Ontem, 12 de setembro de 2020, há dez anos, morria Claude Chabrol. Chabrol é um dos fundadores da Nouvele Vague, um estilo e estética de cinema novo surgido na França no começo da década de 60 do século passado e que teve como outros participantes os diretores François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Jacques Rivette e Alain Resnois, entre outros. Nesses dias assisti o filme de Chabrol Les Bonnes Femmes (França, 1960), com as atrizes Bernadette Lafont, Clotilde Jouno, Stéphane Audran e Lucile Saint-Simon. O filme conta a história de quatro moças, balconistas de uma loja de eletrodomésticos em Paris, com as suas diversas expectativas sobre o amor, vivendo entre a expectativa, o tédio e o perigo. Em particular, são bastante interessantes a cena inicial da movimentada Paris noturna, repleta de carros, luzes e sons do início dos anos 60, e a cena do subúrbio, escuro e sombrio, onde moram as jovens trabalhadoras cheias de sonhos.
domingo, 13 de setembro de 2020
Dez anos sem Chabrol
Mulheres com os seus sonhos em Les Bonnes Femmes.
Trinta e quatro anos após Les Bonnes Femmes, Chabrol apresentará o L'enfer (França, 1994), película que conta a história de um jovem casal que mora numa pequena localidade cuidando de um hotel onde turistas passam as jornadas de verão. Os dias são de uma claridade indescritível. Tudo corria muito bem na vida tranquila do casal até que o jovem marido passa a ter ciúmes da esposa, sentimento esse que vai aumentando e tomando contornos de loucura. O marido passa a acreditar que todos os homens conhecidos, incluindo os vários hóspedes, têm algum caso com sua esposa e para evitar qualquer perigo começa a restringir a liberdade da mulher. Num determinado dia ele a impede de sair do quarto e amarra os seus braços à cama do casal. Ao fazer a barba para uma pequena viagem o marido se corta com a navalha e o sangue na sua roupa poderia ser inclusive de sua esposa. Ele pensa que já é manhã e a esposa já está pronta para sair, mas quando olha novamente ela continua amarrada. Ele não sabe mais o que é a realidade e o que são alucinações. Assim como no Les Bonnes Femmes, o belo futuro sonhado pela mulher pode ser apenas uma ilusão. E a dor pode ser inevitável quando não se pode controlar o destino. E nunca é possível, na verdade.
Emmanuelle Béart, como Nelly, em L'enfer.
segunda-feira, 3 de agosto de 2020
Em Higashi Honganji
Higashi Honganji é um templo Shin Budista localizado na cidade de Kyoto, no Japão, e composto por vários prédios. O prédio principal é denominado de "Salão do Fundador", que se constitui numa das maiores estruturas de madeira do mundo, medindo 76 m de comprimento, 58 m de largura e 38 m de altura. Foi construído ao longo de vários séculos, tendo o último prédio sido concluído em 1911.
Vista externa dos prédios de Higashi Honganji (foto de 1997).
Vista do prédio principal de Higashi Honganji (foto de 1997).
Em um dos vários locais do templo existe uma pequena placa com os dizeres: "What rare it is: to be born a human". É uma frase escrita em inglês tentando representar a tradução de um pensamento original em japonês, talvez de algum sábio budista. Numa tradução aproximada: "Quão raro é isso: ter nascido, e ser um humano". Uma bela reflexão sobre a condição excepcional que representa cada pessoa que passa pela Terra, com suas virtudes, seus sonhos, suas lutas, suas idiossincrasias e mais o peso do conjunto de vicissitudes que todas as vidas encerram.
domingo, 2 de agosto de 2020
terça-feira, 21 de abril de 2020
Outro pesadelo
Acordei após um pesadelo e lembrei-me de Gerard de Nerval: "O Sonho é uma segunda vida". E pensei, tentando encontrar uma simetria: a vida pode ser um outro pesadelo. No centro, uma crise política e de saúde pública.
