domingo, 15 de outubro de 2023
Cem anos de Ítalo Calvino
sábado, 15 de julho de 2023
Do ladrão honrado à Nietotchka
Os personagens de Dostoiévski são complexos e o lugar comum não diminui a intensidade dessa verdade. Lembro-me imediatamente, por exemplo, do major do presídio da Casa dos Mortos, um tipo altivo, dono de todas as situações, orgulhoso, mal até no limite do sadismo, aparentemente sem nenhum traço de humanidade; mas ao final, despojado de sua farda, mostra-se um pobre coitado, um nada, digno de toda a pena. Mas esse major e outros tipos falarei posteriormente. Quero aqui continuar a resumir obras preliminares do mestre russo.
No conto "O ladrão honrado", o personagem Astáfi Ivânitch relata a história de um ladrão honrado, Emiélia Ilhitch. Este último é uma pessoa que anda pelas sarjetas por causa da bebida. Com pena da situação, Astáfi o aloja em seu quarto e divide com ele o pouco alimento. Entretanto, algum tempo depois, uma calça de Astáfi desaparece e esse tem certeza que foi obra de Emiélia. Envergonhado, Emiélia sai de casa, Astáfi se sente culpado e o procura por diversos lugares. Vários dias depois Emiélia retorna para o quarto de Astáfi, bastante doente, e fica convalescendo na cama próximo ao seu benfeitor. Próximo à sua morte, Emiélia pede que Astáfi venda o seu blusão pois ele não precisará no túmulo. E confessa que foi ele quem roubou as calças. Apesar de tudo, Astáfi fica triste com a partida do homem que dividiu com ele, por alguns dias, o seu quarto de dormir.
Em "A mulher alheia e o homem debaixo da cama" Ivan Andiéivitch é um marido extremamente ciumento. Se há razão ou não para o ciúme, isso não vem ao caso. O certo é que ele persegue a sua mulher por vários locais. Em alguns momentos acredita-se que ela o esteja traindo realmente, em outros parece ser apenas uma neurose. Movido por um sentimento destrutivo, Ivan se vê envolvido numa situação absolutamente absurda. Seguindo as pistas de onde poderia encontrar-se a sua esposa e um amante, ele invade uma casa na certeza de desmascarar os dois. Entretanto, a casa na verdade são de desconhecidos. Ele invade o quarto de uma jovem esposa e ao verificar o terrível engano, tentar dar meia volta para sair do quarto e do apartamento errado. Mas nesse momento o velho marido da jovem adentra a casa e ele, sem saber o que fazer, esconde-se debaixo da cama. Entretanto, para a sua surpresa, lá também já encontrava-se um jovem que também encontra-se no esconderijo. O marido entra tossindo enquanto os dois embaixo da cama começam a travar um diálogo quase surreal. Tudo piora quando o cãozinho da jovem acorda e começa a latir com os intrusos. O velho marido vai verificar o que está acontecendo e nesse momento de confusão o jovem vai embora e fica sob a cama apenas Ivan Andiévitch. Agora, sem culpa no cartório, Ivan vai ter que se explicar.
No conto "Uma árvore de natal e um casamento" um rico casal recebe vários conhecidos para um baile infantil na época do natal. Destaca-se entre os convidados um importante funcionário, Iulian Mostakóvitch, que descobre que a jovem filha do casal possui um rico dote que a acompanhará após o casamento. Cinco anos depois ocorre o casamento do senhor Iulian com a jovem filha do casal, agora com dezesseis anos de idade.
Na novela "Noites brancas" um jovem se apaixona por uma bela moça que por sua vez está há um ano à espera do seu amor que partiu numa viagem e prometeu voltar. Como na obra anterior 'A dona da casa', o protagonista se encontra envolvido emocionalmente com uma mulher que não poderá lhe dar a atenção que ele necessita. Isso trará uma tristeza duradoura a ele, embora ele reconheça que os poucos momentos de atenção, na verdade, "um momento de felicidade, não será bastante para preencher uma vida?" Quando percebe que esse momento único é irrepetível, as cores acinzentadas do mundo voltam a ter destaque em sua vista: "Vi empalidecerem as cores das paredes, descobri novas teias de aranha em todos os cantos. Não sei por que, quando relanceei a vista através da janela, pareceu-me que o prédio fronteiro também envelhecera e que se tinha posto mais escuro e arruinado, que o estuque da pilastras estava todo gretado, que as cornijas se fendiam e enegreciam, e que as janelas estavam cheias de manchas e de sujidade."
