sábado, 4 de março de 2017

As esfirras podres do Habib's

O nome da criança era João Victor Souza de Carvalho, 13 anos. Uma criança raquítica e subnutrida cujo nome, quase certamente, será esquecido antes de entrar o próximo mês. Na filmagem de uma câmera de segurança, dois funcionários da rede de lanches Habib's aparecem arrastando o garoto desmaiado pelos braços como se tratasse de um animal qualquer que acabara de ser atropelado e tivesse que ser retirado para não atrapalhar o movimento dos carros. Ele apresenta a calça arreada, os sapatos e sua dignidade vão ficando ao longo do asfalto, e depois é largando quase sem vida na calçada molhada. Alguns minutos após essa cena, João Victor morrerá. Em nota, a rede afirmou que o garoto estava ameaçando o patrimônio dos clientes e da loja, como se isso fosse uma justificativa ou diminuísse um pouco a monstruosidade do crime.

O resultado final da investigação poderá ser qualquer um: o garoto correu, escorregou e bateu a cabeça no chão; a criança teve um mal súbito; ou tinha uma doença congênita. Talvez, no máximo, os dois brutamontes que espancaram e arrastaram o João Victor sejam acusados de homicídio culposo. Já sobre o Habib's não recairá nenhuma culpa. A rede é tão inocente quanto um senador que descobriram possuir milhões numa conta na Suíça, ou que foi delatado diversas vezes por receber propina de empreiteiras, ou ter tido o seu helicóptero preso com centenas de quilos de pasta base de cocaína, ou ter uma fortuna que gosta de fazer viagens às Ilhas Virgens Britânicas... Num país desigual como o Brasil, a justiça e a mídia estão invariavelmente ao lado de banqueiros, latifundiários, empresários. O crime - roubo, sonegação, tráfico de drogas, contrabando, espancamento, assassinato - é sempre relativizado e a sua barbaridade dependerá de quem o cometeu.

No século XIX, um negro que fugia para tentar uma vida melhor longe da fazenda onde vivia como escravo era caçado como uma fera até ser trazido de volta, vivo ou morto, para deleite do senhor de engenho. Quando os dois funcionários da rede de sanduíches saíram à caça do pequeno João Victor eles estavam reproduzindo a cena dos capitães do mato do Brasil Império. O Zumbi Preto Pio de hoje tentava fugir da escravidão imposta pela fome. Ao trazerem a criança indolente semimorta que pedia esmola, arrastada como um escravo irascível, os dois covardes estavam mostrando serviço aos novos ricos da velha sociedade escravocrata dos tempos modernos. A única diferença entre os dois séculos é que agora, em vez de iguarias nas baixelas, os senhores e capatazes se contentam em se empanturrar com coxinhas e esfirras podres contaminadas com ódio e indiferença.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

No país do carnaval

O Brasil é um país que parece que avança para o passado. Em 16/03/16 a presidenta Dilma Rousseff nomeou Lula da Silva como ministro-chefe da Casa Civil e um dia depois o juiz Sergio Moro, que comanda o julgamento da operação Lava-Jato, vazou áudios sobre a nomeação ao telejornal da Rede Globo, acusando-a de querer obstruir a operação. No outro dia o STF – através de Gilmar Mendes – decidiu pelo impedimento de posse de Lula. Menos de um ano depois, Temer nomeia Moreira Franco ministro, apesar de ter sido delatado pela Odebrecht como recebedor de propinas nas concessões de aeroportos e também em fraudes na CEF. Sob circunstâncias semelhantes ao caso de Lula, na verdade mais grave pois era claramente para blindar Franco com foro privilegiado, o STF através de Celso de Mello o mantém ministro e, obviamente, com foro privilegiado.

E, então, entra em cena o ministro Eliseu Padilha que diz que o Ministro da Saúde – que comprou terreno no valor de 28 milhões de reais em transação suspeitíssima – foi escolhido em troca de votos no Congresso Nacional.

Pouco antes do carnaval, o empresário José Yunes afirma a um jornalista que à pedido de Eliseu Padilha, Lucio Funaro financiara 140 deputados para garantir a eleição de Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados. Além disso, Yunes afirmou que Michel Temer e Marcelo Odebrecht se reuniram em 2014 para acertarem uma propina de 11 milhões de reais.

Esses fatos estão em evidência agora, durante o carnaval de 2017. Muitas informações estão aparecendo, procurando dar sentido a várias informações (que estão sendo divulgadas por Anonymus) como o “Tabapuã Papers é subura com Temer e Globo” de Eduardo Guimarães no Blog da Cidadania, publicado em 26/02/2017 e “Xadrez do elo desconhecido entre Temer e Yunes” de Luis Nassif no Blog GGN, publicado em 27/02/2017. A seguir, reproduzo um texto do Professor Aldo Fornazieri publicado hoje, também no sítio GGN.