Bolsonaro apresenta um contumaz desprezo pelos mais humildes e uma arrebatadora admiração pelos poderosos, em particular por banqueiros e empresários. É um herói para maus caráteres, para medíocres, para fracassados e para ignorantes. Antes da eleição presidencial de 2018, Bolsonaro mostrara em diversas ocasiões quem ele era. Racista, debochou e fez piada com negros em uma Associação Israelita no Rio de Janeiro. Xenófobo-regionalista, achincalhou a população do Nordeste. Homofóbico, declarou com todo o orgulho que preferia ter um filho morto a homossexual. Misógino, por várias ocasiões foi extremamente agressivo e deselegante com repórteres mulheres. Incentivou a violência contra a mulher, ao afirmar que não estupraria uma deputada porque ela não mereceria. Foi anti-democrático, ao homenagear torturadores e considerar como herói o maior assassino do regime militar brasileiro. Foi anti-patriota, ao bater continência à bandeira dos Estados Unidos. Amante de assassinos, ao comentar que o regime militar deveria ter matado mais pessoas. Fascista, quando gritou em comício que deveriam fuzilar os adversários políticos. Agora, com a pandemia da covid-19 e o desprezo descarado pela vida dos cidadãos, vemos que também lhe caberia bem um outro adjetivo: nazista. Em resumo, não vale uma cibazol!
segunda-feira, 20 de abril de 2020
srta. Swann
Gilberte, a filha querida do sr. Charles Swann e paixão de infância/adolescência do Narrador de Em busca do tempo perdido, desaparece do segundo ao quinto volumes da obra, reaparecendo novamente apenas na segunda metade do sexto volume, A Fugitiva. Entretanto, nesse reaparecimento a srta. de Swann agora é chamada de srta. de Forcheville, que recebera esse título pelo fato de sua mãe ter desposado após a viuvez um nobre, o sr. de Forcheville. Gilberte, também, por um golpe de sorte do destino, recebeu uma grande herança de um tio de Swann que morreu sem deixar descendentes, se tornando assim uma das mais ricas herdeiras da França. O Narrador, nos primeiros momentos do reencontro, não reconhece o seu antigo amor, mas quando toma consciência de quem é a moça loura com um ar um pouco mais delicado, 'quase sofredor', ele recorda dos tempos em que passeava pelos Campos Elíseos com o coração transbordando de esperança e sofrimento; mas agora, a antiga filha da sra. Odette não representa mais nada. Gilberte se casará com o nobre Saint-Loup e passará de uma pequena criança burguesa, para uma interessante moça burguesa rica e finalmente uma nobre das mais requisitadas do faubourg Saint-Germain. Eis uma rápida descrição da Gilberte nobre na tradução do poeta Carlos Drummond de Andrade:
Participando, numa palavra, da opinião dessa personagem de opereta que declara: "Meu nome me dispensa, creio eu, de dizer mais nada", Gilbert pôs-se a ostentar desprezo pelo que desejara tanto, a declarar que todos os moradores do faubourg Saint-Germain eram idiotas e infrequentáveis, e, passando da palavra à ação, deixou de frequentá-los. Pessoas que só a conheceram depois dessa época, tendo-a ouvido, nos primeiros contatos, convertida em duquesa de Guermantes, zombar alegremente da sociedade que lhe seria tão fácil ver, e, como não a vissem receber uma só pessoa dessa sociedade, pois se a mais brilhante de todas se aventurasse a ir visitá-la, seria recebida de cara com um bocejo, envergonham-se retrospectivamente de terem podido achar algum encantamento na alta-roda, e nunca ousariam revelar esse segredo humilhante de suas fraquezas passadas a uma senhora que, por uma elevação essencial de sua natureza, se lhes afigura jamais seria capaz de compreendê-las. Ouvem-na zombar com tanto espírito dos duques e vêem-na, coisa ainda mais significativa, harmonizar inteiramente sua conduta com essas zombarias! Sem dúvida, não cogitam de apurar as causas do acidente que transformou a srta. Swann em srta. de Forcheville, e a srta. de Forcheville em marquesa de Saint-Loup, e depois em duquesa de Guermantes. Talvez não lhes ocorra também que esse acidente serviria, menos pelos seus efeitos do que pelas suas causas, para explicar a atitude ulterior de Gilberte, pois o convívio com plebeus não é concebido da mesma maneira como o faria a srta. Swann por uma dama a quem todo mundo chama de "senhora duquesa", e as duquesas, que a aborrecem, de "minha prima". Desdenhamos de bom grado um objetivo que não logramos atingir ou que atingimos definitivamente.
