem, mas as viagens deixam sempre alguém com uma certa saudade e um esquisito nó na garganta. Todos se acostumam.

Depois, já no aeroporto do Rio de Janeiro, durante uma espera de quase cinco horas para o voo ao Peru ficou mais tranquila por causa de um feliz encontro com uma estudante estadunidense que não falava absolutamente nada de português. Este fato fortuito deu a oportunidade para Bia treinar um pouco a língua inglesa e conhecer superficialmente o local onde vivia a colega americana. Mary nascera em Minneapolis - talvez numa linda fazenda às margens do Mississípi - e crescera em Salt Lake City graças à exigência de trabalho de seu pai. Essa última cidade, próxima às montanhas, permitia que sempre fosse possível realizar aprazíveis passeios em colinas e encostas cheias de pedregulhos e colher flores nativas e cogumelos selvagens que crescem nos serrotes em épocas bem particulares do ano.

Chegando em Lima, Bia deveria esperar quase seis horas pelo próximo voo que a conduziria para a cidade de Piura. Novamente, ela conseguiria uma companhia para passar toda a madrugada do primeiro dia do ano de dois mil e dezoito, uma japonesa que também se comunicava com desenvoltura na língua inglesa. Shimatzo morava em Tóquio e estava esperando um voo, que decolaria aproximadamente no mesmo horário, para Cusco; ela também era estudante e queria visitar Macchu Pichu, a cidade fantástica dos Incas.

As duas garotas trocaram ideias do que poderia ser uma vida dedicada à arqueologia andina, investigando o passado glorioso de povos e processos histórico-econômicos de civilizações que se estendiam da floresta amazônica até as altas montanhas dos Andes onde a monotonia era quebrada apenas pelo voo solitário do condor. Quem sabe investigar a origem da terra que deu origem a um cerâmica do extremo norte, figuras de pedra e cabeças em argila dos Andes setentrionais, os muros do templo de Wiracocha e uma garrafa de água ornamentada dos Andes Centrais; visitar o Titicaca e se maravilhar com pedaços de tecidos fabricados há mais de dois mil anos e descobrir o significado de esculturas e máscaras de pedra dos Andes Meridionais. A conversa prolongou-se por horas até que cada uma seguiu o seu destino.

Bia embarcou no avião que a levaria até a próxima cidade. Olhou com rapidez pela janela parcialmente embaçada, acomodou como pode a sua cabeça na poltrona e descansou enquanto sonhava com o que encontraria de novo nos próximos quarenta dias. Certamente haveria muito trabalho na comunidade, era para isso que ela tinha ido, mas também muita aventura. 


domingo, 3 de março de 2019

Cinzas

Milhares de pessoas recitam seus pequenos poemas para si mesmas, às vezes declamam para algum familiar ou amigo, às vezes simplesmente as poesias ficam esquecidas no fundo de uma gaveta, até que as traças as venham devorar sem deixar vestígios. É um pouco como o professor taciturno e misterioso do Memória da Casa dos Mortos, de Dostoiévski, que guardava os seus escritos, todas as lembranças de uma vida trágica e dura no fundo de um baú, onde jaziam seus poucos e miseráveis pertences, lembranças essas que se perderiam na poeira do tempo se não fosse o protagonista da história, que resolveu publicá-las. Tentarei nesse espaço apresentar alguns poemas de amadores, como já havia pensado em fazê-lo há algum tempo. Na presente ocasião reproduzo o poema Cinzas, de Maria Amélia Cavalcante (D. Lily), feito há quase 60 anos.

É sentir como da alma o arrebatar nosso querido ente
Ver consumir-se e em chama arder
Aquilo que era amor a conversar.
E era alma na pena a escrever
Uma mais uma, o fogo a alimentar
As cartas todas e o seu retrato enfim.
Toda a esperança de que foi outrora
A poesia e o doce verbo amar
Em negras cinzas reduzir-se agora.
Somente Deus fará ressuscitar
E dará vida, é certa a essas cinzas
Que em silêncio falam.
Somente Deus fará ressuscitar
Da morte à vida que essa cinzas calam.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A delicadeza da rosa

Há exatos cem anos grupos paramilitares alemães assassinavam Rosa Luxemburg, filósofa marxista, antimilitarista e uma das fundadoras do Partido Comunista da Alemanha. Para lembrar a efeméride, reproduzo um texto de Florbela Espanca, apresentando a delicadeza e a força de rosas nascidas em uma charneca árida.

CHARNECA EM FLOR
Florbela Espanca

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E Nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, o fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Falecido, sem deixar vestígios

A memória tem a capacidade de misturar o passado ao espaço do presente. No trecho reproduzido abaixo de "A prisioneira", quinto volume do "Em busca do tempo perdido", de Proust, na tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar, o narrador descreve os acontecimentos do final de um encontro social na casa dos Verdurin onde o ponto máximo da noite foi a apresentação do violinista Morel - jovem protegido do orgulhoso Sr. de Charlus - que executava obras do músico Vinteuin. Enquanto caminha por um dos compartimentos, o professor Brichot lembra-se de fatos de um passado distante e num chiaro-escuro da memória, o passado e o presente se confundem em lembranças arrebatadores. Nesse pequeno trecho uma frase de tirar o fôlego do leitor em outro grande momento de Marcel Proust.

"E por isso, sem dúvida, o salão da rua Montalivet desmerecia, aos olhos de Brichot, a residência atual dos Verdurin. Mas por outro lado acrescentava a esta, para o professor, uma beleza que ela não podia ter para as relações recentes. Alguns dos velhos móveis que tinham sido trazidos para ali, na mesma disposição, às vezes conservada e que eu próprio reconhecia, da Raspelière, integravam no salão atual partes do antigo que, por momentos, o evocavam até a alucinação, para em seguida parecerem quase irreais no seio da realidade ambiente, fragmentos de um mundo extinto que imaginávamos ver alhures. Um canapé surgido do sonho entre as poltronas novas e bem reais, cadeirinhas estofadas de seda cor-de-rosa, um pano de brocado para mesa de jogo, elevado à dignidade de pessoa, uma vez que, na sombra fria do Cais Conti o tisne das soalheiras que entravam pelas janelas da rua Montalivet (cuja hora ele conhecia tão bem quanto a própria sra. Verdurin) e pelos vãos das portas envidraças de Doville, aonde o tinham levado, e donde ele via o dia inteiro do outro lado do jardim florido o profundo vale, enquanto esperava a hora em que Cottard e o flautista jogariam a sua partida; o ramalhete de violetas e amores-perfeitos, pastel presenteado por um grande artista amigo, falecido, sem deixar vestígios, resumindo um grande talento e uma longa amizade, recordando-lhe o olhar atento e meigo, a bonita mão gorda e triste enquanto pintava; incoerente e artística desordem de presentes dos fiéis, que acompanharam por toda parte a dona da casa e acabaram adquirindo o cunho e a fixidez de um traço de caráter, de uma linha do destino; profusão de ramalhetes de flores, de caixas de chocolates, que sistematizava aqui como lá o seu desabrochamento segundo um modo de floração idêntica; interpolação curiosa dos objetos singulares e supérfluos, que continuam dando a impressão de estarem saindo da caixa em que foram oferecidos e que permanecem toda a vida o que foram primeiramente, presentes de Ano-Bom; todos esses objetos enfim que não poderíamos isolar dos outros, mas que para Brichot, velho frequentador das festas dos Verdurin, tinham aquela pátina, aquele aveludado das coisas a que, dando-lhes uma espécie de profundidade, vem juntar-se o seu "duplo" espiritual; tudo isso espalhava, fazia soar diante dele como outras tantas teclas sonoras que lhe despertavam no coração semelhanças amadas, reminiscências confusas que, em pleno salão inteiramente atual por elas marchetado aqui e acolá, recortavam, delimitavam, como faz num bonito dia um quadro de sol seccionando a atmosfera, os móveis e os tapetes e perseguindo-a de uma almofada a um vaso, de um tamborete ao resíduo de um perfume, de um modo de iluminação a uma predominância de cores, esculpiam, evocavam, espiritualizavam, faziam viver uma forma que era como a figura ideal, imanente a seus domicílios sucessivos, do salão dos Verdurin."