quarta-feira, 23 de abril de 2014

Na tempestade...

Há exatamente 450 anos nascia William Shakespeare.

"Agora, todos os meus sortilégios foram destruídos e, por força, só possuo a minha mesma que é bem fraca! Neste momento, em verdade, preciso ficar aqui como vosso prisioneiro ou, então, ser enviado para Nápoles. Como consegui recobrar meu ducado e perdoei ao traidor, não deixeis que eu continue preso nesta ilha deserta por meio de vosso sortilégio, mas libertai-me de tudo o que me prende com o auxílio de vossas boas mãos. Que vosso doce alento enfune minhas velas ou, então falharão meus propósitos que eram de causar-vos prazer. Agora, não tenho mais espíritos que me ajudem, arte para encantar e meu fim será o desespero, a não ser que a oração venha em meu auxílio tão penetrante que assalte a própria Clemência e liberte todas as faltas. Se quiserdes que vossos pecados sejam perdoados, deixai que vossa indulgência me absolva."

segunda-feira, 3 de março de 2014

Do trem de Bombaim a Madras

Antonio Tabucchi foi um escritor italiano que por causa de sua paixão por Fernando Pessoa, se tornou um grande conhecedor da língua portuguesa, chegando a ser professor de português na Universidade de Siena. Entre suas obras, a maioria contos e romances, encontra-se "Noturno Indiano", que ficou famosa após o filme homônimo de Alain Corneau, de 1989. "Noturno Indiano" foi publicado em 1984 e conta a história de uma busca na qual o personagem parte de Bombaim à Goa passando por Madras. Entre os livros de contos de Tabucchi pode-se citar Piccoli equivoci senza importanza, que foi publicado em 1985. Um dos contos deste último livro, I treni que vanno a Madras, de certa forma, retorna ao tema da viagem, desta feita, contando brevemente uma viagem de Bombaim (Mumbai) a Madras (Chennai), passando por Bangarole. O final do conto, como em  alguns dos grandes contos universais, possui sutilezas e deixa margem para diversas interpretações do leitor. Abaixo, uma versão que fizemos para o início do conto.
 
"Os trens que vão de Bombaim para Madras partem da estação Vitória. O meu guia assegurava que uma partida da estação Vitória vale sozinha uma viagem à Índia, e esta era a primeira motivação que me havia feito preferir o trem ao avião. O meu guia era um livrinho um pouco excêntrico que dava conselhos perfeitamente incongruentes, e eu o estava seguindo ao pé da letra. O fato era que também a minha viagem era perfeitamente incongruente, assim aquele era o livro feito propositadamente para mim. Tratava o viajante não como um predador ávido de imagens esteriotipadas, ao qual se sugerem três ou quatro itinerários obrigatórios como nos grandes muséus visitados às pressas, mas na mesma medida de um ser errante e ilógico, disponível ao ócio e ao erro."

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Mudanças, Camões

Luís Vaz de Camões, poeta português que viveu no século XVI, é famoso, entre outros, por seus belos sonetos que versam sobre diversos temas. Abaixo, um de seus mais famosos sonetos.

Soneto LVII

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Amor: Petrarca e Camões

Francesco Petrarca foi contemporâneo de Dante Alighiere, viveu eternamente apaixonado por Laura de Novaes, ou simplesmente, Laura, para quem o poeta produziu dezenas de sonetos e poemas. Petrarca parece ter sido uma das grandes referência do grande poeta português Luís de Camões. Nesta postagem apresentamos um soneto de cada um dos dois poetas, cujo tema é exatamente o Amor.

           
           O amor, segundo Petrarca:
Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que cousa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento?
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.

O amor, segundo Camões:
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Sonetos para a amada

Na postagem anterior o tema "Amor" é explorado por meio de sonetos tanto por Petrarca quanto por Camões, onde se pode inferir sobre a influência do primeiro sobre o segundo. Mas esta influência fica mais explícita quando o tema é a morte de suas amadas. Abaixo, momentos distintos (e ao mesmo tempo similares) de grandes poesias.



                        Soneto para Laura, que se encontrava doente.

                        Francesco Petrarca:


A alma minha gentil que agora parte
Tão cedo deste mundo à outra vida,
Terá certo no céu grata acolhida,
Indo habitar sua mais beata parte.

Ficando entre o terceiro lume e Marte,
Será a vista do sol escurecida,
Virá depois, muita alma ao céu subida,
Vê-la – portento de natural e arte.

E se pousasse entre Mercúrio e Luz,
Brilhara mais do que eles nossa bela,
Como só se espalhara a fama sua.

A Marte certo não chegara ela.
Mas se mais alto o seu vulto flutua,
Vencera Jove e qualquer outra estrela
            Soneto para uma jovem, que pereceu num naufrágio.
            Luís de Camões:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.




Manhã em Hiroshima

Após a primeira arma de destruição em massa ter sido lançada sobre Hiroshima, em 1945, o poeta japonês Sankichi Toge escreveu o belo poema Manhã, reproduzido abaixo. Ele é um verdadeiro libelo a favor de que os frutos da ciência sejam usados apenas em benefício da humanidade. Aproveitando o tema reproduzimos também o poema Rosa de Hiroshima, escrito por Vinicius de Moraes e musicado por Gerson Conrad. Rosa de Hiroshima fez muito sucesso nos anos de 1973 e 1974 na voz do vocalista do grupo Secos e Molhados, Ney Matogrosso.


Manhã
Sankichi Toge

Eles sonham:
Um trabalhador sonha, baixando a picareta,
o suor transformado em cicatrizes pelo clarão.
Uma esposa sonha, dobrada sobre a máquina de costura,
entre o odor doentio da sua pele aberta.
Uma empregada de bilheteira sonha,
as suas cicatrizes escondidas,
como pinças de caranguejo, nos dois braços.
Um vendedor de fósforos sonha,
com pedaços de vidro partido cravados no pescoço.

Eles sonham:
Que bandeiras festivas tremulem
à sombra das árvores, onde os trabalhadores repousam
e as lendas de Hiroshima
são contadas por lábios suaves.

Eles sonham:
Que esses suínos com forma de homem
que não sabem como utilizar o poder
do centro da Terra senão para a carnificina.
Apenas sobrevivam em livros ilustrados
para as crianças.
Que a energia de dez milhões de cavalos-vapor por grama,
mil vezes mais forte que um poderoso explosivo.
Passe do átomo para as mãos do povo.
Que a colheita rica da ciência seja levada, em paz, ao povo
Como cachos de uvas suculentas
Húmidas de orvalho
Apanhadas
Ao amanhecer.


Rosa de Hiroshima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Quatro poetas brasileiros

Sob a sombra de velhas árvores discutem otimistas inveterados a respeito da vida. Ao lado, taças de cicuta.


Velhice / Alberto de Oliveira

Água do rio Letes, onde passas?
Venha a mim o teu curso benfazejo
Que sepulta alegrias ou desgraças
No mesmo esquecimento sem desejo.

Quero beber-te por contínuas taças...
E às horas do passado que revejo,
Pedir-te que as afogues e desfaças
Na carícia e na esmola do teu beijo!

Quem de si nunca esteve satisfeito
E com novas empresas só procura
Corrigir seu engano ou seu defeito,

Não pode recordar sem amargura
Que a mais nenhum esforço tem direito
Na ruína presente e na futura...


As Pombas / Raimundo Correia

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüinea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.


Remorso / Olavo Bilac

Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah ! Mais cem vidas ! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando !

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!


Velho Tema I / Vicente de Carvalho

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.