O país há um certo tempo vive um caos institucional. Um juiz de primeira
instância que divulga áudio da presidenta da República e em vez de ser preso é
alçado à condição de herói; um estrangeiro que assume a presidência da Câmara
dos Deputados; um golpe parlamentar autorizado pelo Supremo Tribunal; um
senador que não aceita convocação da justiça; um juiz do Supremo Tribunal que
se confraterniza com réus; pessoas presas preventivamente por mais de dois
anos; sonegação legalizada de bancos e grandes empresas; programas sociais
destruídos e o aumento avassalador da miséria... São várias facetas de uma
mesma realidade triste, criada à força por uma elite corrupta e egoísta. Como
se chegou a esse ponto? No futuro talvez seja até fácil se compreender. Mas
enquanto não se chega lá, a leitura de alguns textos poderá lançar luz no
problema. Antes de conseguirmos fazer uma descrição precisa do todo, a luz vai
nos permitindo enxergar detalhes assustadores do monstro que foi criado. E Luis Nassif foi bastante feliz no seu texto 'Xadrez da subversão do Supremo Tribunal Federal', escrito no seu sítio GGN em 04/05/2017. Uma leitura fundamental.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
terça-feira, 2 de maio de 2017
O passado nunca mais
"E isso é passado. Quando o sol se põe à tarde, quem poderá chamá-lo de volta para viver o mesmo dia novamente? Não existe retorno; nenhum momento pode ser recuperado. Afaste seu coração para longe do que se foi." Mahabharata
Referência:
Caminhando por uma pequena vereda fria com o vento da montanha soprando em latitude temperada. Solitário, pensativo, recordando das falas dos boçais que preparam armadilhas sucessivas para o povo que procura no máximo um emprego miserável, semiescravidão com as reformas das leis trabalhistas que deixarão o miserável mais vulnerável e o capitalista com mais mecanismos para acumução. Caminhando com o pensamento em América Latina, unidade latinoamericana, alucinações, angústias e um sol tropical. Caminhando por uma vereda trilhada por Belchior, cujos passos ficaram no passado.
Viva Belchior! Belchior, que não se adaptou à engrenagem da grande mídia - representada por grandes empresas cujo objetivo principal é a exacerbação dos processos de acumulação do capital e que trava uma guerra contra a democracia, atacando o direito da maioria da população, apoiando a desnacionalização da economia e a transferência da riqueza do país para os capitalistas internacionais através de corruptos contumazes - deu uma lição de vida com o seu silêncio dos últimos anos. Como homenagem a este grande poeta, que não se deixou seduzir pela facilidade da adaptação ao sistema, deixamos a sua reflexão sobre os 500 anos da chegada dos europeus ao continente americano. Uma questão de injustiça que quando pensamos que está sendo solucionada, vem a covardia e a traição para regredirmos décadas de humildes avanços. Então: Quinhentos anos de que?
"Eram três as caravelas que chegaram d`alem mar. e a terra chamou-se América por ventura? por azar?
Viva Belchior! Belchior, que não se adaptou à engrenagem da grande mídia - representada por grandes empresas cujo objetivo principal é a exacerbação dos processos de acumulação do capital e que trava uma guerra contra a democracia, atacando o direito da maioria da população, apoiando a desnacionalização da economia e a transferência da riqueza do país para os capitalistas internacionais através de corruptos contumazes - deu uma lição de vida com o seu silêncio dos últimos anos. Como homenagem a este grande poeta, que não se deixou seduzir pela facilidade da adaptação ao sistema, deixamos a sua reflexão sobre os 500 anos da chegada dos europeus ao continente americano. Uma questão de injustiça que quando pensamos que está sendo solucionada, vem a covardia e a traição para regredirmos décadas de humildes avanços. Então: Quinhentos anos de que?
"Eram três as caravelas que chegaram d`alem mar. e a terra chamou-se América por ventura? por azar?
Não sabia o
que fazia, não, D. Cristóvão, capitão. Trazia, em vão, Cristo em seu nome e, em
nome d`Ele, o canhão.