A Lava Jato e seus inimigos íntimos
Aldo Fornazieri
A grande frente que se formou para perpetrar o golpe do impeachment está se desfazendo aos poucos. O ponto de convergência desta frente foi a Operação Lava Jato. Ela era o estandarte, a bandeira tremulante, na qual estava estampada a cruz para liderar o expurgo dos corruptos que haviam se apossado do país. Sérgio Moro parecia ser uma espécie de São Bernardo de Clairvaux, cujos pareceres nos processos e nos mandatos eram verdadeiras chamadas à mobilização de cruzados. Ou, quem sabe, era o bispo Fulk um dos chefes da Cruzada Cátara para combater com violência os hereges porque, entre outras coisas, estes queriam uma maior igualdade.
Nas cruzadas do impeachment todos eram santos: os que foram às ruas, os integrantes do judiciário, os porta-vozes da grande mídia, os políticos contrários ao governo Dilma, os deputados do indescritível espetáculo do 17 de abril, os grupos que pregavam a volta dos militares etc. São Michel, com seu cortejo de anjos e arcanjos, haveria de purificar o Brasil com seu jeitinho manso, com sua habilidade de conversar, com sua capacidade de construir consensos. O Brasil, livre dos demônios vermelhos, seria unificado, num estalar de dedos a economia voltaria a crescer e o manto verde e amarelo da ordem e do progresso haveria de produzir paz, contentamento, empregos e opulência. 

Esta grande mentira, que embebedou boa parte da sociedade, hoje não passa de um espelho estilhaçado em mil pedaços, todos eles refletindo a face da maior quadrilha de corruptos que se apossou do poder. Todos eles refletindo as faces de um grupo indigesto de políticos que se acotovelam para participar da suruba do Foro Privilegiado. Todos eles refletindo as faces de antigos comparsas que agora querem queimar o sagrado estandarte no fogo cruzado que objetiva bloquear a marcha da libertação da terra santa. Até os santos, os chefes dos cavaleiros templários, o São Bernardo, são diariamente chamuscados pelas chamas que vêm das barricadas que tentam bloquear a justiça purificadora.
O PMDB, principal beneficiário, se tornou também o principal inimigo da Lava Jato. Já tentou várias manobras no Congresso para detê-la. Agora vêm os ataques públicos. Junto com alguns colunistas e blogueiros de direita, que se valeram de todas as ilegalidades da Lava Jato e do juiz Moro para derrubar o governo Dilma, desferem petardos contra os vazamentos seletivos, contra a criminalização da política, contra as conduções coercitivas, contra a manutenção de acusados na cadeia para que eles façam delações premiadas, contra o "lado obscuro" da operação e assim por diante. Investigar corruptos do PMDB e do PSDB virou sinônimo de "criminalização da política". Contra o PT se tratava de "limpeza moral". Mas a partir do governo Temer, a fetidez do ar bloqueou até mesmo a chuva nos céus de Brasília.
O PMDB está na linha de frente no combate à Lava Jato. Age como se fosse uma infantaria, uma espécie de bucha de canhão. Já, o PSDB, age como se fosse um grupo de comando de forças especiais. Usa a inteligência, tem infiltrados poderosos nas trincheiras "inimigas" como Rodrigo Janot, o próprio Moro, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e o ministro plagiador. Entre os infiltrados, nem todos são amigos entre si. O único ponto de convergência consiste em proteger os caciques do tucanato.Uns torpedeiam a Lava Jato, citando, inclusive, ilegalidades contra petistas; outros,querem preservá-la no que lhes interessa.
As direitas que patrocinaram as mobilizações de rua agora estão divididas. De um lado estão aqueles que querem salvar Temer para salvar o PSDB em 2018. Além de atacarem a Lava Jato, acusam seus ex-colegas classificando-os de "direita xucra", de fazer o jogo da esquerda por querem continuar mobilizando contra a corrupção. Ocorre que as perspectivas de 2018 colocam as direitas em uma encruzilhada, em marchas para caminhos distintos. A "direita xucra" quer a continuidade das mobilizações por duas razões: 1) ficar com Temer poderá significar um naufrágio; 2) não quer uma alternativa tucana, pois está engajada na construção de um projeto mais à direita - talvez Bolsonaro, talvez um outro candidato a la Trump.  
Temer deveria renunciar e Moro se afastar.
Não é necessário muito esforço de lógica para perceber o que a "Operação Mula", que envolve José Yunes, Eliseu Padilha e Michel Temer quer esconder. O PMDB tinha três chefes que recebiam e distribuíam propinas: Michel Temer, Eduardo Cunha e Eliseu Padilha. Não se tratava atos fortuitos, ocasionais, mas de operações sistemáticas de corrupção tramadas, inclusive, em palácios da República.
A continuidade de Temer na presidência da República foi, é e será uma afronta à dignidade nacional, à moralidade social, aos conceitos fundantes da Constituição Federal. Se ainda restam alguns resquícios de comunidade política nacional, Temer precisa se afastar ou ser afastado. Aqui cabe uma cobrança às sumidas oposições: sem o afastamento de Temer, o futuro da dignidade da política, da sua moralidade, da responsabilidade, estará comprometido por anos seguidos. Sem a saída de Temer a herança que ficará serão os escombros da democracia e a percepção de que golpes valem a pena.
O juiz Moro, por seu turno, não  tem mais condições morais de permanecer à frente da Lava Jato. Em recente palestra proferida nos Estados Unidos ele afirmou que não contribuiu para derrubar Dilma. Ele não só contribuiu de forma decisiva como, agora se sabe, agiu deliberadamente para proteger os mal-feitos de Temer ao cancelar perguntas dirigidas pela defesa de Cunha ao presidente-usurpador. Ao barrar as perguntas de Cunha, o juiz Moro cometeu duas ilegalidades: 1) barrou o direito de defesa, algo que não cabe a nenhum juiz praticar; 2) prevaricou, pois o certo era permitir que se pudesse conhecer aquilo que as perguntas pretendiam revelar.
Vejam-se apenas duas das perguntas barradas por Moro dirigidas a Temer: "Qual a relação de Vossa Excelência com o Sr. José Yunes?" e "O Sr. José Yunes recebeu alguma contribuição de campanha para alguma eleição de Vossa Excelência ou do PMDB?". Moro classificou como "chantagem" e "provocações" as perguntas da defesa de Cunha. Está claro que ele agiu para proteger Temer, protegendo um esquema criminoso.
A cada dia que passa, as provas deixam mais evidente que quem destruiu a Petrobras pela corrupção foi o PMDB. A destruiu para agora entregar os seus ativos ao capital estrangeiro. Este governo foi instituído para liquidar as empresas brasileiras a preço de banana, para entregar os direitos dos trabalhadores ao capitalismo de predação, para vender as aposentadorias de pobres idosos ao capital financeiro, para destruir a educação e a saúde públicas.
Agora a mídia e setores de direita querem vender a seguinte equação: a política vai mal, mas a economia vai bem, pois os indicadores estariam melhorando. Proclamar a queda da inflação e dos juros como grande feito desse governo significa vender fumaça, pois os dois indicadores são consequência do efeito inercial da recessão. Na verdade, a política está podre e a economia vai mal. Uma economia que tem mais de 12% de desempregados não pode estar bem. Uma economia que produz novos pobres todos os dias não pode estar bem. Uma economia que destrói o pouco de seguridade social do seu povo vai muito mal.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A Confraria de 1984