A obra "Nietotchka Niezvanova" trata da história de uma órfã cuja mãe casou-se com um músico fracassado, Iefímov, presunçoso, orgulhoso, dono de um inútil amor-próprio, que se sentia um gênio - pelo menos durante a sua mocidade. A informação sobre essas características foram passadas à protagonista por um antigo amigo de seu padrasto, o violonista B***, que por sua vez, conhecia as suas próprias limitações: "E quando agora a pureza da minha execução e o aperfeiçoamento da minha técnica chamam a atenção, posso dizer que apenas as devo ao meu estudo perseverante e incansável, ao pleno conhecimento, quero dizer, à apreciação objetiva das minhas faculdades, à minha renúncia espontânea e ao meu constante combate à vaidade e à preguiça, satisfazendo-me com as minhas próprias possibilidades". Nietotchka passa a infância acreditando que o músico fracassado é o seu pai. Ela tem um carinho e uma admiração muito especial ao pai adotivo, e acha que sua mãe é a causa da miséria da família, embora a indisposição do pai ao trabalho devido à sua irascibilidade e o vício com a bebida devessem ser considerados os principais fatores da situação da família. Nietotchka, na verdade, tinha um apego tão grande ao pai que, segundo as suas próprias palavras, havia qualquer coisa de romance. Mas apesar disso, o pai a obrigava a roubar os poucos copeques e rublos da mãe. "Mas ele estava esperançoso em obter o dinheiro por meu intermédio. Vejo agora que, por ele, eu estava disposta a tudo e que não recuaria diante de nada deste mundo. Mas só Deus sabe o que este 'tudo' significava então para mim. Eu sabia o que aquele dinheiro significava para a minha pobre mãe; sabia que ela podia cair doente de comoção e inquietação se se visse sem ele e escutava no meu íntimo a voz do remorso. Ele, pelo contrário, não via nada disso". Após algum tempo o pai adotivo e a mãe de Nietotchka morrem e ela vai morar na casa de um príncipe. Lá ela conhece a princezinha Kátia que tem mais ou menos a mesma idade. Depois de algum desentendimento, elas finalmente se tornam amigas e passam a ficar o dia juntas, se abraçando e se beijando dezenas de vezes, num amor inexplicável que nasce entre as duas. Mas a mãe da princezinha ao saber disso, a leva de Petersburgo para Moscou e a deixa lá por vários anos. Nietotchka vai morar com a irmã mais velha de Kátia, Alieksandra Mikháilovna, fruto de um antigo casamento da mãe de Kátia. Alieksandra trata Nietotchka como a uma filha. Essa última percebe que Alieksandra não é feliz com o seu marido Piotr, e que há um grande segredo na vida deles. Nietotchka tem momentos de tristeza e de alegrias até descobrir uma carta escondida num livro da biblioteca, que parece dar uma pista sobre esse segredo. Quando Piotr descobre Nietotchka na sua biblioteca e com uma carta de amor em suas mãos - nessa época ela já tinha dezessete anos - começa uma grande confusão envolvendo também Alieksandra. Nesse ponto a história acaba; claramente é um romance inacabado. É uma pena que nunca saberemos qual é esse segredo.
domingo, 2 de abril de 2023
Um rio chamado Titas
"Por causa de seus próprios erros/ Você perdeu tudo/ A quem você vai culpar por esta dor?/ Minha querida, não chore mais".
Vivendo em uma vila às margens do rio Titas, em uma comunidade que se encontra entre a extrema pobreza e a miséria, a jovem viúva Basanti (Rosy Samad) representa a sobrevivência e a resistência à exploração secular experimentada por famílias de humildes pescadores.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
Poeta de três mundos
"Eu sou o homem cuja vida e alma são tortura". Assim começa o belo filme do diretor soviético, armênio nascido na Geórgia, Sergei Parajanov, "A cor das romãs" (1969), que conta aspectos da vida do poeta e trovador Harutyun Sayatyan, mais conhecido como Sayat Nova. Nova escreveu em três línguas, georgiano, armênio e azeri turco, as línguas faladas pelos países da antiga União Soviética, hoje independentes, Geórgia, Armênia e Azerbaijão, países localizados na região que se estende do Mar Negro até o Mar Cáspio. Alguns dos poemas são escritos parcialmente em georgiano e parcialmente em armênio, o levando a utilizar para tais criações dois diferentes alfabetos. Seria uma tentativa de unificação da cultura da região ou apenas uma oportunidade de ser apreciado por mais pessoas? Seja como tenha sido, na época da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), Nova era exaltado como um armênio da Geórgia que produziu a maior parte de suas obras no Arzebaijão, um unificador.
