quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Poeta de três mundos

"Eu sou o homem cuja vida e alma são tortura". Assim começa o belo filme do diretor soviético, armênio nascido na Geórgia, Sergei Parajanov, "A cor das romãs" (1969), que conta aspectos da vida do poeta e trovador Harutyun Sayatyan, mais conhecido como Sayat Nova. Nova escreveu em três línguas, georgiano, armênio e azeri turco, as línguas faladas pelos países da antiga União Soviética, hoje independentes, Geórgia, Armênia e Azerbaijão, países localizados na região que se estende do Mar Negro até o Mar Cáspio. Alguns dos poemas são escritos parcialmente em georgiano e parcialmente em armênio, o levando a utilizar para tais criações dois diferentes alfabetos. Seria uma tentativa de unificação da cultura da região ou apenas uma oportunidade de ser apreciado por mais pessoas? Seja como tenha sido, na época da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), Nova era exaltado como um armênio da Geórgia que produziu a maior parte de suas obras no Arzebaijão, um unificador.

"Como multidão de vítimas ingênuas, viemos deste mundo até você como uma oferta".


Cena do filme A cor das romãs.

Estrelado pela atriz Sofiko Chiaureli e pelo ator Melkon Alekyan, entre outros, "The color of pomegranates" ou "A cor das romãs" apresenta diversas imagens impressionantes e, segundo muitos críticos, trata-se de um tipo de criação artística transcendente ao próprio cinema, estando presentes a música, o teatro, a poesia e as artes plásticas. Parece um teatro cujos cenários constituídos de cores e tonalidades bastante fortes tentam expressar algumas ideias do grande poeta do século XVIII. 

"Muitos me precederam com poucos conhecimentos sobre este mundo incrível, eles se extinguiram e expiraram antes de mim".


Cena do filme A cor das romãs.

Ao longo do filme são apresentados a rosa descolorida no galho seco, os livros secando no teto do mosteiro, as uvas amassadas pelos pés que também ajudam a lavar os tapetes, as mulheres que produzem com os bilros, o tingimento das linhas de lã, o galo degolado e o sangue que marca a testa da criança, o são Jorge que passa a cavalo, o banho na sauna e os tamancos coloridos.

"Das cores e cromos desse mundo, minha infância criou a lira de um poeta e a ofereceu a mim".


Cena do filme A cor das romãs.

Também são apresentados a caveira com o capacete, as dançarinas com as suas longas tranças que segue o ritmo do tambor, o crucifixo com pedras preciosas, o domador de leões, os cavaleiros em torno do castelo, a múmia colorida sob chuva de cinzas, o batizado da pequena criança, os monges de preto que rezam, as orações no velório e as crianças que cantam.

"Procurávamos um refúgio para o nosso amor, mas em vez disso o caminho nos conduziu à terra dos mortos".


Cena do filme A cor das romãs.

O patriarca com seu corpo inerte e o túmulo rodeados de ovelhas, os tapetes com a figura de Jesus morto, o pão e o algodão trabalhado pela família, os músicos com os seus instrumentos simples, os trabalhadores que ceifam no alto do prédio e as ovelhas preparadas para a imolação, a morte do cordeiro sacrificial e a preparação do alimento.

"Pedi uma mortalha para embrulhar o cadáver, mas eles só mostraram as convulsões frenéticas de seus corpos vivos".


Cena do filme A cor das romãs.

O cavalo que parte sozinho, o centauro e a catedral em ruínas, os músicos e suas kamanchas, a janela entre os blocos de pedra, a mulher com a coroa de rosas e folhas, o anjo que flutua e o corpo que jaz entre as velas, o poeta morto.

"No vale ensolarado dos anos longínquos, vivem meus anseios, meus amores e minha infância".


Cena do filme A cor das romãs.

