terça-feira, 8 de junho de 2021
Funeral de estado
sábado, 15 de maio de 2021
A onda gigante
Quando a onda gigante se forma em alto mar, ela quebra irremediavelmente na praia. O tsunami da ignorância, da arrogância e da pilhagem está batendo com força na costa do Brasil. Depois, aos sobreviventes, só restará tentar reconstruir o que foi destruído.
sexta-feira, 23 de abril de 2021
O artista de Chauvet
Werner Herzog é um cineasta alemão conhecido por diversos documentários como Fata Morgana (1970) e filmes com personagens marcantes, como "Aguirre, a ira de Deus" (1972) e "Fitzcarraldo" (1982). Um de seus últimos filmes é a "A caverna dos sonhos esquecidos" (2010), um belo documentário sobre a caverna Chauvet, no sul da França, que apresenta as mais antigas pinturas rupestres descobertas até hoje. De fato, como se mostra no documentário, datação por intermédio da técnica de carbono 14 indicam que as pinturas na parede da caverna têm cerca de 32.000 anos. Esse tempo representa cerca de sete vezes o tempo entre a construção das grandes pirâmides e os dias de hoje.
Num momento do documentário o diretor nos lembra que nós somos prisioneiros da história, enquanto que o artista do paleolítico era livre, estando além dos parâmetros que definem a nossa civilização. Imaginei, então, que o artista do passado é como se fosse um deus ex-machina do antigo teatro grego, que introduz a sua obra na nossa história como se fosse um elemento completamente extemporâneo. O artista desenhou, aproveitando-se das anfractuosidades e relevos da rocha, belíssimos cavalos, bisões, rinocerontes, leões e outros animais nas paredes da caverna. Certos cavalos estão correndo, a imagem das patas em duplicatas parece nos mostrar o movimento que ficará claro para nós apenas com o advento do cinema. Ele deixou também a pintura de sua mão, que tinha o dedo mínimo ligeiramente torto. É a assinatura de um artista trezentos séculos antes de surgirem e perecerem quase que instantaneamente nessa escala temporal estranha, Michelângelo, Leonardo, Caravaggio e outros grandes pintores da cultura ocidental. Vindo diretamente do passado através de sua obra, o artista afirma a magia da arte, a magia no sentido de que embora nós, humanos, sejamos absolutamente passageiros, a obra de arte é eterna.
À respeito das pinturas, o escritor Roger Lombardot, que escreveu duas peças inspiradas na caverna Chauvet, asseverou: "Chego ao painel do cavalo ... E lá estou eu diante do improvável. Tanto a precisão da linha como o realismo da expressão ... Sem dúvida! ... Os artistas que ali criaram eram gênios ... No sentido de que tinham visão admirável. Como os pintores do Renascimento ... sei que estou diante da arte universal. Isso que o verdadeiro pintor, o verdadeiro artista, sempre pode fazer. Isso ele sempre fará. Encontramos pessoas capazes disso o tempo todo. Mas encontrá-los lá, já! ... Que bofetada para os nossos preconceitos ... o clichê do homem das cavernas limitado à pele de um animal e de um porrete. Como fica claro, à luz dessas pinturas, que quem as pintou possuía uma sensibilidade que os homens mais evoluídos da atualidade não negariam. Eu me sinto esmagado novamente. Minúsculo. Eu, de quem está excluído que algum dia possa sair de um desenho a ideia de vida… E então… que história fabulosa!… Imagens que passaram milênios para chegar intactas até nós… Melhor! Instantâneo… Porque, repito, tudo pode levar a crer que os artistas acabaram de desistir do pincel… Olha!… As partículas evacuadas pelo arranhão continuam em suspensão… É como se tivéssemos acabado de enviar estas imagens por telecomunicação desde o passado ... Além dos milênios ... Imagine o choque temporal! Vertigem! ... E o seguinte choque ... A consciência de estar diante da mais antiga manifestação conhecida do pensamento humano ..." (La Rose, Les Cahiers de l’Égaré, 2003).
sábado, 27 de março de 2021
Siemion Ivânovitch
De acordo com alguns estudiosos o conto "O senhor Prokhártchin", escrito em 1846 por Fiódor Dostoiévski, foi todo destroçado pelas tesouras dos censores. Segundo o próprio escritor disse a amigos, o conto ficou irreconhecível. A censura se deveu ao fato de Dostoiévski tratar dos dias finais de vida da um miserável, enlouquecido e também avarento funcionário público. A pobreza de um funcionário público já havia sido explorada no seu primeiro romance "Pobre Gente" (1844-46) enquanto que a loucura, também relativa a um funcionário público esquizofrênico, fora explorada por Dostoiévski em "O Duplo" (1845-46).
