domingo, 19 de abril de 2020

A morte de Albertine

Outra morte que marcará indelevelmente o Narrador do Em busca do tempo perdido refere-se a de sua amada Albertine. Na verdade, essa morte é o que suscitará ao Narrador o maior período de tempo de reflexão a respeito desse fato definitivo de nossas vidas. Depois de praticamente ser expulsa da casa do Narrador por causa de um ciúme exagerado, Albertine vai para o interior, para a casa de uma parente, mas ainda escreve para Marcel com a intenção de reatar os laços e voltar para a casa. Entretanto, antes que o Narrador possa tomar alguma atitude, ele recebe um bilhete da sra. Bontemps com uma notícia arrasadora:

"Meu pobre amigo, nossa Albertine já não existe. Perdoe-me dizer essa coisa horrível a quem gostava tanto dela. Foi jogada contra uma árvore pelo cavalo, durante o passeio. Apesar de todos os nossos esforços, não escapou. Antes tivesse eu morrido em seu lugar!"

Depois desse bilhete, o Narrador se confrontará com a inexorabilidade da morte e esse pensamento o guiará durante muito tempo. Abaixo várias referências à tristeza e ao sentimento de culpa, tal como descrito por Marcel Proust no sexto volume da obra, A Fugitiva, na tradução de Carlos Drummond de Andrade.

Amanhã, depois de amanhã, era um futuro de vida comum, talvez para sempre, que começava; meu coração atirou-se a ele, mas já não estava mais ali, Albertine morrera.

Ligada que estava a todas as estações a lembrança de Albertine, par que eu a perdesse seria preciso que as esquecesse todas, prestes a conhecê-las de nov, como um velho atacado de hemiplegia e que reaprende a ler; seria preciso que eu renunciasse a todo o universo.

(...) tudo isto modificava o caráter de minha tristeza retrospectiva tanto quanto as impressões de luz ou de perfume que lhe  estavam associadas, e completava cada um dos anos solares que eu tinha vivido - e que, só pelas suas primaveras, suas árvores, suas brisas, já eram tão tristes por causa da lembrança inseparável dela -, duplicando-o com uma espécie de ano sentimental, em que as horas não eram definidas pela posição do sol, mas pela espera de um encontro, em que o comprimento dos dias ou os progressos da temperatura eram medidos pelo voo de minhas esperanças, pelo progresso de nossa intimidade, pela transformação progressiva do seu rosto, pelas viagens que ela fizera, pela frequência e pelo estilo das cartas que escrevera durante certa ausência, pela sua maior ou menor precipitação em me ver de volta.

Então, ao pensar no vazio que eu sentiria agora voltando para casa, que não mais veria cá de baixo o quarto de Albertine, cuja luz se apagara para sempre, compreendi o quanto, naquela noite em que, deixando Brichot, eu imaginara sentir tédio e pesar por não poder ir passear e amar por aí afora, compreendi o quanto me enganara, e era somente porque julgava inteiramente segura a posse daquele tesouro cujos reflexos vinham lá do alto até mim, que eu me descuidara de apreciar-lhe o valor, e que fazia com que me parecesse forçosamente inferior a outros prazeres, por pequenos que fossem, mas que, procurando imaginá-los, eu avaliava. 

A ideia de que temos de morrer é mais cruel do que a morte, porém menos que a ideia de que alguém morreu, e que, aplanando-se depois de haver engolfado a criatura, estende, sem um redemoinho sequer naquele ponto, uma realidade de onde essa criatura está excluída, onde não existe mais nenhuma vontade, nenhum conhecimento, e da qual é tão difícil remontar à ideia de que essa criatura viveu, quanto é difícil, no que toca à lembrança recentíssima de sua vida, pensar que seja assimilável às imagens sem consistência, às lembranças deixadas pelas personagens do romance que lemos.

Agora não estava mais em parte alguma, ainda que percorresse a terra de um polo a outro não encontraria mais Albertine. A realidade que se havia fechado sobre ela voltara a tornar-se compacta, apagara até o rastro do ser que nela submergira. Não era mais que um nome, como aquela sra. de Charlus, de quem diziam com indiferença os que a tinham conhecido: "Era encantadora".