George Orwell, pseudônimo do britânico-indiano Eric Arthur Blair, abordou em várias de suas histórias o poder tal como ele conseguia vê-lo em sua época. Muitos dos escritos continuam atuais. Fazemos uma leitura e enxergarmos o Grande Irmão, um supra-poder que comanda o executivo, o legislativo e o judiciário, que dá prêmio a juízes, que convoca passeatas, que esconde grandes traficantes e criminaliza mendigos, que transforma cidadãos em bandidos e bandidos em santos, que domina, em resumo, todo o discurso no país, estando onipresente nas casas, clínicas, escritórios e fábricas. E a Confraria, uma humilde resistência que tenta se contrapor ao Grande Irmão, que é execrada pela mídia, pelo judiciário, pelos órgãos de repressão do Estado, pelo grande capital, vivendo escondida em ambientes virtuais, pelos becos escuros ou sob tortura nas celas úmidas das masmorras. A seguir, um pequeno trecho de 1984, uma das principais obras de Orwell.  

"A confraria não pode ser liquidada porque não é uma organização no sentido usual do termo. Nada além da ideia de que é indestrutível a mantém ativa. Vocês jamais contarão com nenhum outro alento além dessa ideia. Não experimentarão camaradagem nem encorajamento. Quando por fim forem apanhados, não receberão nenhuma ajuda. Nunca ajudamos nossos membros. No máximo, quando é absolutamente necessário que alguém seja silenciado, às vezes conseguimos introduzir às escondidas uma navalha na cela do prisioneiro. Trabalharão por algum tempo, serão presos, confessarão e depois morrerão. São esses os únicos resultados que haverão de testemunhar. Não há a menor possibilidade de que ocorram mudanças perceptíveis em nossa geração. Nós somos os mortos. Nossa única vida genuína repousa no futuro. Participaremos dela na condição de pó e fragmentos ósseos. Não há, porém, como saber quanto tempo decorrerá até o advento desse futuro. Talvez mil anos. No momento, nada é possível, exceto ampliar pouco a pouco a área de sanidade. Não temos como agir coletivamente. Só podemos disseminar nosso conhecimento de indivíduo a indivíduo, geração após geração. Com a Polícia das Ideias, não há outra saída."