A edição brasileira, preparada por Natália Nunes e Oscar Mendes, mostra que o senhor Siemion Ivânovitch Prokhártchin, mora no mais sombrio e humilde canto de uma pensão e vive com poucos recursos por causa de seu baixo salário. Ao morrer deixa uns poucos objetos num velho baú e algum dinheiro no interior de um colchão. No leito fúnebre, parece que as preocupações abandonam definitivamente o velho funcionário:
"Aliás, Siemion Ivânovitch tinha antes o ar de um velho egoísta ou de qualquer pardal ladrão. Ali estava, muito tranquilo, como quem tem a consciência em paz, como se não tivesse sido o autor de todas aquelas partidas para enganar as pessoas de bem da maneira mais ignóbil. Já não ouvia o pranto da sua desamparada hospedeira. Muto pelo contrário, tal como um capitalista maldoso, decidido até ao túmulo a não perder o tempo na inatividade, tê-lo-iam julgado completamente absorvido por cálculos de especulação. O seu rosto exprimia uma meditação profunda e os lábios comprimiam-se num ar de gravidade, de que nunca ninguém o teria julgado capaz enquanto vivo. Parecia ter ganho muito em inteligência e conservava o olho direito meio fechado, como se tivesse querido agarrar à pressa alguma ideia muito importante que não tivera tempo desembrulhar..."
sexta-feira, 5 de março de 2021
150 anos de Rosa
Há 150 anos nascia Rosa Luxemburgo. Rosa (Róza Kuksemburg, em polonês) que nasceu na cidade de Zamosc foi uma teórica marxista, com grande atuação na Alemanha principalmente durante a Primeira Guerra Mundial. Rosa estudou inicialmente na sua terra natal e completou os seus estudos em Direito e Economia em Zurique, onde produziu uma tese de doutorado sobre o desenvolvimento industrial da Polônia e que, de acordo com W. Stark [1], mostrou a integração entre a indústria polonesa e o sistema econômico da Rússia no final do século XIX. Após esse estudo, Rosa Luxemburgo mudou-se para a Alemanha. Participou de manifestações em Varsóvia e também do Congresso Internacional Socialista de 1907 que ocorreu em Stuttgart. Nesse congresso redigiu com Vladimir Lenin uma resolução que conclamava os trabalhadores do mundo a transformar qualquer guerra numa oportunidade para destruir o sistema capitalista. Durante a Primeira Guerra Mundial esteve presa ou em custódia, mas mesmo assim fundou a Liga Spartacus, que seria a célula original do Partido Comunista da Alemanha. Rosa Luxemburgo foi morta em janeiro de 1919, juntamente com o seu companheiro, por paramilitares que receberam ordens dos social-democratas que encontravam-se no poder. Rosa foi espancada, baleada e seu corpo jogado num canal de Berlim.
[1] Rosa Luxemburg, The Accumulation of Capital, in Rare Masterpieces of Philosophy and Science, Ed. Dr. W. Stark, London (1951).
domingo, 31 de janeiro de 2021
Tempo de cajus
"Fatos são pedras duras. Não há como fugir. Fatos são palavras ditas pelo mundo." Clarice Lispector, in "A hora da estrela".