(...) o que me causava espanto não era, como nos primeiros dias, que Albertine, tão viva em mim, pudesse não existir mais sobre a face da terra, pudesse estar morta, mas que Albertine que não existia mais sobre a terra, e morrera, houvesse permanecido tão viva em mim.

sábado, 18 de abril de 2020

O incipit da Recherche.

        Na postagem passada fizemos várias referências ao excelente trabalho da Profa. Sheila Santos, da Universidade Federal de Santa Catarina, que realizou uma análise primorosa da primeira tradução brasileira da obra Em busca do tempo perdido, tal como publicado pela editora Globo [1]; o intuito da investigação, entre outros, foi o de identificar a uniformidade linguística da tradução coletiva. A professora utiliza diversas páginas para fazer a análise das frases iniciais, o incipit, do livro de Marcel Proust. Aqui vou fazer uns poucos comentários sobre a longa discussão que existe a respeito dessa temática (comentário de um simples amador que, obviamente, não tem o rigor e não usa a metodologia da área de literatura).

        Antes de ir ao incipit do Em busca do tempo perdido, no caso, o início do primeiro volume da obra No caminho de Swann, acho que é interessante relembrar uma lição popular de Umberto Eco, "Seis Passeios Pelos Bosques da Ficcção" [2]. Eco era um fã de Gérard de Nerval, mais particularmente da obra Sylvie, sobre a qual ele ministrou uma disciplina de pós-graduação na Universidade de Columbia. No Seis Passeios Eco faz uma análise de diversos aspectos da obra, mas começa discutindo a frase inicial de Sylvie: Je sortais d'un théâtre où tous les soirs je paraissais aux avant-scènes en grande tenue de soupirant. Segundo Eco, essa é uma frase difícil de ser traduzida para o inglês porque o tempo verbal utilizado é o pretérito imperfeito, mas na língua saxônica não existe esse tempo. Isso impõe uma dificuldade para o tradutor, mas Eco propõe duas possíveis traduções: I came out of a theater, where I appeared every evening in the full dress of a sighing lover e I came out of a theater, where I used to spend every evening in the proscenium boxes in the role of an ardent wooer. Eco lembra que o pretérito imperfeito é interessante porque ele tem caráter simultâneo de duração e de interação. No primeiro aspecto o verbo mostra algo que estava acontecendo no passado mas não fornece informação sobre o início e o fim da ação. Quando dizemos, 'eu estava lendo', há uma imprecisão quanto ao tempo preciso em que isso ocorreu. No segundo aspecto, de interação, Eco afirma que na ação representada pelo imperfeito a ação se repetia. Empregado na primeira frase de Sylvie, o imperfeito fornece uma imprecisão temporal que será importante no desenvolvimento do romance. Eco ainda discute outros aspectos da obra, mas o importante para essa postagem é o tempo verbal utilizado por Nerval.

        Retornemos ao incipit do livro principal de Marcel Proust. Segundo a professora Sheila Santos, "comumente, considera-se constitutivo do incipit apenas a primeira frase da obra, que no caso da Recherche seria “Longtemps, je me suis couché de bonne heure”. Porém, ele pode estender-se além desse limite, abarcando uma sequência textual mais longa, como, por exemplo, as primeiras frases ou o primeiro parágrafo." Assim, de acordo com a professora, pode-se considerar o incipit da obra as duas primeiras frases:

Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n'avais pas le temps de me dire: “Je m'endors”.”

        Muitos artigos já foram escritos tentando decifrar esse início da obra de Proust. Em relação às versões brasileiras, a professora da UFSC fornece uma interpretação para "as transformações linguísticas operadas pelos tradutores brasileiros da Recherche". Antes de ver as explicações, vejamos as duas versões brasileiras para as frases iniciais de No Caminho de Swann:, respectivamente devidas a Mario Quintana e a Fernando Py:

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”.”

Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”.”