domingo, 22 de janeiro de 2017

Segunda carta

Reproduzo outra carta de H.S.S.P. Voce cuja história apresentei em uma postagem antiga. A verdade é que através de uma longa pesquisa, e nos últimos anos com a ajuda da internet, descobri fatos novos que podem ser acrescentados àqueles anteriormente relatados. Trata-se, acredito com quase toda a certeza, de uma pessoa que é descendente - neto ou bisneto - de um antigo nobre português que veio com D. João VI quando esse fugia do exército de Napoleão. Claro, como muitos dos seus compatriotas, ganhou muito dinheiro com o suor dos escravos; as palavras do Pe. Antonio Vieira e suas críticas contumazes à escravidão não encontraram eco nos antepassados do nosso personagem. O nobre, participante de uma sociedade secreta, alguns dos seus membros se intitulando Sábios de Sião no dizer de um pesquisador conhecido, parece ter tido uma vida tranquila, herdando aos seus descendentes algumas obras de arte. O neto (ou bisneto, não é claro) casou-se com uma certa Maria Filomena e, após alguns anos de casamento, tudo leva a crer que teve que viajar. A carta reproduzida é datada de 31 de maio de 1914, escrita da cidade P. Infelizmente, a ausência de envelope impede de precisar o local exato de onde ela foi escrita.
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Querida Maria, o exílio é insuportável. Todos os dias penso em você e nas crianças. Leio o jornal pela manhã na ilusão de encontrar notícias da terra. Trabalho muito. Canso. Certas noites, mesmo cansado, não consigo dormir. Nas três últimas, tive três sonhos. Permita-me contá-los, pois como sabes, sempre me preocupam sonhos que, acredito, tenham alguma mensagem cifrada.

No primeiro, eu passeava por uma cidade. Havia uma praia e eu a olhava num momento em que era maré baixxa. O mar encontrava-se quase na linha do horizonte. Quando passava por uma viela no centro da cidade, eu ouvia o barulho de ondas como se de repente a maré tivesse subido, demasiadamente até, de modo que a água avançava cidade a dentro. Eu estava me dirigindo a uma casa, mas fugíamos para um lugar mais seguro: a casa para onde nos dirigíamos era inundada pelo mar.

Na segunda, encontrava-me numa casa perto da praia. Pela janela eu via algo assustador: uma onda lavava a calçada em frente à referida casa e subia a rua, que era um pouco inclinada em relação à praia. Enquanto esta onda subia e retornava ao mar, eu pegava os objetos mais importantes que podia na casa, os colocava num local mais alto e dizia às outras pessoas que lá se encontravam: vamos embora pois a próxima onda alagará tudo aqui. E a onda gigantesca que eu avistava parecia uma vaga quebrando violentamente nos rochedos da Bretanha, tal qual conhecidos me descreveram.

No terceiro sonho eu estava num local com muitas pessoas e resolvia caminhar um pouco com uma moça que talvez fosse minha amiga. Dávamos uns passos e ao longe víamos um bar com gente ocupando três mesas e mais algumas pessoas no balcão. A moça dizia-me: 'olha o professor H. bebendo no bar.' Eu olhava e não conseguia ver o tal professor; dizia à moça: 'estás enganada, o professor H. não se encontra no bar'. Ela insistia que sim. Eu apostava com ela que não e ia ao bar. Ao chegar, entretanto, não havia mais nenhuma pessoa e o bar encontrava-se na beira da praia. Eu caminhava em direção ao oceano na procura dos clientes do bar, pisando na areia molhada característica da maré baixa, até que chegava a um local onde havia três altos muros perpendiculares entre si. O que se encontrava atrás do muro era invisível aos olhos. Eu imaginava também que se caminhasse em direção ao canto formado por duas paredes, elas se afastariam concomitantemente e eu caminharia até encontrar os desaparecidos, numa outra terra, talvez.

Sonhos. Fatos muito pessoais. Desculpe-me. Hoje senti saudade do cheiro do mormaço da chuva molhando a areia quente. Uma fumaça quase onírica subindo da terra como se fosse uma legião de espíritos que subisse alegremente para a liberdade da atmosfera. Certas vezes vejo pesadas nuvens, baixas, aproximando-se de todas as direções e o repentino escurecimento do mundo me deixa surpreso e hipnotizado, de uma hipnose como se fosse uma peça em três atos: no primeiro, a aproximação; no segundo, o aumento contínuo do rumor da chuva e no último, a inelutável queda da água sobre a nossa cabeça.