Por esses dias caiu-me às mãos o comunicado da morte de uma importante figura da sociedade, muito conhecido por sua grande exposição nos meios de comunicação. Era um homem cristão, caridoso, um verdadeiro cidadão de bem, como diria o senso comum. Jamais seria visto em algum programa policial sendo humilhado pelo apresentador. Comparecia semanalmente à igreja acompanhado de sua esposa, muito educado, um tanto reservado, embora não dispensasse uma posição de destaque em qualquer oportunidade. Antigo leitor de jornais e agora de grandes portais de notícias, se indignava bastante com reportagens que versassem sobre a política e a corrupção. Tinha lá os seus caprichos, como ter preferência em frequentar ambientes selecionados, como ele chamava. Se se atrevesse a aparecer um esfarrapado perto dele, ele exorcizava a imagem falando categoricamente: 'isso é um comunista'.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
O tempo recuperado
O vício da preguiça, uma alegada falta de tempo, a incapacidade de superar obstáculos, há toda uma série de desculpas para não se realizar uma tarefa. Refiro-me, especificamente nesse ponto, à leitura do "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, que distribuído em sete volume, ou cerca de três mil páginas - da edição publicada pela Editora Globo - utilizei 29 anos para a conclusão de sua leitura (23/12/1991 - 03/01/2021). Na obra, desfilam e se entrelaçam as vidas de diversos personagens, como os artistas: o escritor Bergotte, o músico Sr. Vinteuil, o pintor Elstir, a atriz Berma, o pianista Dechambre, o violinista Morel; pessoas da classe média como o engenheiro Legrandin, dr. Cottard, o professor Brichót, da Sorbonne, o Sr. de Bontemps, Diretor do Gabinete do Ministro, além de uma figura importantíssima na trama - Charles Swann - conhecido vendedor de obras de arte que trafegava com desenvoltura entre a burguesia e a aristocracia parisiense; muitos trabalhadores, como o ascensorista e os garçons do hotel de Balbec, a florista, o entregador de alimentos na casa de Combray, os mordomos das grandes mansões, os vários mensageiros, a vendedora de café numa estação de trens, os criados, os cobradores, os jardineiros, Jupien, Françoise; Marcel (o narrador), sua mãe, seu pai e sua avó; Gilberte e sua mãe Odette, Albertine, Andrée, Gisèle, Miss Rosemond, Sr. e Sra. Verdurin; Robert de Saint-Loup e Bloch; e os aristocratas: o duque e a duquesa de Guermantes, Princesa Marie-Gilbert Guermantes, princesa de Parma, marquesa Sra. de Villeparisis, conde de Crécy, condessa de Molé, viscondessa de Saint-Fiacre, Barão de Charlus e dezenas, talvez centenas de outros tipos. "Em busca do tempo perdido" é a história de um escritor que quer começar a sua obra, mas nunca tem força suficiente para realizá-la, consumindo o seu tempo em conversas com amigos, em reuniões nos salões chiques da alta aristocracia ou, movido pelo ciúme, em perseguição à mulher amada. Três lugares, localizados no espaço, no tempo e na memória - voluntária e involuntária - servirão de cenários principais para os acontecimentos do romance: Combray, Balbec e Paris. Quando pequeno, em Combray, o narrador acreditava que o caminho que levava à terra dos Guermantes era inconciliável com o caminho que levava à Méséglise, o caminho de Swann, uma vez que estavam localizados em direções opostas. De fato, pelos campos ao redor da cidade poderiam ser feitos dois passeios a partir da casa da família do narrador: saindo pelo portão principal percorria-se o caminho que passava pela propriedade do Sr. Swann; saindo pelo portão dos fundos ia-se por um alameda que passava pela propriedade dos Guermantes, ricos aristocratas de longa tradição. O caminho de Guermantes representava algo inacessível, abstrato, ideal, enquanto que o caminho de Swann, margeando casas de pessoas conhecidas e repleto de cores e aromas de flores, representava objetivos acessíveis e concretos. Muitos anos depois, Gilberte, o amor da infância do narrador, mostrou-lhe que era possível numa tarde, fazer o passeio pelos dois caminhos; a incompatibilidade, ao final, era pura ilusão. A burguesia e a aristocracia - que também poderiam ser simbolizadas pelos dois caminhos - convergiriam mais adiante na filha de Gilberte Swann e Robert de Saint-Loup. Na cidade praiana de Balbec, o narrador encontrará as moças em flor e se apaixonará por Albertine, com quem terá uma relação doentia de amor e ciúme até a morte trágica da mulher. Também encontrará o pintor que destruía a realidade em um segundo e criava uma nova em seu lugar para satisfazer apenas o seu ideal de beleza, um resumo do artista e de sua obra. Em Paris, as relações hipócritas, superficiais e de conveniência da aristocracia serão registradas pelo narrador como se ele possuísse o dom de fotografar e congelar a alma e os mais secretos desejos dos personagens. Na tentativa de apreender todos os acontecimentos do passado e resignificar o tempo que se foi, o narrador encontra na literatura a maneira de fazê-lo. Através de elementos retirados da memória, ele consegue construir um quadro onde o tempo é o senhor soberano da vida e da sociedade, levando orgulhosos senhores ao esquecimento, elevando figuras degradadas às mais altas posições, destruindo fortunas, nobrezas e os pormenores das genealogias, permitindo que os erros sejam transformados em poeira imperceptível, e que homens e mulheres outrora insuportáveis percam os seus defeitos como fruto de conquistas ou frustrações. Na obra que deixaria para as gerações futuras, o narrador redescobriria a realidade esquecida, amalgamando sensações e lembranças, recuperando, de certa forma, o tempo perdido.