A tradução italiana de 1952, assinada por Natalia Ginzburg para a editora Einaudi de Turim, é a seguinte:

“Per molto tempo, mi sono coricato presto la sera. A volte, non appena spenta la candela, mi si chiudevan gli occhi così subito che neppure potevo dire a me stesso: “M'addormento.”

Por seu turno, a primeira tradução inglesa, devida a C.K. Scott Moncrieff, aparece da seguinte maneira:

“For a long time I would go to bed early. Sometimes, the candle barely out, my eyes closed so quickly that I did not have time to tell myself: “I'm falling asleep.”

Já na tradução inglesa mais moderna, de Lydia Davis, encontramos o seguinte texto:

For a long time, I went to bed early. Sometimes, my candle scarcely out, my eyes would close so quickly that I did not have time to say to myself: “I'm falling asleep.”

      De acordo com a Ref. [1], o advérbio de abertura da obra, "longtemps", vai fazer eco com as palavras finais do romance, três mil páginas mais a frente: "dans le Temps", que se constitui no encerramento do Le temps retrouvé. Para traduzir esse advérbio que carrega consigo muito significado, os tradutores brasileiros utilizaram a locução verbal "durante muito tempo". Observe-se que as traduções italiana e inglesas também escolheram expressões com significado similar. Já o tempo verbal da primeira frase é o passé composé, que é um tempo verbal com pouca utilização por parte do autor, segundo a Ref. [1]. Talvez se Proust tivesse utilizado o pretérito imperfeito no começo da obra - como destacado por Umberto Eco com referência à obra de Nerval - isso tivesse sugerido um caráter de sonho ou de irrealidade ao texto da Recherche, mas ao contrário, os fatos e lembranças rememorados eram bastante reais para o Narrador, e assim tal tempo verbal não poderia ser utilizado. Destaca-se que o imperfeito, apesar desse início, é bastante utilizado por Proust ao longo da obra, para destacar principalmente a interconexão entre o passado e o presente. De qualquer forma, há uma ambiguidade temporal na primeira frase da Recherche com a utilização do passé composé que será seguido por uma série de imparfaits nas restantes frases do parágrafo. É interessante também destacar que a expressão no presente “je m'endors” ganha uma tradução de Mario Quintana no mesmo tempo verbal, assim como a tradução italiana de Ginzburg. Fernando Py, por sua vez, prefere traduzir para uma expressão no tempo futuro, enquanto as duas versões inglesas utilizam um present continuous. Essas são apenas algumas das sutilezas das primeiras frases do romance, na verdade, a análise que pode ser realizada relativa a elas é muito mais complexa. Para os que quiserem se aprofundar nesse tema podem se dirigir à Ref. [1] e respectivos títulos citados na bibliografia da tese.


[1] Sheila Maria dos Santos, (Des)aparecer no texto: o escritor-tradutor na tradução coletiva de A La Recherche Du Temps Perdu de Marcel Proust, Tese de Doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis: 2018.

[2] Umberto Eco, Seis Passeios Pelo Bosque da Ficção, Tradução de Hildegard Feist, editora Companhia das Letras, São Paulo: 2004.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A tradução da Recherche

Não trabalho com tradução nem pertenço à área da literatura (tudo neste texto está repleto de falta de rigor científico), mas acredito que quando a pessoa se dispõe a traduzir Proust é como começar a penetrar numa floresta da infância que se sabe repleta de monstros, os quais estão prestes a devorar o intruso. Ou então, como um homem que se voluntaria para ir à guerra e quando embarca para a primeira batalha, não sabe se será possível retornar. A tradução de Em busca do tempo perdido, pela sua extensão, contendo mais de um milhão de palavras e repleta de longas orações, constitui-se num trabalho de fôlego. A primeira tradução total da obra realizada por uma única pessoa é devida a Eva Rechel-Mertens, que verteu para o alemão a Recherche em apenas incríveis quatro anos, de 1953 a 1957 [1]. Outra tradução total realizada por uma única pessoa foi realizada pelo poeta italiano Giovanni Raboni, que traduziu a obra para a sua língua materna a partir de 1983 sob a égide da editora Arnoldo Mondadori, de Milão [2,3]. No Brasil, o poeta carioca Fernando Py também conseguiu a façanha de verter para o português toda La Recherche, que foi publicada pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, em 2016. De acordo com o próprio Fernando Py "não é tarefa tranquila traduzir uma obra de vulto como a de Proust. Ainda mais quando já existem outras em português. Mas não há dúvida de que é uma aventura intelectual largamente compensadora, um trabalho altamente gratificante" [4]. Houve uma tentativa de tradução para o inglês feita por Charles K. Scott Moncrieff, que conseguiu traduzir os seis primeiros volumes, mas a sua morte em 1930 o impediu de trabalhar no último volume e concluir o projeto.