Para encerrar essas rápidas linhas sobre o filme de Parajanov e a poesia de Nova, apresenta-se uma tradução que fizemos para o português de uma tradução realizada para o inglês do poema “Tamam Ashkharh Ptut Eka” ("Eu viajei pelo mundo") de Sayat Nova, retirado do sítio 100years100facts.com. A tradução inglesa foi feita a partir de uma coleção de Der Hovanessian e Margossian. Como se trata da tradução de uma tradução, é possível que a ideia do artista não tenha sido perfeitamente capturada. De qualquer maneira, espera-se que se consiga ao menos um vislumbre geral do pensamento do autor. Segue o poema.

Eu viajei pelo mundo:

Eu viajei pelo mundo, até mesmo à Etiópia
mas eu nunca vi nada que se comparasse
com seus olhos olhando para trás.
Use pano mulambo, use tecido de ouro,
suas roupas se tornam preciosas
quando você anda com elas, coquete.
Quem vê você diz: Olhe isso!

Você é uma joia, um rubi.
Quem tem você é feliz.
Quem te acha nunca sente pena
de quem te perdeu.
Bendito sejam vossos pais, que vos deram à luz.
A morte chega sempre cedo.
Mas se é para viver, que seja
como artista,
um artista que pinta você.

Você é uma joia desde o nascimento,
uma gema em roupas de ouro.
Seu cabelo uma auréola,
seus olhos de cristal dourado.
Suas pálpebras na forma
da roda do mundo
feitas pelo mais maravilhoso oleiro.
Seus cílios, flechas e facas.

Seu rosto, eu deveria descrever apenas
em francês e em persa:
O sol e a lua.
O lápis falha
na mão do artista.
Quando você se senta você é um pássaro da amoreira,
quando você se levanta
um corcel de conto de fadas.

Eu não sou mais aquele Sayat-Nova
que costumava descansar nas areias.
Quais são os seus desejos?
Você é fogo, vestida de fogo.
Que fogo posso resistir?
Eu quero entender o coração
batendo dentro de você.
Mas você cobriu-o
com bordados indianos, tapeçarias de ouro e de prata,
meu coquete, meu flerte.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

No lápis da vida

Encontra-se aberta na Pinacoteca do Estado do Ceará a exposição - No lápis da vida não tem borracha - com vários desenho do artista plástico Aldemir Martins. Aldemir nasceu há cem anos, em 1922, na cidade de Aurora, no Ceará, tendo participado de diversas exposições no Brasil e no exterior. Ganhou vários prêmios por seu trabalho, incluindo entre outros, a Medalha de Ouro no V Salão Nacional de Arte Moderna no Rio de Janeiro e o Prêmio "Presidente Dei Consigli dei Ministeri", na XXVII Bienal de Veneza, ambos em 1956. Em 2005 o Museu de Arte Moderna de São Paulo inaugurou uma importante retrospectiva de sua obra "Sete décadas de sucessos artísticos" - 1945 - 2005, onde a obra do artista é revisitada. Abaixo, algumas das gravuras expostas na Pinacoteca do Ceará.






sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Cem anos da partida de Proust

Hoje, 18 de novembro de 2022, faz exatamente cem anos da morte de Marcel Proust. Para lembrar essa data importante da literatura universal, reproduzo abaixo um pequeno trecho de "A prisioneira", quinta parte de sua obra "Em busca do tempo perdido". Esse texto refere-se ao momento da morte do escritor Bergotte, que pode ser vista como a morte de qualquer grande escritor ou de qualquer grande artista. É uma bela reflexão.