"Como multidão de vítimas ingênuas, viemos deste mundo até você como uma oferta".
Estrelado pela atriz Sofiko Chiaureli e pelo ator Melkon Alekyan, entre outros, "The color of pomegranates" ou "A cor das romãs" apresenta diversas imagens impressionantes e, segundo muitos críticos, trata-se de um tipo de criação artística transcendente ao próprio cinema, estando presentes a música, o teatro, a poesia e as artes plásticas. Parece um teatro cujos cenários constituídos de cores e tonalidades bastante fortes tentam expressar algumas ideias do grande poeta do século XVIII.
"Muitos me precederam com poucos conhecimentos sobre este mundo incrível, eles se extinguiram e expiraram antes de mim".
Ao longo do filme são apresentados a rosa descolorida no galho seco, os livros secando no teto do mosteiro, as uvas amassadas pelos pés que também ajudam a lavar os tapetes, as mulheres que produzem com os bilros, o tingimento das linhas de lã, o galo degolado e o sangue que marca a testa da criança, o são Jorge que passa a cavalo, o banho na sauna e os tamancos coloridos.
"Das cores e cromos desse mundo, minha infância criou a lira de um poeta e a ofereceu a mim".
Também são apresentados a caveira com o capacete, as dançarinas com as suas longas tranças que segue o ritmo do tambor, o crucifixo com pedras preciosas, o domador de leões, os cavaleiros em torno do castelo, a múmia colorida sob chuva de cinzas, o batizado da pequena criança, os monges de preto que rezam, as orações no velório e as crianças que cantam.
"Procurávamos um refúgio para o nosso amor, mas em vez disso o caminho nos conduziu à terra dos mortos".
O patriarca com seu corpo inerte e o túmulo rodeados de ovelhas, os tapetes com a figura de Jesus morto, o pão e o algodão trabalhado pela família, os músicos com os seus instrumentos simples, os trabalhadores que ceifam no alto do prédio e as ovelhas preparadas para a imolação, a morte do cordeiro sacrificial e a preparação do alimento.
"Pedi uma mortalha para embrulhar o cadáver, mas eles só mostraram as convulsões frenéticas de seus corpos vivos".
O cavalo que parte sozinho, o centauro e a catedral em ruínas, os músicos e suas kamanchas, a janela entre os blocos de pedra, a mulher com a coroa de rosas e folhas, o anjo que flutua e o corpo que jaz entre as velas, o poeta morto.
"No vale ensolarado dos anos longínquos, vivem meus anseios, meus amores e minha infância".
Para encerrar essas rápidas linhas sobre o filme de Parajanov e a poesia de Nova, apresenta-se uma tradução que fizemos para o português de uma tradução realizada para o inglês do poema “Tamam Ashkharh Ptut Eka” ("Eu viajei pelo mundo") de Sayat Nova, retirado do sítio 100years100facts.com. A tradução inglesa foi feita a partir de uma coleção de Der Hovanessian e Margossian. Como se trata da tradução de uma tradução, é possível que a ideia do artista não tenha sido perfeitamente capturada. De qualquer maneira, espera-se que se consiga ao menos um vislumbre geral do pensamento do autor. Segue o poema.