domingo, 19 de abril de 2020
A morte de Albertine
Outra morte que marcará indelevelmente o Narrador do Em busca do tempo perdido refere-se a de sua amada Albertine. Na verdade, essa morte é o que suscitará ao Narrador o maior período de tempo de reflexão a respeito desse fato definitivo de nossas vidas. Depois de praticamente ser expulsa da casa do Narrador por causa de um ciúme exagerado, Albertine vai para o interior, para a casa de uma parente, mas ainda escreve para Marcel com a intenção de reatar os laços e voltar para a casa. Entretanto, antes que o Narrador possa tomar alguma atitude, ele recebe um bilhete da sra. Bontemps com uma notícia arrasadora:
"Meu pobre amigo, nossa Albertine já não existe. Perdoe-me dizer essa coisa horrível a quem gostava tanto dela. Foi jogada contra uma árvore pelo cavalo, durante o passeio. Apesar de todos os nossos esforços, não escapou. Antes tivesse eu morrido em seu lugar!"
Depois desse bilhete, o Narrador se confrontará com a inexorabilidade da morte e esse pensamento o guiará durante muito tempo. Abaixo várias referências à tristeza e ao sentimento de culpa, tal como descrito por Marcel Proust no sexto volume da obra, A Fugitiva, na tradução de Carlos Drummond de Andrade.
Amanhã, depois de amanhã, era um futuro de vida comum, talvez para sempre, que começava; meu coração atirou-se a ele, mas já não estava mais ali, Albertine morrera.
Ligada que estava a todas as estações a lembrança de Albertine, par que eu a perdesse seria preciso que as esquecesse todas, prestes a conhecê-las de nov, como um velho atacado de hemiplegia e que reaprende a ler; seria preciso que eu renunciasse a todo o universo.
(...) tudo isto modificava o caráter de minha tristeza retrospectiva tanto quanto as impressões de luz ou de perfume que lhe estavam associadas, e completava cada um dos anos solares que eu tinha vivido - e que, só pelas suas primaveras, suas árvores, suas brisas, já eram tão tristes por causa da lembrança inseparável dela -, duplicando-o com uma espécie de ano sentimental, em que as horas não eram definidas pela posição do sol, mas pela espera de um encontro, em que o comprimento dos dias ou os progressos da temperatura eram medidos pelo voo de minhas esperanças, pelo progresso de nossa intimidade, pela transformação progressiva do seu rosto, pelas viagens que ela fizera, pela frequência e pelo estilo das cartas que escrevera durante certa ausência, pela sua maior ou menor precipitação em me ver de volta.
Então, ao pensar no vazio que eu sentiria agora voltando para casa, que não mais veria cá de baixo o quarto de Albertine, cuja luz se apagara para sempre, compreendi o quanto, naquela noite em que, deixando Brichot, eu imaginara sentir tédio e pesar por não poder ir passear e amar por aí afora, compreendi o quanto me enganara, e era somente porque julgava inteiramente segura a posse daquele tesouro cujos reflexos vinham lá do alto até mim, que eu me descuidara de apreciar-lhe o valor, e que fazia com que me parecesse forçosamente inferior a outros prazeres, por pequenos que fossem, mas que, procurando imaginá-los, eu avaliava.
A ideia de que temos de morrer é mais cruel do que a morte, porém menos que a ideia de que alguém morreu, e que, aplanando-se depois de haver engolfado a criatura, estende, sem um redemoinho sequer naquele ponto, uma realidade de onde essa criatura está excluída, onde não existe mais nenhuma vontade, nenhum conhecimento, e da qual é tão difícil remontar à ideia de que essa criatura viveu, quanto é difícil, no que toca à lembrança recentíssima de sua vida, pensar que seja assimilável às imagens sem consistência, às lembranças deixadas pelas personagens do romance que lemos.
Agora não estava mais em parte alguma, ainda que percorresse a terra de um polo a outro não encontraria mais Albertine. A realidade que se havia fechado sobre ela voltara a tornar-se compacta, apagara até o rastro do ser que nela submergira. Não era mais que um nome, como aquela sra. de Charlus, de quem diziam com indiferença os que a tinham conhecido: "Era encantadora".