Há poucos dias fiz um passeio a uma cidade relativamente distante. Quando passei de madrugada por cidadezinhas ao longo do caminho e vi as luzes acesas, sabendo que os seus moradores dormiam, senti uma estranha sensação de tranquilidade, uma sensação transmitida pelo conjunto das poucas luzes dos lampiões e do silêncio. As viagens noturnas, embora raras, são momentos de reflexão, como quando durante toda a noite as constelações, o escorpião ou o cruzeiro, acompanham o viajante e ele lembra que elas foram vistas pelos homens há três ou quatro mil anos atrás. Dá um certo conforto saber que ninguém está completamente perdido. Olhando para um lado e vendo o cruzeiro, pensa-se, "estamos andando em direção ao oeste", ou se ao contrário seja o escorpião, pensa-se, "agora para o norte".

Não tenho certeza, mas quando se trata de felicidade a vida é curtíssima, mas quando se trata de angústia, a vida é uma eternidade.

Despeço-me. Que o tempo nos seja breve.

O seu H.S.S.P. Voce.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Relato de um ano

"FHC, desde 1991, pelo menos, optou claramente por este projeto de modernização neoliberal e por um bloco de sustentação de centro-direita. Neste sentido, segundo nos relata a experiência, optou por uma estratégia sócio-econômica que tem gerado ou aprofundado os níveis preexistentes de desigualdade e exclusão social. E além disso, para culminar, também optou por levar à frente este projeto anti-social e quase sempre autoritário através de uma coalizão política que foi sempre autoritária e que já logrou forjar, antes e durante a era desenvolvimentista, esta nossa sociedade que ocupa hoje o penúltimo lugar mundial em termos de concentração de renda. Neste sentido é que se pode concluir, sem ofender a lógica, que FHC realmente aderiu a um projeto de aggiornamento do autoritarismo anti-social de nossas elites".
José Luís Fiori, in FSP, 03/07/1994; reproduzido em 'Os moedeiros falsos', Ed. Vozes (1997).



Em 2016 houve um golpe de estado no Brasil. O objetivo, como analisado por vários sociólogos e cientistas sociais, foi dar um freio nos avanços sociais, liberar a exploração do petróleo do pré-sal para as empresas estrangeiras, flexibilizar as leis trabalhistas ao extremo, criar leis para transferir dinheiro público para empresas privadas [a anti-privatização, como a transferência de quase R$ 100 bi às empresas telefônicas] e, ainda, como objetivo marginal, livrar diversos políticos das mãos da justiça. Numa visão mais ampla, podemos dizer que o golpe foi perpetrado pelos sabujos do sistema capitalista (meios de comunicação, federações de indústrias e bancos, Ordem dos Advogados do Brasil, legislativo federal, judiciário, etc.) no seu objetivo explícito desenfreado de obrigar os indivíduos a trabalharem mais e, ao mesmo tempo, diminuindo os postos de emprego. Talvez seja uma simplificação dizer que a elite e a classe média – com a destruição dos programas sociais implantados por Lula e Dilma e o aumento do desemprego – se aprazem ao verem novamente as ruas cheias de mendigos, pedintes e trabalhadores informais. De qualquer forma a miséria que retorna às ruas é reflexo da realidade de uma sociedade secularmente caracterizada pela exclusão. No futuro, certamente, os especialista terão oportunidade de discutir este golpe de estado sob a luz do capital, da mercadoria e de suas aventuras através de um complexo sistema de propina e corrupção envolvendo diversos setores da sociedade brasileira.

Para resumir os principais fatos relativos ao golpe de estado de 2016, não assumindo o discurso conveniente da classe dominante, segue um breve relato.

1. Divulgação do telefonema entre Sergio Machado e Romero Jucá dizendo que a única forma de estancar a sangria da operação ‘Lava Jato’ era destituir a Dilma, num grande acordo nacional, "com o Supremo, com tudo".

2. Em 23/03 o juiz da Lava Jato, Sergio Moro, decreta sigilo de listão da Odobrecht e em 18/04 a Câmara - repleta de denunciados - aceita o pedido de impedimento da Presidenta Dilma Roussef.

3. Juiz Moro divulga através da Globo, áudio entre Dilma e Lula, para insinuar que estavam cometendo crime. Na verdade, segundo muitos juristas, o juiz de primeira instância e a Globo é que cometeram crime contra a Segurança Nacional.

4. Juiz do STF Teori Zavascki procrastina por vários meses o julgamento do acusado pelo Ministério Público da Suiça, Eduardo Cunha, de ter várias contas naquele país. Por causa da morosidade do Teori...

5. Cunha coloca em votação na Câmara o pedido de impedimento da presidenta da República, o que ensejou a ocorrência de um dos espetáculos mais deprimentes daquela casa.

6. Após o Senado Federal aceitar o pedido de impedimento de Dilma, Temer assume temporariamente como presidente, com vários ministros com diversas acusações de corrupção pesando sobre eles. Ao longo dos meses muitos deles cairão.