Pois vindo
a mando do Senhor e de outros reis que, juntos, reinam mais... bombas, velas
não são asas brancas da pomba da paz.
Eram só
três caravelas... e valeram mais que um mar. Quanto aos índios que mataram...
ah! ninguém pôde contar.
Quando
esses homem fizeram o mundo novo e bem maior por onde andavam nossos deuses com
seus Andes, seu condor ?
Que tal a
civilização cristã e ocidental... Deploro essa herança na língua que me deram
eles, afinal.
Diz,
América que és nossa só porque hoje assim se crê. Há motivos para festa? Quinhentos
anos de que?"
Referência:
[1] A citação inicial é da obra Mahabharata, na versão de Ramesh Menon. Nela, a deusa Ganga fala para o príncipe Shantanu: "And that is past. When the sun sets on one day, who can call him back so you can live the same day again? There is no returning; not a moment may we retrieve. Turn your heart away from what is over".
quinta-feira, 20 de abril de 2017
O Prof. Josué e as seis propostas
Faleceu no último dia 11/04 o Prof. Josué Mendes Filho, Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará. Ele fez a Graduação em Física nessa universidade, o Mestrado na Universidade de Brasília e o Doutorado na Universidade Estadual de Campinas. Como foi um colega e amigo, vou usar um pequeno espaço para pontuar alguns aspectos da personalidade do Prof. Josué, para que fiquem como lembrança.
Em primeiro lugar há que se destacarem os aspectos relacionados ao docente e ao pesquisador, que nele caminhavam juntos. O Prof. Josué ministrou diversas disciplinas do curso de Física. Particularmente, fui seu aluno no curso de Mecânica Teórica I e acredito que tenha me divertido muito com as equações diferenciais do Symon. No que diz respeito às teorias físicas, acho que o Prof. Josué era um Newtoniano inveterado. Ele acreditava demasiadamente na realidade das "forças". Os modelos que ele criava para interpretar os resultados obtidos no laboratório mostravam isso. Eles eram cheios de "ganchos" - representados pelos dedos e as mãos em movimento - que mantinham os átomos e moléculas conectados por forças poderosas, ou então, quando era possível, o mundo se enchia de osciladores harmônicos simples, no máximo, com acoplamento entre eles. Com isso não quero dizer que o nosso mestre tivesse uma visão simplória do mundo físico. Pelo contrário, com modelos simples ele conseguia modelar diversos fatos experimentais. Um belo exemplo do uso destes modelos foi aquele desenvolvido em sua tese de Professor Titular, onde conseguiu explicar as várias transições de fase do sulfato de lítio e potássio através de triângulos com diversas orientações (representando íons sulfetos), que se encaixavam em losangos maiores, que representavam a célula unitária do cristal.
Para manter um bom clima de trabalho no Departamento de Física, o Prof. Josué ajudou vários estudantes e professores ao longo dos anos de variadas formas. E também se esforçou para ajudar a criar boas condições de pesquisa. No que diz respeito ao Laboratório de Espalhamento de Luz, hoje ele pode ser considerado um dos mais importantes do país na sua área de atuação, contando com oito pesquisadores que desenvolvem pesquisas em diversos tipos de materiais. Tal laboratório foi erguido com muito esforço pelo Prof. Josué, em parceria com o Prof. Erivan Melo, que herdaram bastante conhecimento e habilidades diversas do velho Prof. Sergio Porto. Lembro-me que inicialmente, lá pela década de 80, o laboratório ficava localizado numa sala no piso superior do bloco 929, onde era necessária, periodicamente, a subida de alguém com uma barra de gelo até a caixa d'água para se conseguir refrigerar o tubo do laser de argônio. Está também na lembrança a mudança do laboratório para o andar térreo, no qual foi utilizada a força de aproximadamente uns 16 homens para descer a pedra de mármore que servia de base para o espectrômetro. Esses aspectos de força bruta - ilustrando que muito suor foi derramado literalmente - obviamente caminhavam com a sagacidade e a competência para se conseguir recursos em uma época em que o financiamento para a ciência era bem menor do que é (foi) nos últimos anos.