Eu viajei pelo mundo:
sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
No lápis da vida
Encontra-se aberta na Pinacoteca do Estado do Ceará a exposição - No lápis da vida não tem borracha - com vários desenho do artista plástico Aldemir Martins. Aldemir nasceu há cem anos, em 1922, na cidade de Aurora, no Ceará, tendo participado de diversas exposições no Brasil e no exterior. Ganhou vários prêmios por seu trabalho, incluindo entre outros, a Medalha de Ouro no V Salão Nacional de Arte Moderna no Rio de Janeiro e o Prêmio "Presidente Dei Consigli dei Ministeri", na XXVII Bienal de Veneza, ambos em 1956. Em 2005 o Museu de Arte Moderna de São Paulo inaugurou uma importante retrospectiva de sua obra "Sete décadas de sucessos artísticos" - 1945 - 2005, onde a obra do artista é revisitada. Abaixo, algumas das gravuras expostas na Pinacoteca do Ceará.
sexta-feira, 18 de novembro de 2022
Cem anos da partida de Proust
Hoje, 18 de novembro de 2022, faz exatamente cem anos da morte de Marcel Proust. Para lembrar essa data importante da literatura universal, reproduzo abaixo um pequeno trecho de "A prisioneira", quinta parte de sua obra "Em busca do tempo perdido". Esse texto refere-se ao momento da morte do escritor Bergotte, que pode ser vista como a morte de qualquer grande escritor ou de qualquer grande artista. É uma bela reflexão.
"Nova crise
prostrou-o, ele rolou do canapé ao chão, acorreram todos os visitantes e
guardas. Estava morto. Morto para sempre? Quem o poderá dizer? Certo, as
experiências espíritas não fornecem a prova de que a alma subsista, como também
não a fornecem os dogmas da religião. O que se diz é que tudo se passa em nossa
vida como se nela entrássemos com o fardo de obrigações contraídas numa vida
anterior; não existe razão alguma em
nossas condições de vida nesta terra para que nos julguemos obrigados a
praticar o bem, a ser delicados, mesmo a ser corteses, nem tampouco para
que o artista culto se julgue obrigado a recomeçar vinte vezes um trabalho, cuja admiração que suscitará pouco lhe há de
importar ao corpo comido pelos vermes, como o pedaço de parede amarelo pintado
com tanta ciência e requinte por um artista desconhecido para sempre e apenas
identificado pelo nome de Vermeer. Todas essas obrigações que não encontram
sanção na vida presente parecem pertencer a um mundo diferente, fundado na
bondade, no escrúpulo, no sacrifício, mundo diferente deste e do qual saímos
para nascer nesta terra, antes talvez de voltar a viver nele sob o império
dessas leis ignotas a que obedecemos porque trazíamos em nós o seu ensinamento,
sem saber que aí as traçara – essas leis de que nos aproxima todo labor
profundo da inteligência e que são invisíveis, nem sempre, aliás! – para os
tolos. De sorte que não há inverossimilhança na ideia de não ter Bergotte
morrido para sempre. Enterraram-no, mas durante toda a noite fúnebre, nas vitrinas
iluminadas, os seus livros, dispostos três a três, velavam como anjos de asas
espalmadas e pareciam, para aquele que já não existia, o símbolo da sua
ressurreição."
Certamente, muitas centenas de anos ainda estarão por vir, trazendo justas homenagens a Marcel Proust e à sua obra.
domingo, 10 de julho de 2022
A religiosa, de Rivette
O filme "A religiosa", de Jacques Rivette (França, 1966), é baseado no romance "La Religieuse" do escritor Denis Diderot (1713 - 1784) , publicado postumamente em 1796. A história ocorre na década de 50 do século XVIII na França. Uma moça é enviada pela família a um convento contra a sua vontade, pois os pais não possuem mais dotes que permitam casá-la, já que suas duas irmãs mais velhas receberam tudo o que a família possuía para as casarem. Depois de muito relutar, afirmando que não poderia fazer os votos de obediência, castidade e pobreza, finalmente vai para o convento. A madre superiora é muito bondosa e a acolhe como a uma filha. Mas após a morte da referida madre, assume a direção do convento uma madre sádica que a persegue, fazendo-a passar por fome e privações. Conseguindo ser transferida para um outro convento, a freira é então perseguida pela madre superiora da sua nova instituição, que se apaixona por ela e tenta ter um relacionamento homossexual. Com o apoio de um padre que compreende o sofrimento que ela passa naquele local, consegue fugir do convento. Ela então vai se esconder numa pequena vila, onde realiza trabalhos pesados. Para sobreviver, acaba tendo que pedir esmola. Uma cafetina a coloca em sua casa onde o destino responderá aos seus anseios através de uma tragédia.


