(...) o que me causava espanto não era, como nos primeiros dias, que Albertine, tão viva em mim, pudesse não existir mais sobre a face da terra, pudesse estar morta, mas que Albertine que não existia mais sobre a terra, e morrera, houvesse permanecido tão viva em mim.
sábado, 18 de abril de 2020
O incipit da Recherche.
Na postagem passada fizemos várias referências ao excelente trabalho da Profa. Sheila Santos, da Universidade Federal de Santa Catarina, que realizou uma análise primorosa da primeira tradução brasileira da obra Em busca do tempo perdido, tal como publicado pela editora Globo [1]; o intuito da investigação, entre outros, foi o de identificar a uniformidade linguística da tradução coletiva. A professora utiliza diversas páginas para fazer a análise das frases iniciais, o incipit, do livro de Marcel Proust. Aqui vou fazer uns poucos comentários sobre a longa discussão que existe a respeito dessa temática (comentário de um simples amador que, obviamente, não tem o rigor e não usa a metodologia da área de literatura).
Antes de ir ao incipit do Em busca do tempo perdido, no caso, o início do primeiro volume da obra No caminho de Swann, acho que é interessante relembrar uma lição popular de Umberto Eco, "Seis Passeios Pelos Bosques da Ficcção" [2]. Eco era um fã de Gérard de Nerval, mais particularmente da obra Sylvie, sobre a qual ele ministrou uma disciplina de pós-graduação na Universidade de Columbia. No Seis Passeios Eco faz uma análise de diversos aspectos da obra, mas começa discutindo a frase inicial de Sylvie: Je sortais d'un théâtre où tous les soirs je paraissais aux avant-scènes en grande tenue de soupirant. Segundo Eco, essa é uma frase difícil de ser traduzida para o inglês porque o tempo verbal utilizado é o pretérito imperfeito, mas na língua saxônica não existe esse tempo. Isso impõe uma dificuldade para o tradutor, mas Eco propõe duas possíveis traduções: I came out of a theater, where I appeared every evening in the full dress of a sighing lover e I came out of a theater, where I used to spend every evening in the proscenium boxes in the role of an ardent wooer. Eco lembra que o pretérito imperfeito é interessante porque ele tem caráter simultâneo de duração e de interação. No primeiro aspecto o verbo mostra algo que estava acontecendo no passado mas não fornece informação sobre o início e o fim da ação. Quando dizemos, 'eu estava lendo', há uma imprecisão quanto ao tempo preciso em que isso ocorreu. No segundo aspecto, de interação, Eco afirma que na ação representada pelo imperfeito a ação se repetia. Empregado na primeira frase de Sylvie, o imperfeito fornece uma imprecisão temporal que será importante no desenvolvimento do romance. Eco ainda discute outros aspectos da obra, mas o importante para essa postagem é o tempo verbal utilizado por Nerval.
Retornemos ao incipit do livro principal de Marcel Proust. Segundo a professora Sheila Santos, "comumente, considera-se constitutivo do incipit apenas a primeira frase da obra, que no caso da Recherche seria “Longtemps, je me suis couché de bonne heure”. Porém, ele pode estender-se além desse limite, abarcando uma sequência textual mais longa, como, por exemplo, as primeiras frases ou o primeiro parágrafo." Assim, de acordo com a professora, pode-se considerar o incipit da obra as duas primeiras frases:
“Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n'avais pas le temps de me dire: “Je m'endors”.”
Muitos artigos já foram escritos tentando decifrar esse início da obra de Proust. Em relação às versões brasileiras, a professora da UFSC fornece uma interpretação para "as transformações linguísticas operadas pelos tradutores brasileiros da Recherche". Antes de ver as explicações, vejamos as duas versões brasileiras para as frases iniciais de No Caminho de Swann:, respectivamente devidas a Mario Quintana e a Fernando Py:
“Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”.”
“Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”.”
Retornemos ao incipit do livro principal de Marcel Proust. Segundo a professora Sheila Santos, "comumente, considera-se constitutivo do incipit apenas a primeira frase da obra, que no caso da Recherche seria “Longtemps, je me suis couché de bonne heure”. Porém, ele pode estender-se além desse limite, abarcando uma sequência textual mais longa, como, por exemplo, as primeiras frases ou o primeiro parágrafo." Assim, de acordo com a professora, pode-se considerar o incipit da obra as duas primeiras frases:
“Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n'avais pas le temps de me dire: “Je m'endors”.”