Assim, a maioria das traduções é realizada por um grupo de tradutores. A versão inglesa moderna foi realizada pela escritora-tradutora americana Lydia Davis (Swann's Way), pelo escritor-tradutor australiano James Grieve (The Shadow of Young Girls in Flower), pelo escritor-tradutor australiano Mark Treharne (The Guermantes Way), pelo escritor-tradutor inglês John Sturrock (Sodom and Gomorrha), pela escritora-tradutora inglesa e professora universitária Carol Clark (the Prisoner), pelo escritor-tradutor inglês Peter Collier (The Fugitive) e pelo escritor-tradutor inglês Ian Patterson (Finding Time Again) [1]. Essa tradução multinacional foi capitaneada pela editora inglesa Penguin Press, que permitiu que o trabalho fosse levado a cabo em pouco tempo, a expensas de não formar um todo homogêneo. De acordo com o blogueiro Allan Ray Jasa [5], que fez a leitura de um fôlego, Davis, Sturrock e de certa forma Patterson, escolheram uma tradução que conservou muitas palavras próximas do francês, ocasionando certas sintaxes estranhas no inglês. Por outro lado, traduções nas quais o texto ficou com um inglês mais moderno foram conseguidas por Grieve, Treharne, Clark e Collier. Isso representa uma das dificuldades na tradução da obra. No Brasil, além da tradução recente assinada pelo poeta Fernando Py como já comentado, existe uma tradução mais antiga realizada por vários escritores para a editora Globo de Porto Alegre. Essa tradução brasileira, que utilizo em várias postagens desse blog, foi realizada pelo poeta Mario Quintana (os quatro primeiros volumes [6-9]), pelo poeta Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar (A Prisioneira) [10], pelo poeta Carlos Drummond de Andrade (A Fugitiva) [11] e pela escritora e ensaísta Lúcia Miguel Pereira (O Tempo Redescoberto) [12]. O problema da coerência nessa tradução brasileira assinada por diversas pessoas e ainda por cima ser baseada na versão não definitiva da obra francesa é discutido minuciosamente na tese de doutorado da Profa. Sheila Santos [1]. Espero conseguir ler mais sobre o assunto.


Referências:

[1]Sheila Maria dos Santos, (Des)aparecer no texto: o escritor-tradutor na tradução coletiva de A La Recherche Du Temps Perdu de Marcel Proust, Tese de Doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis: 2018.

[2] Marcel Proust, Alla Ricerca del tempo perduto, La Prigioniera, Traduzione di Giovanni Raboni, Arnoldo Mondadori Editore, Milano: 1989.

[3] A contracapa da edição de bolso Oscar Mondadori afirma que "è d'essere stata tradotta interamente (per la prima volta nel mondo) da una sola persona, il poeta Giovani Raboni". Contudo, de acordo com a Ref. [1], "Agostini Ouafi assinala que Rabani não trabalhou só, tendo recebido a colaboração editorial, linguística e literária de Marco Beck, Giorgio Coroyi e Jean-Louis Provoyer".

[4] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, Tradução de Fernando Py, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro: 2016.

[5] https://medium.com/@allanrayjasa/on-reading-the-entire-in-search-of-lost-time-by-marcel-proust-9be5279f822a

[6] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: No Caminho de Swann, Tradução de Mario Quintana para Du cotê de chez Swann, 12a. ed., Editora Globo, São Paulo: 1990.