Às vezes, o Prof. Josué exagerava um pouco no relato dos seus feitos e, para alguns, parecia ser um defeito. Exagerado ou não, tinha a qualidade de falar o que o desgostava diretamente na frente da outra pessoa, o que de certa forma o fazia parecer, às vezes, rude. O importante é que as suas ações eram claras, mesmo no delicado palco do jogo político que se joga normalmente dentro de uma universidade.
O Prof. Josué se orgulhava de sua memória. Certa vez, quando saíamos do laboratório, lá pelas sete horas da noite (o ano era 1999 ou 2000), conversei com ele sobre o livro do Ítalo Calvino "Seis propostas para o próximo milênio", que eu acabara de ler. Falei-lhe do que Calvino considerava serem os valores que o século XX deixaria de legado para o século XXI: a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade, a multiplicidade e a consistência. Em cada ponto do legado sugerido pelo escritor italiano, o Prof. Josué tinha uma observação interessante a fazer e o papo, no estacionamento do bloco 928, se estendeu por mais de uma hora. Terminamos a conversa e cada um foi para o seu destino; a discussão, aparentemente, ficara no passado. Umas duas ou três semanas depois ocorreu uma cerimônia no Departamento de Física e, para minha surpresa, o Prof. Josué fez um belo discurso no qual a linha mestra da fala eram exatamente os seis pontos sugeridos por Ítalo Calvino, que ele lembrava com grandes detalhes.
Vou encerrar por aqui porque a ideia era apenas deixar uns "flashes" de lembranças. Aliás, vou deixar o próprio Calvino encerrar; esperando que sirva de homenagem ao professor: "quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis".
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Comitê de negócios
Mais de um século depois, Marx
continua ajudando a interpretar os fatos históricos. Após um golpe de estado, a
destruição dos direitos sociais e trabalhistas, o perdão das dívidas de grandes
empresas e de grandes bancos e o estranho comportamento dos poderes da República
mostram que o capital – que se beneficia da mais valia, da sonegação, da
ciranda financeira e da corrupção – consegue penetrar todas as cidadelas,
inclusive aquelas aparentemente intransponíveis. Abaixo reproduzimos um
interessante texto de Márcio Sotelo Felipe, que joga um pouco de luz sobre a
situação política e econômica do país há exatamente um ano em que a Câmara dos
Deputados no Congresso Nacional realizou a mais patética sessão de sua história.
ODEBRECHT, O COMITÊ PARA GERIR OS NEGÓCIOS DA
BURGUESIA.
Márcio Sotelo Felipe
“Um
comitê para gerir os negócios da burguesia”. É assim que Marx, no Manifesto
Comunista, se refere ao Estado. A frase de Marx, um tanto quanto retórica,
expressa uma condição estrutural sempre oculta pela ideologia que faz ver a
aparência como essência.
A lista Fachin é um raro momento
em que as sombras se dissolvem. Um raro momento em que se vê as entranhas do
capitalismo. Raro demais para ser desperdiçado em análises que se esgotem na
moralidade dos indivíduos ou em críticas ao sistema eleitoral e reivindicações
por sua reforma, ainda que isto tudo seja pertinente.
A Odebrecht conseguiu livrar-se
de 8 bilhões de impostos graças a algumas encomendas de Medidas Provisórias. Em
meio a denúncias que atingem todo o sistema político, o detalhe escabroso é
pinçado em sua crueza para chocar e atingir o partido que a mídia adora odiar.
Mas nisto onde termina o
“Departamento de Operações Estruturadas” da Odebrecht (e outros departamentos
congêneres das grandes empresas) e onde começa o Estado?
Desde 1995, governo Fernando
Henrique, dividendos de empresas estão isentos de Imposto de Renda. No entanto,
o trabalhador às voltas neste momento com a sua declaração está pagando uma
alíquota de 27,5% caso ganhe por mês a fabulosa quantia de 4.660 reais.