7. Senado vota definitivamente pelo impedimento da Presidenta Dilma em virtude de "pedaladas fiscais", cujos técnicos da própria casa confirmaram que não se tratavam de crime de responsabilidade. No julgamento, Dilma respondeu por 14 horas os questionamentos de diversos senadores que mais tarde, seriam desmascarados como tnedo recebido propina da construtura Odebrecht.

8. Vários escândalos se sucedem no executivo encabeçado por Temer, como o uso por vários de seus ministros para tratar de assuntos particulares, dos aviões da FAB. Destaque para o ministro da Justiça Alexandre de Moraes.

9. Divulgação por parte do Ministro da Cultura, Calero, que o Ministro articulador político de Temer, Geddel Vieira Lima, o pressionou para liberar - através de intervenção do IPHAN, uma obra que estava embargada pelo órgão e que Geddel tinha interesse (na verdade, um apartamento num prédio a ser construído em área proibida). Posterior pressão de Temer sobre o Ministro da Cultura, que pediu exoneração.

10. Nesse meio termo, divulgação de várias delações envolvendo nomes de políticos do PSDB, embora a operação Lava Jato sempre tenha se fingido de cega, surda e muda (Alckmin, 2 mi; Serra, 23 mi, etc.).

11. Divulgação do projeto do executivo (PEC55) que congela investimentos federais em várias áreas, incluindo educação e saúde. E ao mesmo tempo nenhuma medida para diminuir o rentismo dos bancos e a sonegação bilionária de industriais, banqueiros, etc.

12. Divulgação de cópia de cheque de R$ 1 milhão para Michel Temer dado pela Odebrecht em 2014.

13. Divulgação de um projeto do executivo relacionado à reforma do Ensino Médio que, entre outros pontos polêmicos, acaba com as disciplinas de Sociologia e de Filosofia.

14. Divulgação de um projeto da Presidência que prevê idade mínima de 65 anos para aposentadoria e 49 anos de contribuição previdenciária.

15. Ministro do STF, Marco Aurelio Mello, em decisão liminar, afasta da presidência do Senado, Renan Calheiros. Este se recusa a receber a notificação e despreza a decisão. No dia seguinte, o pleno do STF, se desmoralizando de forma definitiva, vota pela permanência de Renan na presidência do Senado, mas o tirando da linha sucessória da presidência da República. Desta forma, o referido senador poderá colocar em votação a PEC55. Nunca o casuísmo havia alcançado tão altos vôos no STF.

16. Festa de entrega do título do Homem do Ano à Temer pela Revista IstoÉ. Nela, uma foto do juiz Moro aos risos com o megadelatado recebedor de propina, Aécio Neves, viraliza na internet. Numa palestra dias depois na Alemanha, Moro diz que a foto fora "infeliz".

17. Um dia após Moro se defender de que não havia nada contra Aécio, é divulgada lista de diretor da Odebrecht mostrando os nomes e codinomes de dezenas de políticos que receberam dinheiro da empreiteira. Todos os caciques do PMDB e do PSDB lá estão (incluindo Aécio). Detalhe: a delação foi um acordo com o MP suíço.

18. A PEC55, que congela os investimentos em Educação e em Saúde durante 20 anos, é aprovada no dia 13/12, exatamente 48 anos após ser promulgado o AI-5.

19. Em delação, Marcelo Odebrecht confirma denúncia de outros diretores da empresa, em particular que José Yunes, assessor especial de Temer na Presidência, foi o intermediário do recebimento de parte dos R$ 10 milhões dados pela companhia. Yunes entregou o cargo em 14/12.

20. O presidente usurpador resolve privatizar inversamente as empresas de telecomunicação, doando 100 bilhões de reais às mesmas. E coroando todo o retrocesso do ponto de vista da classe trabalho ocorreram a reforma do sistema previdenciário, com exigência de 49 anos de contribuição para aposentadoria integral; reforma trabalhista, com flexibilização extraordinária das leis trabalhistas; liberação da exploração do pré-sal para empresas estrangeiras e muitos outros mimos para o capital internacional.

21. No apagar das luzes dos trabalhos do Congresso Nacional, no dia 20 de dezembro, a Câmara aprova, em apenas um minuto, um crédito suplementar de R$ 130 bilhões para o governo federal, ou seja, o dobro de 'pedaladas' que fizeram com que essa mesma Câmara votasse o impedimento de uma presidenta eleita com mais de 54 milhões de votos. Nunca antes na história deste país a hipocrisia reinou de forma tão soberana.