[7] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: À Sombra das Raparigas em Flor, Tradução de Mario Quintana para À l'ombre des jeunes filles en fleur, 12a. ed., Editora Globo, São Paulo: 1995.

[8] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: O Caminho de Guermantes, Tradução de Mario Quintana para Le côté de Guermantes, 9a. ed., Editora Globo, São Paulo: 1989.

[9] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: Sodoma e Gomorra, Tradução de Mario Quintana para Sodome et gomorrhe, 9a. ed., Editora Globo, São Paulo: 1989.

[10] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: A Prisioneira, Tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar para La prisonnière, 9a. ed., Editora Globo, São Paulo: 1989.

[11] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: A Fugitiva, Tradução de Carlos Drummond de Andrade para Albertine disparue, 9a. ed., Editora Globo, São Paulo: 1992.

[12] Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Redescoberto, Tradução de Lúcia Miguel Pereira para Le temps retrouvé, 8a. ed., Editora Globo, São Paulo: 1988.


quinta-feira, 16 de abril de 2020

A morte de Swann

Durante a sua vida cheia de reflexões e observações minuciosas acerca das pessoas da sociedade francesa do final do século XIX e de seus sentimentos, o Narrador de Em busca do tempo perdido encarará a morte de vários conhecidos e de algumas pessoas amadas. A descrição dessas mortes é um dos pontos centrais na obra principal de Marcel Proust. Assim, o desaparecimento da avó do Narrador representa um momento sublime, de grande literatura (já apresentada em outra postagem), quando é possível descobrirmos, na tradução poética de Mário Quintana que "sobre aquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, tinha-a deitado sob a aparência de menina e moça". O tempo passará e a intermitência do coração, segundo o próprio Narrador, fará com que a lembrança do ente querido seja conseguida apenas de tempos em tempos, até que finalmente o passar dos anos levará ao esquecimento total. 

Em relação ao escritor Bergotte, o aspecto mais importante deste acontecimento terminal é o fato de seus livros expostos nas livrarias se transformarem num símbolo de ressurreição, como se o grande artista, na verdade, continuasse a sobreviver nas suas obras de arte. No que diz respeito à Albertine - que viveu com o Narrador um romance complexo, denso e repleto de traições e desconfianças - a morte trouxe tristeza e angústia, até atingir, após muito tempo, a indiferença e o esquecimento. Poderíamos também lembrar aqui da existência e morte do pintor de mãos gordas e amigo, cuja única recordação de sua vida anônima será um quadro deixado, e que não se encontra mais no salão onde ele fora originalmente exposto. E também lemos sobre o triste final do velho Charles Swann - personagem central do volume inicial da obra, No caminho de Swann - que foi assim descrito pela tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar no quinto volume da obra, A Prisioneira:

A morte de Swann impressionara-me na ocasião, profundamente. A morte de Swann! Swann não tem nesta frase o simples papel de um genitivo. Quero referir-me à morte particular, à morte enviada pelo destino ao serviço de Swann. Pois dizemos morte para simplificar, mas são tantas as mortes quantas as pessoas. Não possuímos sentido que nos permita ver, correndo a toda velocidade em todas as direções, as mortes, as mortes ativas dirigidas pelo destino a este ou àquele. Muitas vezes são mortes que só se desobrigarão inteiramente de sua tarefa dois ou três anos depois. Correm, vão pôr um câncer nas entranhas de um Swann, saem depois para outras tarefas, só voltando quando, feita a operação pelos cirurgiões, é necessário repor o câncer. Depois vem o momento em que se lê no Gaulois que a saúde de Swann inspirou cuidados, mas que a sua indisposição está em perfeita via de cura. Então, poucos minutos antes do último suspiro, a morte, como uma religiosa que nos tivesse assistido em vez de nos destruir, chega para acompanhar os nossos derradeiros instantes e coroa com uma auréola suprema a criatura para sempre enregelada cujo coração cessou de bater. E é essa diversidade das mortes, o mistério de seus circuitos, a cor de sua charpa fatal que dá um quê tão impressionante às linhas dos jornais: "Soubemos com vivo pesar que o sr. Charles Swann faleceu ontem em Paris, na sua residência, vítima de pertinaz moléstia (...)".