E ganhando essa fantástica
quantia dependerá mais e mais de serviços públicos vitais – saúde e educação –
que serão catastróficos daqui a pouco tempo porque os gastos públicos estão
congelados por 20 anos; mas não para pagar os rentistas parasitários que
abocanham 40% do orçamento da União.
Fundos privados de previdência
esfregam as mãos na iminência de abocanhar uma parte de salários de 4.660 reais
graças à destruição do sistema de previdência pública. O “déficit” da
Previdência é um caso de pós-verdade. A seguridade social, que inclui a
previdência, tem, por força da Constituição, receitas que não entram no cálculo
do governo.
Há uma crise fiscal, mas
desonerações, sonegação e juros nominais da dívida pública tomaram 8% do PIB em
2015. Os jornais desta semana noticiam que o CARF (Conselho Administrativo
de Recursos Fiscais) isentou o Itaú do pagamento de 25 bilhões de Imposto de
Renda e Contribuição Social sobre Lucro Líquido devidos por ganho de capital no
processo de fusão com o Unibanco.
O que é isto tudo se não um
comitê para gerir os negócios da burguesia? O Estado do bem-estar social que
parecia desfigurar ou atenuar o conceito de Marx desaparece. Construído em
grande parte como resposta às lutas sociais, vai sendo aniquilado sob o influxo
de uma tremenda ofensiva de um projeto e de uma visão ideológica a que se deu o
nome de neoliberalismo.
Essa visão ideológica inclui
meritocracia, individualismo, egoísmo social e a crença no mercado como um fato
da ordem natural das coisas, conceitos que, narcotizando as massas, responde
pelo refluxo das lutas populares. No capitalismo do século XIX crianças de 8
anos faziam jornadas de 14 horas. No do século XXI idosos terão sua força de
trabalho exaurida até a morte porque não poderão pagar previdência privada e
não haverá uma pública.
Há um terremoto político quando
se descobre que o comitê dos negócios da burguesia está funcionando sob
propina. Mas não é a propina que explica a operação desse comitê. Ele funciona
sempre, estruturalmente, no capitalismo, mesmo que políticos nunca ponham no
bolso nada a não ser o próprio soldo.
A lista que abala o país não é,
pois, uma questão que deva ser tratada no plano restrito da moralidade das
pessoas ou de uma reforma política que resolva nossos problemas. A lista é a
ponta do iceberg de algo que é estrutural. Agora estamos vendo a promiscuidade
entre sistema político e as classes dominantes e aquele a serviço destas; o
Estado como instrumento de acumulação do capital e de expropriação da riqueza
produzida pelos trabalhadores.
Hoje, findo o ciclo da
social-democracia, já não temos o direito de duvidar da natureza do escorpião
ou de suspeitar da retórica de Marx. Não se transforma a sociedade no interior
de um aparelho – a política institucional – cuja natureza é exatamente impedir
a transformação da sociedade. Isto retoma uma antiga questão da esquerda: o que
estamos fazendo quando estamos no aparelho do Estado?
A experiência do PT termina com
a tragédia pessoal de seus quadros. Preferiu o governo em vez do poder.
Renunciou definitivamente, ao contrário do que nos permitia supor o discurso de
seus primórdios, à organização das massas, à conquista do poder político de
baixo para cima, nas ruas, nos sindicatos, nas organizações de base.
Governou com políticas de
compromisso com as classes dominantes e sequer formulou – porque precisava ser
confiável nessa política de compromisso e conciliação – o que a
social-democracia europeia conseguiu no pós-guerra: bens sociais, saúde,
educação, habitação, etc. Em um cenário econômico internacional favorável,
limitou-se a aumentar o poder de consumo dos miseráveis, capital político que
se esgotou rapidamente. E os trabalhadores não foram ao enterro de sua última
quimera. Ah, a “ingratidão”, essa pantera… enquanto isso a classe média zumbi
tomou as ruas.