"Nova crise prostrou-o, ele rolou do canapé ao chão, acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto. Morto para sempre? Quem o poderá dizer? Certo, as experiências espíritas não fornecem a prova de que a alma subsista, como também não a fornecem os dogmas da religião. O que se diz é que tudo se passa em nossa vida como se nela entrássemos com o fardo de obrigações contraídas numa vida anterior; não existe razão alguma em nossas condições de vida nesta terra para que nos julguemos obrigados a praticar o bem, a ser delicados, mesmo a ser corteses, nem tampouco para que o artista culto se julgue obrigado a recomeçar vinte vezes um trabalho, cuja admiração que suscitará pouco lhe há de importar ao corpo comido pelos vermes, como o pedaço de parede amarelo pintado com tanta ciência e requinte por um artista desconhecido para sempre e apenas identificado pelo nome de Vermeer. Todas essas obrigações que não encontram sanção na vida presente parecem pertencer a um mundo diferente, fundado na bondade, no escrúpulo, no sacrifício, mundo diferente deste e do qual saímos para nascer nesta terra, antes talvez de voltar a viver nele sob o império dessas leis ignotas a que obedecemos porque trazíamos em nós o seu ensinamento, sem saber que aí as traçara – essas leis de que nos aproxima todo labor profundo da inteligência e que são invisíveis, nem sempre, aliás! – para os tolos. De sorte que não há inverossimilhança na ideia de não ter Bergotte morrido para sempre. Enterraram-no, mas durante toda a noite fúnebre, nas vitrinas iluminadas, os seus livros, dispostos três a três, velavam como anjos de asas espalmadas e pareciam, para aquele que já não existia, o símbolo da sua ressurreição."

Certamente, muitas centenas de anos ainda estarão por vir, trazendo justas homenagens a Marcel Proust e à sua obra.

domingo, 10 de julho de 2022

A religiosa, de Rivette

O filme "A religiosa", de Jacques Rivette (França, 1966), é baseado no romance "La Religieuse" do escritor Denis Diderot (1713 - 1784) , publicado postumamente em 1796. A história ocorre na década de 50 do século XVIII na França. Uma moça é enviada pela família a um convento contra a sua vontade, pois os pais não possuem mais dotes que permitam casá-la, já que suas duas irmãs mais velhas receberam tudo o que a família possuía para as casarem. Depois de muito relutar, afirmando que não poderia fazer os votos de obediência, castidade e pobreza, finalmente vai para o convento. A madre superiora é muito bondosa e a acolhe como a uma filha. Mas após a morte da referida madre, assume a direção do convento uma madre sádica que a persegue, fazendo-a passar por fome e privações. Conseguindo ser transferida para um outro convento, a freira é então perseguida pela madre superiora da sua nova instituição, que se apaixona por ela e tenta ter um relacionamento homossexual. Com o apoio de um padre que compreende o sofrimento que ela passa naquele local, consegue fugir do convento. Ela então vai se esconder numa pequena vila, onde realiza trabalhos pesados. Para sobreviver, acaba tendo que pedir esmola. Uma cafetina a coloca em sua casa onde o destino responderá aos seus anseios através de uma tragédia.



domingo, 17 de abril de 2022

A criança e a árvore

Num sonho a pessoa era acompanhada por um cachorro, lembrando o cão que acompanha por um momento os protagonistas em 'Stalker' e 'Nostalgia'...

Andrei Tarkovsky dirigiu sete longa metragens: A infância de Ivan (1962), Andrei Rublev (1966), Solaris (1972), O espelho (1974), Stalker (1979), Nostalgia (1983) e O sacrifício (1986). Um fato bem conhecido das obras do cineasta russo é que o seu primeiro filme começa com uma criança em frente a uma árvore; da mesma forma encerra-se a sua última película, concluída quando ele já estava bastante doente, perto de sua morte. 


Cena de "A infância de Ivan'.


Cena de "Andrei Rublev".


Como eles misturam sonhos com realidade, há uma certa conexão entre os sete filmes, como se houvesse uma ligação sutil entre eles, tecidas através de locais ou por meio de símbolos. A árvore solitária em 'Nostalgia' e 'O sacrifício'; o galpão com o piso encharcado em 'Stalker' e 'Nostalgia'; o cão que acompanha por um momento o protagonista em 'Stalker' e 'Nostalgia'; o incêndio no galpão no 'O espelho' e a casa no 'O sacrifício'. E o caminhar; os personagens estão sempre caminhando, à procura de algum objetivo, como o pequeno soldado Ivan na A Infância de Ivan; o pintor, em Andrei Rublev; o personagem de O Espelho; o astronauta em Solaris, que começa a sua saga ainda aqui na Terra numa longa viagem de carro; Andrei, que busca uma nova maneira de viver em Nostalgia; o escritor Alexander, em O Sacrifício, filme que termina com a feiticeira caminhando para sua morada.