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Marcel

O narrador do Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, discute sobre o sentido da vida, sobre os hábitos, as ambições, a inveja, o amor, a arte e a morte. Entretanto, em toda a longa obra, com mais de um milhão de palavras, o nome desse narrador só aparece duas vezes, ambas no quinto volume, A Prisioneira (La prisonnière). A primeira referência ao nome acontece quando a personagem Albertine desperta de um sono, e nessa parte do enredo, o personagem se revela e, aparentemente, se confunde com o autor. A segunda referência ocorre quando a mesma Albertine manda um bilhete para o narrador e este a fica aguardando com uma mistura de angústia e satisfação. Estes dois momentos foram traduzidos por Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar para a editora Globo das maneiras descritas abaixo.

A hesitação do acordar revelada pelo seu silêncio não o era pelo seu olhar. Logo que recuperava a palavra, dizia: "Meu" ou "Meu querido", seguidos um ou outro do meu nome de batismo, o que, atribuindo ao narrador o mesmo nome que ao autor deste livro, daria: ''Meu Marcel", "Meu querido Marcel". Já eu não consentia desde então que em família os parentes, chamando-me também querido, tirassem às palavras deliciosas que me dizia Albertine o privilégio de serem únicas. Ao dizê-las, fazia um momo, que logo transformava num beijo. Tão depressa adormecera havia pouco, tão depressa acordava.

[...]

Senti um vivo movimento de gratidão por Albertine, que, era visível, não tinha ido ao Trocadero por causa das amigas de Léa e me mostrava , renunciando ao espetáculo e voltando a meu chamado, que me pertencia mais do que imaginava. Maior ainda foi ele quando um rápido me trouxe um bilhetinho dela recomendando-me paciência e onde havia daquelas expressões carinhosas que lhe eram familiares: "Meu querido, meu caro Marcel, chegarei menos depressa do que este rápido, de cuja bicicleta gostaria de me utilizar para me ver depressa junto de você. Como pode pensar que eu possa ficar zangada e que alguma coisa possa me entreter mais do que estar com você? Será gostoso sairmos juntos, seria ainda mais gostoso nunca sairmos senão juntos Que ideias são essas suas? Esse Marcel! Toda sua, Albertine".

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Um ano de tragédia

Após o golpe de 2016, três acontecimentos marcaram de forma mais contundente a perda de direitos dos cidadãos, entre várias outros que continuam a ocorrer: a PEC do teto de gastos, a reforma trabalhista e a reforma previdenciária. O capital teve bastantes motivos para sorrir - e aqui a gente humaniza o desumanizador apenas para usar a linguagem dos economistas neoliberais e da mídia hegemônica financiada por ele - como se pode atestar num único exemplo, o lucro apenas do Banco Bradesco em 2019, que foi de R$ 25 bilhões. O desmatamento recorde da Amazônia, as queimadas gigantescas dessa mesma floresta, a invasão das terras e assassinatos de indígenas, o derramamento de petróleo nas praias do Nordeste, a 'venda' da Embraer para a Boeing, a entrega da Base de Foguetes de Alcântara para os Estados Unidos, a venda da Petrobrás Distribuidora, a entrega de vários poços de petróleo do Pré-Sal para empresas internacionais, a privatização da Casa da Moeda, a privatização dos Correios, da Caixa Econômica e do Banco do Brasil, a liberação para a exploração mineral em terras indígenas e o seu consequente extermínio, as notas inacreditavelmente erradas do ENEM, o apagão no INSS, o aumento dos assassinatos pelas Polícias Militares, são facetas perversas de uma mesma realidade. Ao mesmo tempo, pessoas como vários membros da família do presidente da República são poupados de investigação pela justiça e pelos órgãos de fiscalização comandados pelo ex-juiz Sérgio Moro, os ministros do Turismo e do Meio Ambiente são acusados de vários crimes e a Damares e o Araújo ficam falando bobagem, servindo de bobos da corte. 