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Meio milênio da fúria de Orlando

Em 2016 comemoramos os quinhentos anos da primeira edição de Orlando Furioso, poema épico de Ludovico Ariosto. Segundo o escritor Ítalo Calvino [1], "Orlando furioso é um poema que se recusa a começar e se recusa a acabar. Recusa-se a começar porque se apresenta como a continuação de um outro poema, Orlando innamorato, de Matteo Maria Boiardo, interrompido pela morte do autor. E se recusa a acabar porque Ariosto não para nunca de trabalhar dentro de nós. Após tê-lo publicado em sua primeira edição de 1516, em quarenta cantos, procura fazê-lo crescer, inicialmente tentando dar-lhe uma sequência, que foi truncada (os chamados Cinque canti, publicados postumamente), depois inserindo novos episódios nos cantos centrais, de modo que na terceira e definitiva edição, que é de 1532, os cantos passaram a ser 46. Nesse meio tempo, houve uma edição de 1521, que testemunha outro modo de não se considerar o poema definitivo, isto é, a limpeza, o ajuste da  língua e da versificação, que Ariosto continua a buscar. Por toda a vida, poderíamos dizer, pois para chegar à primeira edição de 1516, Ariosto havia trabalhado doze anos e outros dezesseis sofre para publicar a edição de 1532 e, no ano seguinte, morre."

No Brasil, uma bela e cuidadosa tradução foi realizada pelo Prof. Pedro Garcez Ghirardi, da Universidade de São Paulo. Para comemorar a efeméride, reproduzimos parte dos comentários do Prof. Ghirardi no qual ele discorre sobre alguns aspectos de sua transcriação [2]:

"Orlando Furioso opera a desconstrução (como hoje dizemos) de supostas 'racionalidades absolutas', a serviço de poderes também absolutos. Bem por isso o poeta começa pela autocrítica. Quem canta as aventuras de Orlando Furioso é alguém que desconfia de seu próprio juízo, que se confessa talvez tão perturbado quanto Orlando (cf. I,2; XXIV, 3). Daqui nasce o socrático sorriso com que o poeta desmascara um establishment que condena as dissidências ao 'politicamente correto' do tempo (dissidências rotuladas de 'traições', 'crimes de lesa-majestade', 'heresias' – enfim, 'loucuras'). O espaço dado pelo poema ao discurso marginal pode notar-se já nas figuras centrais, que não vêm do mundo clássico, predominante na cultura renascentista, mas sim do mundo fantástico medieval, que resistia nas narrativas populares. Este, aliás, foi um dos sinais da 'loucura' do poema, segundo retóricos aristotélicos da época. Foi também um dos segredos de sua imediata popularidade. Outro segredo terá sido a abertura à visão alternativa, 'feminina'. Desde cedo inúmeras leitoras se reconheceram nas mulheres do Orlando Furioso.

O que se acaba de dizer pode talvez sintetizar-se em uma das páginas mais famosas do poema, a viagem à lua. O episódio mostra-nos no relevo lunar montanhas feitas das coisas que perdemos cá na terra. Tudo lá se encontra, menos o que entre nós nunca se extravia. Vale ao menos ler uma das estrofes (XXXIV, 18):

Lungo sarà, se tutte in verso ordisco 
le cose che gli fur quivi dimostre; 
che dopo mille e mille io non finisco, 
e vi son tutte le occurrenze nostre; 
sol la pacía non v`è poca né assai; 
che sta qua giú, né se ne parte mai.

Ou, em tradução: 

Outras coisas que viu, mui numerosas, 
Pedem tempo que o verso meu não dura, 
Pois lá encontrou, guardadas e copiosas, 
Mil coisas de que andamos à procura. 
Só de loucura não viu muito ou pouco, 
Que ela não sai de nosso mundo louco.

(...)

Das inúmeras surpresas que se oferecem na organização das rimas do Orlando Furioso, lembremos ainda a que se encontra no canto seguinte (X, 76). Prepara-se a revista das forças inglesas e escocesas prontas a socorrer o exército de Carlos Magno. Cria-se na descrição uma teia de variações sonoras. Temos, aparentemente, uma estrofe de rimas construídas com palavras de terminação semelhante. Qualquer afinidade, porém, se desfaz, pela diferente organização das rimas. Nos três primeiros versos pares, essas se dão entre paroxítonas com acento em vogal seguida de consoantes dobradas (ann); nos três primeiros versos ímpares a vogal é seguida de consoante simples (an), mas a rima é dominada por vogal diferente (e), na qual recai o acento da proparoxítona. Vejamos como se organiza a estrofe original:

E finita la mostra che faceano, 
alla marina si distenderanno, 
dove aspettati per solcar l´Oceano 
son dai navili che nel porto stanno. 
I Franceschi assediati si ricreano, 
sperando in questi che salvar li vanno. 
– Ma acciò tu te n´informi pienamente, 
io ti distinguerò tutta la gente.