Muitos artigos já foram escritos tentando decifrar esse início da obra de Proust. Em relação às versões brasileiras, a professora da UFSC fornece uma interpretação para "as transformações linguísticas operadas pelos tradutores brasileiros da Recherche". Antes de ver as explicações, vejamos as duas versões brasileiras para as frases iniciais de No Caminho de Swann:, respectivamente devidas a Mario Quintana e a Fernando Py:
“Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”.”
“Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”.”
A tradução italiana de 1952, assinada por Natalia Ginzburg para a editora Einaudi de Turim, é a seguinte:
“Per molto tempo, mi sono coricato presto la sera. A volte, non appena
spenta la candela, mi si chiudevan gli occhi così subito che neppure
potevo dire a me stesso: “M'addormento”.”
Por seu turno, a primeira tradução inglesa, devida a C.K. Scott Moncrieff, aparece da seguinte maneira:
“For a long time I would go to bed early. Sometimes, the candle barely out, my eyes closed so quickly that I did not have time to tell myself: “I'm falling asleep”.”
Já na tradução inglesa mais moderna, de Lydia Davis, encontramos o seguinte texto:
“For a long time, I went to bed early. Sometimes, my candle scarcely out, my eyes would close so quickly that I did not have time to say to myself: “I'm falling asleep”.”
Por seu turno, a primeira tradução inglesa, devida a C.K. Scott Moncrieff, aparece da seguinte maneira:
“For a long time I would go to bed early. Sometimes, the candle barely out, my eyes closed so quickly that I did not have time to tell myself: “I'm falling asleep”.”
Já na tradução inglesa mais moderna, de Lydia Davis, encontramos o seguinte texto:
“For a long time, I went to bed early. Sometimes, my candle scarcely out, my eyes would close so quickly that I did not have time to say to myself: “I'm falling asleep”.”
De acordo com a Ref. [1], o advérbio de abertura da obra, "longtemps", vai fazer eco com as palavras finais do romance, três mil páginas mais a frente: "dans le Temps", que se constitui no encerramento do Le temps retrouvé. Para traduzir esse advérbio que carrega consigo muito significado, os tradutores brasileiros utilizaram a locução verbal "durante muito tempo". Observe-se que as traduções italiana e inglesas também escolheram expressões com significado similar. Já o tempo verbal da primeira frase é o passé composé, que é um tempo verbal com pouca utilização por parte do autor, segundo a Ref. [1]. Talvez se Proust tivesse utilizado o pretérito imperfeito no começo da obra - como destacado por Umberto Eco com referência à obra de Nerval - isso tivesse sugerido um caráter de sonho ou de irrealidade ao texto da Recherche, mas ao contrário, os fatos e lembranças rememorados eram bastante reais para o Narrador, e assim tal tempo verbal não poderia ser utilizado. Destaca-se que o imperfeito, apesar desse início, é bastante utilizado por Proust ao longo da obra, para destacar principalmente a interconexão entre o passado e o presente. De qualquer forma, há uma ambiguidade temporal na primeira frase da Recherche com a utilização do passé composé que será seguido por uma série de imparfaits nas restantes frases do parágrafo. É interessante também destacar que a expressão no presente “je m'endors” ganha uma tradução de Mario Quintana no mesmo tempo verbal, assim como a tradução italiana de Ginzburg. Fernando Py, por sua vez, prefere traduzir para uma expressão no tempo futuro, enquanto as duas versões inglesas utilizam um present continuous. Essas são apenas algumas das sutilezas das primeiras frases do romance, na verdade, a análise que pode ser realizada relativa a elas é muito mais complexa. Para os que quiserem se aprofundar nesse tema podem se dirigir à Ref. [1] e respectivos títulos citados na bibliografia da tese.
[1] Sheila Maria dos Santos, (Des)aparecer no texto: o escritor-tradutor na tradução coletiva de A La Recherche Du Temps Perdu de Marcel Proust, Tese de Doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis: 2018.
[2] Umberto Eco, Seis Passeios Pelo Bosque da Ficção, Tradução de Hildegard Feist, editora Companhia das Letras, São Paulo: 2004.
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