A esquerda que supõe possa haver
uma luz no fim do túnel apenas apostando nas eleições de 2018 persiste no erro
de ignorar a natureza do escorpião. Pode-se imaginar que o candidato mais à
esquerda, se ganhar, reverterá sem mais a barbárie social do capitalismo
brasileiro hoje? Irá com canetadas, projetos de leis ou emendas à Constituição
restaurar a CLT, construir uma previdência social digna, investir em saúde,
educação, recuperar o pré-sal para o patrimônio nacional? Com que força
política?
Ao entregar-se de corpo inteiro
à política institucional, renunciando ao poder que pode ser construído nas ruas
e nas organizações populares, nada mais faz do que compor a engrenagem do
sistema, mantê-la e reproduzi-la porque o poder não comporta vácuo. Ou é o
deles ou é o nosso. Se não disputamos, é somente o deles.
E não o disputamos elegendo a
política institucional como o único instrumento de ação política. Nela, só há
lugar hoje para o poder da elite predadora que não vê limites em sua sanha de
acumulação e promove sem qualquer pudor a barbárie social.
Temos uma greve geral pela
frente. Ou construímos um poder alternativo com a força social dos excluídos ou
afundaremos cada vez mais no lodo da política institucional. Apostar apenas em
eleições é jogar água no moinho da barbárie social que está, quase que
literalmente, reduzindo a pó a existência dos brasileiros.
sábado, 4 de março de 2017
As esfirras podres do Habib's
O nome da criança era João Victor Souza de Carvalho, 13 anos. Uma criança raquítica e subnutrida cujo nome, quase certamente, será esquecido antes de entrar o próximo mês. Na filmagem de uma câmera de segurança, dois funcionários da rede de lanches Habib's aparecem arrastando o garoto desmaiado pelos braços como se tratasse de um animal qualquer que acabara de ser atropelado e tivesse que ser retirado para não atrapalhar o movimento dos carros. Ele apresenta a calça arreada, os sapatos e sua dignidade vão ficando ao longo do asfalto, e depois é largando quase sem vida na calçada molhada. Alguns minutos após essa cena, João Victor morrerá. Em nota, a rede afirmou que o garoto estava ameaçando o patrimônio dos clientes e da loja, como se isso fosse uma justificativa ou diminuísse um pouco a monstruosidade do crime.
O resultado final da investigação poderá ser qualquer um: o garoto correu, escorregou e bateu a cabeça no chão; a criança teve um mal súbito; ou tinha uma doença congênita. Talvez, no máximo, os dois brutamontes que espancaram e arrastaram o João Victor sejam acusados de homicídio culposo. Já sobre o Habib's não recairá nenhuma culpa. A rede é tão inocente quanto um senador que descobriram possuir milhões numa conta na Suíça, ou que foi delatado diversas vezes por receber propina de empreiteiras, ou ter tido o seu helicóptero preso com centenas de quilos de pasta base de cocaína, ou ter uma fortuna que gosta de fazer viagens às Ilhas Virgens Britânicas... Num país desigual como o Brasil, a justiça e a mídia estão invariavelmente ao lado de banqueiros, latifundiários, empresários. O crime - roubo, sonegação, tráfico de drogas, contrabando, espancamento, assassinato - é sempre relativizado e a sua barbaridade dependerá de quem o cometeu.
No século XIX, um negro que fugia para tentar uma vida melhor longe da fazenda onde vivia como escravo era caçado como uma fera até ser trazido de volta, vivo ou morto, para deleite do senhor de engenho. Quando os dois funcionários da rede de sanduíches saíram à caça do pequeno João Victor eles estavam reproduzindo a cena dos capitães do mato do Brasil Império. O Zumbi Preto Pio de hoje tentava fugir da escravidão imposta pela fome. Ao trazerem a criança indolente semimorta que pedia esmola, arrastada como um escravo irascível, os dois covardes estavam mostrando serviço aos novos ricos da velha sociedade escravocrata dos tempos modernos. A única diferença entre os dois séculos é que agora, em vez de iguarias nas baixelas, os senhores e capatazes se contentam em se empanturrar com coxinhas e esfirras podres contaminadas com ódio e indiferença.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
No país do carnaval
O Brasil é um país que parece que avança para o
passado. Em 16/03/16 a presidenta Dilma Rousseff nomeou Lula da Silva como ministro-chefe da Casa
Civil e um dia depois o juiz Sergio Moro, que comanda o julgamento da operação
Lava-Jato, vazou áudios sobre a nomeação ao telejornal da Rede Globo,
acusando-a de querer obstruir a operação. No outro dia o STF – através de
Gilmar Mendes – decidiu pelo impedimento de posse de Lula. Menos de um ano depois, Temer nomeia Moreira
Franco ministro, apesar de ter sido delatado pela Odebrecht como recebedor de
propinas nas concessões de aeroportos e também em fraudes na CEF. Sob
circunstâncias semelhantes ao caso de Lula, na verdade mais grave pois era
claramente para blindar Franco com foro privilegiado, o STF através de Celso de
Mello o mantém ministro e, obviamente, com foro privilegiado.