Outros elementos comuns que são possíveis de serem observados são o garrafão de água em O espelho e Nostalgia; a casa entre as árvores na floresta no O espelho e O sacrifício; a chuva, que é onipresente no A infância de Ivan, Andrei Rublev, O espelho, Stalker e Nostalgia.  


Cena de "O espelho".



Cena de "Nostalgia".

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Leonardo, há 570 anos...

Há exatamente 570 anos nascia Leonardo da Vinci. Leonardo, que exerceu diversas atividades como engenheiro, cientista, anatomista, inventor, arquiteto, escultor, pintor, foi antes de tudo um grande observador da natureza. Sem ter tido a oportunidade de estudar em uma universidade (ou estudar formalmente como os seus ricos contemporâneos) conseguiu dar muitas contribuições para o entendimento do mundo, como explicar o porquê da leve claridade da Lua durante a lua nova; a descoberta da independência da área na resistência de um objeto que se desloca sobre outro; a maneira como um feto encontra-se no útero de sua mãe; o formato dos turbilhões formados com a água que escoa com turbulência, entre outros, anotando tudo num caderno que escrevia como se fosse a imagem de um espelho.



Figura 1: Autoretrato de Leonardo da Vinci.

Na pintura, em particular, fez algumas das obras mais famosas do mundo, como a 'Monalisa' e a 'Santa Ceia', além de vários estudos. Algumas obras certamente se perderam, enquanto outras, não foram concluídas, como a 'Adoração dos Reis Magos'. Para comemorar essa efeméride, reproduzimos abaixo umas poucas obras do mestre da Renascença. Vida longa a Leonardo!



Figura 2: 'A anunciação', obra pintada entre 1472 e 1475.



Figura 3: Retrato de Cecilia Gallerani, 'Dama com Arminho'.



Figura 4: Uma das pinturas mais reproduzidas em todo o mundo: 'A última ceia'.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Senhora do Nilo

Ruanda, pequeno país no centro da África, é a terra dos tutsis, dos hutus, dos batwas. Explorado inicialmente pelos alemães e posteriormente pelos belgas na sanha colonialista européia de dois séculos, Ruanda foi palco de um dos mais vergonhosos episódios ocorridos no século XX: o massacre de mais de oitocentas mil pessoas. No livro "Nossa Senhora do Nilo" (Notre-dame du Nil) a escritora Scholatique Mukasonga conta a história de estudantes de um colégio tradicional onde as moças pertencentes à alta sociedade são educadas na tradição cristã, tendo como referência cultural a Europa e a língua francesa. E como pouco a pouco, os adivinhos da chuva, os detentores dos segredos das ervas e da floresta, os velhos que conhecem os encantos e encantamentos vão desaparecendo, substituídos pelos valores ocidentais. 

"A irmã Lydwine era professora de história-e-geografia, mas ela fazia uma distinção clara entre as duas disciplinas: segundo ela, a história se referia à Europa, a geografia, à África. (...) Para a África, não havia história, pois os africanos não sabiam ler nem escrever antes de os missionários trazerem as escolas para cá. Além disso, foram os Europeus que descobriram a África e a colocaram na história. E, se houve reis em Ruanda, seria melhor esquecê-los, pois hoje em dia vivíamos em uma República. Na África, havia montanhas, vulcões, rios, lagos, desertos, florestas e até algumas vilas. Bastava decorar os nomes e saber situá-las no mapa: Kilimandjaro, Tamanrasset, Karisimbi, Tombouctou, Tanganyika, Muhabura, FoutaDjalon, Kivu, Ouagadougou..."