Talvez caiba lembrar, a esta altura, o que quase todos bem sabem: em italiano as consoantes dobradas não são mera reminiscência etimológica, mas soam com nitidez na pronúncia e conservam plena relevância semântica (por exemplo, “fato”, que corresponde a “fado” ou “destino”, não se confunde com “fatto”, “feito”). Estamos, portanto, diante de uma estrofe que imporá ao tradutor, qualquer que seja seu idioma, dificuldades graves de equivalência sonora; em algumas línguas, que não contam com proparoxítonas (como o francês) a perda possivelmente será total; em outras, como a nossa, a perda será menor, mas não foi possível reproduzir na tradução o jogo entre sonoridades consonantais simples e dobradas. Já têm dito os estudiosos que qualquer tradução implica perdas e ganhos. Diante disso, resta procurar reduzir as perdas, preservando o tecido de alternâncias de sons próximos, com diferença de tonicidades. Foi o que assim se procurou fazer:

Depois de terem desfilado, impávidos, 
À praia irão e às naves, precavidos. 
Os lenhos sulcarão as águas, grávidos 
Destes que por exímios são havidos. 
Folgam os assediados francos, ávidos 
De verem seus domínios reavidos. 
– Mas por que disto saibas plenamente 
nomearei, uma a uma, cada gente."

Para completar esta pequena comemoração do aniversário da obra máxima de Ariosto, homenageando os esmagados nas filas e nos ônibus - chamuscados pela solidão, pelo desamparo e pela indiferença - e aqui sobra espaço astronômico para lembrar de Sá-Carneiro, Nerval, Rimbaud, Alcides Pinto, Torquato Neto, Seixas, Zé Limeira e a multidão desarrumada, descabelada e esfarrapada que desafia o coro dos contentes, homenageando ainda todos os loucos presentes na Terra, na Lua e em outras orbes siderais, reproduzimos abaixo 24 versos do canto I de Orlando Furioso, na tradução do Prof. Pedro Ghirardi.

"          32. 
Bem  pouco anda Rinaldo, e já depara
Com seu corcel, e o vê escapar veloz.
- Oh, pára, meu Baiardo! Ouve-me, pára.
Que tua ausência é para mim atroz.
Mais ligeiro o animal porém dispara,
Do seu senhor sem atender a voz.
Em Rinaldo é razão que a ira se aloje;
Mas sigamos Angélica que foge.

           33. 
Foge por selvas lúgubres, escuras,
Por entre ermos inóspitos, selvagens,
À sua passagem movem-se, inseguras,
De Olmos, faias e azinhas as ramagens.
Repentino temor em tais agruras
A faz correr sem rumo essas paragens.
Receia, vendo sombra em vale ou monte,
Que Rinaldo a segui-la já desponte.

           34. 
Qual tímida gazela ou cabritinha
No bosque onde nasceu posta em recreio,
Ao ver que o leopardo se engalfinha
A sua mãe e lhe estraçalha o seio,
De selva em selva esconde-se, sozinha,
Trêmula de incerteza e de receio,
E a todo o abrolho passando toca,
Da cruel fera já se crê na boca."

Referências:

[1] Ítalo Calvino, Por que ler os clássicos. Companhia das Letras, 1995.
[2] P.G. Ghirardi, Traduzir Ariosto: um depoimento. Estudos Avançados 26 (76) 2012, 109-120.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O acadêmico orgulhoso

Há pouco mais de uma semana um docente aposentado de uma universidade paulista fez um comentário numa rede social que produziu certa polêmica. O professor expressou a sua satisfação pelo fato de uma estudante na cidade de São Paulo ter ficado parcialmente cega em virtude de estilhaços de uma bomba arremessada pela polícia durante uma manifestação. Acredito que devem existir dezenas de razões para um professor emitir publicamente uma tal opinião. Mas... 

Chocado com a declaração, deparei-me novamente com uma passagem de Sodoma e Gomorra, a quarta parte do romance "Em busca do tempo perdido" de Marcel Proust. Nesse pequeno trecho, o narrador faz um comentário sobre um acadêmico que não cabia em si de orgulho por fazer parte de um salão que ele julgava o de mais alto padrão entre os ambientes burgueses apenas por eventualmente receber um aristocrata, mas que na verdade não passava de um local inexpressivo, composto por um pequeno grupo de pessoas medíocres que se sentiam gigantes ao bajular ricos burgueses e aristocratas decadentes. Outro incrível instantâneo da realidade na tradução de Mário Quintana:

"Mas Brichot tirava de sua intimidade com os Verdurin um brilho que o distinguia entre todos os seus colegas da Sorbonne. Ficavam eles deslumbrados com a narrativa que ele lhes fazia de jantares a que jamais seriam convidados, com a menção nas revistas ou o retrato exposto no salão, que dele tinham feito este escritor ou aquele pintor famosos, cujo talento prezavam mas de quem não tinham a mínima possibilidade de chamar a atenção, e enfim, com a própria elegância indumentária do filósofo mundano, elegância que haviam tomado a princípio por displicência, até que seu colega benevolamente lhes explicasse que fica bem pousar a cartola no chão durante uma visita e não é própria para os jantares no campo, por mais elegantes que sejam, em que deve ser substituída pelo chapéu mole, que assenta muito bem com o smoking".