E, então, entra em cena o ministro Eliseu
Padilha que diz que o Ministro da Saúde – que comprou terreno no valor de 28
milhões de reais em transação suspeitíssima – foi escolhido em troca de votos
no Congresso Nacional.
Pouco antes do carnaval, o empresário José
Yunes afirma a um jornalista que à pedido de Eliseu Padilha, Lucio Funaro
financiara 140 deputados para garantir a eleição de Eduardo Cunha à presidência
da Câmara dos Deputados. Além disso, Yunes afirmou que Michel Temer e Marcelo
Odebrecht se reuniram em 2014 para acertarem uma propina de 11 milhões de
reais.
Esses fatos estão em evidência agora, durante o
carnaval de 2017. Muitas informações estão aparecendo, procurando dar sentido a
várias informações (que estão sendo divulgadas por Anonymus) como o “Tabapuã
Papers é subura com Temer e Globo” de Eduardo Guimarães no Blog da Cidadania,
publicado em 26/02/2017 e “Xadrez do elo desconhecido entre Temer e Yunes” de
Luis Nassif no Blog GGN, publicado em 27/02/2017. A seguir, reproduzo um texto
do Professor Aldo Fornazieri publicado hoje, também no sítio GGN.
A Lava Jato e
seus inimigos íntimos
Aldo Fornazieri
A grande frente que se formou para perpetrar o
golpe do impeachment está se desfazendo aos poucos. O ponto de convergência
desta frente foi a Operação Lava Jato. Ela era o estandarte, a bandeira
tremulante, na qual estava estampada a cruz para liderar o expurgo dos
corruptos que haviam se apossado do país. Sérgio Moro parecia ser uma espécie
de São Bernardo de Clairvaux, cujos pareceres nos processos e nos mandatos eram
verdadeiras chamadas à mobilização de cruzados. Ou, quem sabe, era o bispo Fulk
um dos chefes da Cruzada Cátara para combater com violência os hereges porque,
entre outras coisas, estes queriam uma maior igualdade.
Nas cruzadas do impeachment todos eram santos: os
que foram às ruas, os integrantes do judiciário, os porta-vozes da grande
mídia, os políticos contrários ao governo Dilma, os deputados do indescritível
espetáculo do 17 de abril, os grupos que pregavam a volta dos militares etc.
São Michel, com seu cortejo de anjos e arcanjos, haveria de purificar o Brasil
com seu jeitinho manso, com sua habilidade de conversar, com sua capacidade de
construir consensos. O Brasil, livre dos demônios vermelhos, seria unificado,
num estalar de dedos a economia voltaria a crescer e o manto verde e amarelo da
ordem e do progresso haveria de produzir paz, contentamento, empregos e
opulência.
Esta grande mentira, que embebedou boa parte da
sociedade, hoje não passa de um espelho estilhaçado em mil pedaços, todos eles
refletindo a face da maior quadrilha de corruptos que se apossou do poder.
Todos eles refletindo as faces de um grupo indigesto de políticos que se
acotovelam para participar da suruba do Foro Privilegiado. Todos eles
refletindo as faces de antigos comparsas que agora querem queimar o sagrado
estandarte no fogo cruzado que objetiva bloquear a marcha da libertação da
terra santa. Até os santos, os chefes dos cavaleiros templários, o São
Bernardo, são diariamente chamuscados pelas chamas que vêm das barricadas que tentam
bloquear a justiça purificadora.
O PMDB, principal beneficiário, se tornou
também o principal inimigo da Lava Jato. Já tentou várias manobras no Congresso
para detê-la. Agora vêm os ataques públicos. Junto com alguns colunistas e
blogueiros de direita, que se valeram de todas as ilegalidades da Lava Jato e
do juiz Moro para derrubar o governo Dilma, desferem petardos contra os
vazamentos seletivos, contra a criminalização da política, contra as conduções
coercitivas, contra a manutenção de acusados na cadeia para que eles façam
delações premiadas, contra o "lado obscuro" da operação e assim por
diante. Investigar corruptos do PMDB e do PSDB virou sinônimo de
"criminalização da política". Contra o PT se tratava de "limpeza
moral". Mas a partir do governo Temer, a fetidez do ar bloqueou até mesmo
a chuva nos céus de Brasília.
O PMDB está na linha de frente no combate à
Lava Jato. Age como se fosse uma infantaria, uma espécie de bucha de canhão.
Já, o PSDB, age como se fosse um grupo de comando de forças especiais. Usa a
inteligência, tem infiltrados poderosos nas trincheiras "inimigas"
como Rodrigo Janot, o próprio Moro, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e o ministro
plagiador. Entre os infiltrados, nem todos são amigos entre si. O único ponto
de convergência consiste em proteger os caciques do tucanato.Uns torpedeiam a
Lava Jato, citando, inclusive, ilegalidades contra petistas; outros,querem
preservá-la no que lhes interessa.
As direitas que patrocinaram as mobilizações de
rua agora estão divididas. De um lado estão aqueles que querem salvar Temer
para salvar o PSDB em 2018. Além de atacarem a Lava Jato, acusam seus
ex-colegas classificando-os de "direita xucra", de fazer o jogo da
esquerda por querem continuar mobilizando contra a corrupção. Ocorre que as
perspectivas de 2018 colocam as direitas em uma encruzilhada, em marchas para
caminhos distintos. A "direita xucra" quer a continuidade das
mobilizações por duas razões: 1) ficar com Temer poderá significar um
naufrágio; 2) não quer uma alternativa tucana, pois está engajada na construção
de um projeto mais à direita - talvez Bolsonaro, talvez um outro candidato a la
Trump.
Temer deveria renunciar e Moro se afastar.
Não é necessário muito esforço de lógica para
perceber o que a "Operação Mula", que envolve José Yunes, Eliseu
Padilha e Michel Temer quer esconder. O PMDB tinha três chefes que recebiam e
distribuíam propinas: Michel Temer, Eduardo Cunha e Eliseu Padilha. Não se
tratava atos fortuitos, ocasionais, mas de operações sistemáticas de corrupção
tramadas, inclusive, em palácios da República.
A continuidade de Temer na presidência da
República foi, é e será uma afronta à dignidade nacional, à moralidade social,
aos conceitos fundantes da Constituição Federal. Se ainda restam alguns
resquícios de comunidade política nacional, Temer precisa se afastar ou ser
afastado. Aqui cabe uma cobrança às sumidas oposições: sem o afastamento de
Temer, o futuro da dignidade da política, da sua moralidade, da
responsabilidade, estará comprometido por anos seguidos. Sem a saída de Temer a
herança que ficará serão os escombros da democracia e a percepção de que golpes
valem a pena.
O juiz Moro, por seu turno, não tem mais
condições morais de permanecer à frente da Lava Jato. Em recente palestra
proferida nos Estados Unidos ele afirmou que não contribuiu para derrubar
Dilma. Ele não só contribuiu de forma decisiva como, agora se sabe, agiu
deliberadamente para proteger os mal-feitos de Temer ao cancelar perguntas
dirigidas pela defesa de Cunha ao presidente-usurpador. Ao barrar as perguntas
de Cunha, o juiz Moro cometeu duas ilegalidades: 1) barrou o direito de defesa,
algo que não cabe a nenhum juiz praticar; 2) prevaricou, pois o certo era
permitir que se pudesse conhecer aquilo que as perguntas pretendiam revelar.
Vejam-se apenas duas das perguntas barradas por
Moro dirigidas a Temer: "Qual a relação de Vossa Excelência com o Sr. José
Yunes?" e "O Sr. José Yunes recebeu alguma contribuição de campanha
para alguma eleição de Vossa Excelência ou do PMDB?". Moro classificou
como "chantagem" e "provocações" as perguntas da defesa de
Cunha. Está claro que ele agiu para proteger Temer, protegendo um esquema
criminoso.
A cada dia que passa, as provas deixam mais
evidente que quem destruiu a Petrobras pela corrupção foi o PMDB. A destruiu
para agora entregar os seus ativos ao capital estrangeiro. Este governo foi
instituído para liquidar as empresas brasileiras a preço de banana, para
entregar os direitos dos trabalhadores ao capitalismo de predação, para vender
as aposentadorias de pobres idosos ao capital financeiro, para destruir a
educação e a saúde públicas.
Agora a mídia e setores de direita querem
vender a seguinte equação: a política vai mal, mas a economia vai bem, pois os
indicadores estariam melhorando. Proclamar a queda da inflação e dos juros como
grande feito desse governo significa vender fumaça, pois os dois indicadores
são consequência do efeito inercial da recessão. Na verdade, a política está
podre e a economia vai mal. Uma economia que tem mais de 12% de desempregados
não pode estar bem. Uma economia que produz novos pobres todos os dias não pode
estar bem. Uma economia que destrói o pouco de seguridade social do seu povo
vai muito mal.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
A Confraria de 1984
George Orwell, pseudônimo do britânico-indiano Eric Arthur Blair, abordou em várias de suas histórias o poder tal como ele conseguia vê-lo em sua época. Muitos dos escritos continuam atuais. Fazemos uma leitura e enxergarmos o Grande Irmão, um supra-poder que comanda o executivo, o legislativo e o judiciário, que dá prêmio a juízes, que convoca passeatas, que esconde grandes traficantes e criminaliza mendigos, que transforma cidadãos em bandidos e bandidos em santos, que domina, em resumo, todo o discurso no país, estando onipresente nas casas, clínicas, escritórios e fábricas. E a Confraria, uma humilde resistência que tenta se contrapor ao Grande Irmão, que é execrada pela mídia, pelo judiciário, pelos órgãos de repressão do Estado, pelo grande capital, vivendo escondida em ambientes virtuais, pelos becos escuros ou sob tortura nas celas úmidas das masmorras. A seguir, um pequeno trecho de 1984, uma das principais obras de Orwell.
"A confraria não pode ser liquidada porque não é uma organização no sentido usual do termo. Nada além da ideia de que é indestrutível a mantém ativa. Vocês jamais contarão com nenhum outro alento além dessa ideia. Não experimentarão camaradagem nem encorajamento. Quando por fim forem apanhados, não receberão nenhuma ajuda. Nunca ajudamos nossos membros. No máximo, quando é absolutamente necessário que alguém seja silenciado, às vezes conseguimos introduzir às escondidas uma navalha na cela do prisioneiro. Trabalharão por algum tempo, serão presos, confessarão e depois morrerão. São esses os únicos resultados que haverão de testemunhar. Não há a menor possibilidade de que ocorram mudanças perceptíveis em nossa geração. Nós somos os mortos. Nossa única vida genuína repousa no futuro. Participaremos dela na condição de pó e fragmentos ósseos. Não há, porém, como saber quanto tempo decorrerá até o advento desse futuro. Talvez mil anos. No momento, nada é possível, exceto ampliar pouco a pouco a área de sanidade. Não temos como agir coletivamente. Só podemos disseminar nosso conhecimento de indivíduo a indivíduo, geração após geração. Com a Polícia das Ideias, não há outra saída."
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