Uma análise bastante primorosa do primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro foi fornecido pela Profa. Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Céli Regina Jardim Pinto, no texto reproduzido abaixo denominado "O governo Bolsonaro: um projeto vitorioso?". Trata-se do sexto ensaio de uma série sobre o primeiro ano de Jair Bolsonaro na Presidência, constituindo parte de uma parceria entre o 'Nexo" e a Associação Brasileira de Ciência Política. 

O governo Bolsonaro: um projeto vitorioso?
Interpretar o governo Bolsonaro como um fracasso é um equívoco perigoso. Ao mesmo tempo, anunciá-lo como a vitória definitiva de um projeto autoritário-fascista é igualmente equivocado.
O projeto do governo é inserir o Brasil no neoliberalismo profundo, riscando do mapa a presença do Estado na economia e nas políticas públicas sociais.
Bolsonaro tem importância relativa nesse projeto. É uma figura caricata, violenta, inculta, mas que interpela com êxito largas parcelas da população. A Presidência caiu no seu colo como um prêmio de loteria. É transparente que ele não tem ideia do que é ser presidente da república, mas isso tem pouca importância para o projeto. Certamente é foco de chacota em encontros internacionais, mas há cinismo nisso. Ao mesmo tempo que deve ser desconfortável para o sofisticado Macron, a cientista Merkel ou o milionário Trump conviver com Bolsonaro, eles sabem que o ex-tenente é um peão importante no xadrez do imperialismo capitalista do século 21.
O governo se organiza com muita esperteza para cumprir esse papel. Enganam-se os que imaginam que estamos frente a dois governos paralelos, um competentemente neoliberal e técnico, outro culturalmente obscuro e ideológico. Essa divisão é falsa e serve a muitos interesses.
A equipe econômica aparece como respeitável para todos os setores conservadores do país: os empresários de diferentes plumagens e a grande mídia, mesmo as que Bolsonaro “detesta”, como a Globo e a Folha. Na última, colunas de opinião dão chances a críticas, já na Globo, mesmo em sua versão mais sofisticada, a Globonews, as reformas propostas pelo governo são anunciadas por todos os seus jornalistas como necessárias e bem-vindas. Nisso a mídia é uma aliada importante do Poder Legislativo, liderado pelo hábil Rodrigo Maia na Câmara dos Deputados, que articula a aprovação de reformas ultraconservadoras. O governo teve uma importante vitória com a aprovação da reforma da Previdência e certamente outras virão.
Mas o projeto desestruturante necessita de uma sociedade desorganizada e passiva, uma sociedade não demandante. Essa talvez seja a questão mais séria que o neoliberalismo em geral enfrenta no século 21, pois há sociedades mobilizadas que se espalham por diferentes partes do mundo, com organizações diversas e demandas variadas. Seria uma imprudência analítica encontrar uma causa comum para todas as manifestações que ocorrem desde 2011, mas seria igualmente temeroso atribuí-las à mera coincidência.
O problema é que não se elimina a consciência crítica da sociedade em um passe de mágica. No Brasil, o governo Bolsonaro faz dois ataques estratégicos e simultâneos nesse sentido: o primeiro reduz ao mínimo, quando não zera, recursos orçamentários para as áreas da cultura e da educação: faz ameaça contra o cinema, o teatro, as artes visuais, a música, a educação em todos os níveis e a ciência. O segundo ataque se dirige aos setores que necessitam ser convencidos de que cultura, ciências, luta por direitos, por liberdade e igualdade são farsas. Qualifica todas as áreas da cultura e da educação como produtoras do marxismo cultural, da ideologia de gênero e de riscos à família e à religião e assim dá sentido à farsa, central para fragilizar as classes populares e minimizar suas possíveis demandas. Nesse esforço, as igrejas evangélicas são aliadas fundamentais.
Não se pode satanizar as igrejas evangélicas e afirmar que elas só existem para apoiar governos como o de Bolsonaro. O crescimento exponencial das denominações pentecostais é um fenômeno complexo e não pode ser atribuído a cenários momentosos. Mas o que se deve pontuar aqui é que essas igrejas formam lideranças e congregações predispostas a se colocarem em antagonismo às liberdades individuais, às ciências, à cultura, à luta por direitos.
As congregações são celeiros para teorias terraplanistas, antiecológicas, antivacinação, antiborto, a favor da família tradicional, da violência policial, do armamento e do encarceramento. Criam espaços privilegiados para ministros que afirmam ter visões de entidades religiosas, ou como o da educação, que trata de convencer a população de que nas universidades há grandes plantações de maconha e que seus laboratórios de química produzem anfetaminas. Nesse cenário, dirigir carros de aplicativos acaba parecendo muito mais digno do que perder tempo em antros amorais como as universidades. Em um país com índices muito baixos de leitura, a fala do presidente, ao dizer que os livros didáticos têm texto demais, cai como uma luva.
O êxito do governo na desmobilização e/ou paralisia política da sociedade pode ser medido, paradoxalmente, por dois eventos muito festejados pelas forças de oposição: as revelações do Intercept Brasil, que mostraram as formas não republicanas como foram montadas as provas contra Lula pelo então juiz Moro na operação Lava Jato, e a soltura do próprio Lula, por consequência da decisão do STF contra a prisão de condenados em segunda instância. Moro continua sendo o ministro mais popular do governo, mais popular que o próprio Bolsonaro. E Lula, solto, fez pouca diferença.
A questão mais séria em tudo isso, que necessita ser pensada para além de justificativas ao sucesso de Bolsonaro como consequência das fake news, é por que, após um ano de governo — que precarizou a vida das camadas mais pobres da população; reduziu verbas para a saúde; atacou a educação e, principalmente seu setor de maior êxito, as universidades federais; matou pobres, principalmente crianças e jovens negros nas comunidades; desqualificou a cultura; perseguiu movimentos sociais — não está sendo produzida uma reação popular capaz de ameaçar esse projeto autoritário, obscurantista, no limite do fascismo?
O sucesso do governo não pode ser medido pela melhoria das condições de vida do brasileiro em qualquer aspecto, seja a saúde, a educação, o emprego. Não foi a isso que veio, mas, sim, na confortável apatia da população frente a quem está a destruir com precisão cirúrgica conquistas fundamentais para os brasileiros, algumas inclusive garantidas na Constituição de 1988.
2020 é um ano eleitoral, portanto um ano muito imprevisível. É esperar para ver.

domingo, 8 de setembro de 2019

Momentos do dia

Na sexta parte de Em busca do tempo perdido, também conhecido como A Fugitiva, Albertine morre e um grande número de sentimentos invade a alma do narrador. Entre tristezas, angústias, ciúmes e nostalgia, o autor faz uma long areflexão sobre a morte de um ente amado. Há uma passagem, em particular, em que Proust relaciona momentos do dia a sentimentos relacionados a pequenos fatos do cotidiano. Na tradução de Carlos Drummond de Andrade:

"...tudo isto modificava o caráter de minha tristeza retrospectiva tanto quanto as impressões de luz ou de perfume que lhe estavam associadas, e completava cada um dos anos solares que eu tinha vivido - e que, só elas suas primaveras, suas árvores, suas brisas, já eram tão tristes por causa da lembrança inseparável dela -, duplicando-o com uma espécie de ano sentimental, em que as horas não eram definidas pela posição do sol, mas pela espera de um encontro, em que o comprimento dos dias ou os progressos da temperatura eram medidos pelo voo de minhas esperanças, pelo progresso de nossa intimidade, pela transformação progressiva do seu rosto, pelas viagens que ela fizera, pela frequência e pelo estilo das cartas que escrevera durante certa ausência, pela sua maior ou menor precipitação em me ver de volta."

Essa passagem fez-me lembrar de um texto de Ítalo Calvino em que este descreve a cidade de Zaíra. De certa forma, Calvino revisita Proust de uma maneira muito feliz na sua obra As cidades invisíveis:

"Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever a cidade de Zaíra dos altos bastiões. Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do seu passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendentes de um usurpador enforcado: o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela: a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos remendando as redes que, sentados no molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe."