Ruanda, pequeno país no centro da África, é a terra dos tutsis, dos hutus, dos batwas. Explorado inicialmente pelos alemães e posteriormente pelos belgas na sanha colonialista européia de dois séculos, Ruanda foi palco de um dos mais vergonhosos episódios ocorridos no século XX: o massacre de mais de oitocentas mil pessoas. No livro "Nossa Senhora do Nilo" (Notre-dame du Nil) a escritora Scholatique Mukasonga conta a história de estudantes de um colégio tradicional onde as moças pertencentes à alta sociedade são educadas na tradição cristã, tendo como referência cultural a Europa e a língua francesa. E como pouco a pouco, os adivinhos da chuva, os detentores dos segredos das ervas e da floresta, os velhos que conhecem os encantos e encantamentos vão desaparecendo, substituídos pelos valores ocidentais.
domingo, 2 de janeiro de 2022
Senhora do Nilo
sábado, 11 de dezembro de 2021
A vendedora ambulante
O ônibus que eu apanharia apontou no final da rua e
avançou rapidamente. Subi no transporte resignado com a longa viagem que teria
que enfrentar até atingir o meu destino. Antes de chegar à próxima parada
comecei a pensar nas várias tarefas que teria que realizar naquele dia, na
requisição que teria que fazer...
Mas de repente, o motorista freou bruscamente e fez
torcer os pescoços de vários dos passageiros. Na parada tentou subir uma
senhora com uma caixa repleta de pamonhas e de canjicas. Quando tomo o ônibus
das sete, ela sempre sobe nessa parada. Nesse dia a caixa estava aparentemente
mais pesada do que de costume e a senhora não conseguia elevá-la acima do
primeiro degrau. Ajudei, pois era um dos que se encontravam mais próximos das
escadas da subida; fiz um esforço enorme e, com grande dificuldade, conseguimos
adentrar os produtos da vendedora ambulante.
Com a vendedora de pamonha subiu também uma outra
senhora, talvez sua irmã ou uma amiga, que trazia uma sacola também repleta de
produtos. Elas se colocaram na parte traseira do ônibus e começaram uma
conversação. Em breve algumas cadeiras ficaram vazias e elas se sentaram lado a
lado.
A vendedora falou à companheira como se continuasse
uma conversa:
- ... pois na infância eu carregava pequenos fechos
de lenha na cabeça e às vezes brincava na beira da lagoa. Lembro também dos
mané magos que apareciam aos montes quando o tempo estava bom, das formigas de
asas perto de uma chuva forte depois dum tempão seco, de quando a gente ia
comprar coisa na bodega, tinha uma balança assim que dum lado o bodegueiro
colocava um peso, tu lembra? A gente brincava a tarde toda no areal, mas isso
era quando eu não tinha nem dez anos. Quando estava quase de noite, a mamãe
mandava tomar banho e se preparar para o jantar. A nossa casinha naquela época
era boa, tinha até o retrato da santíssima trindade na sala. Depois que meu pai
se foi tudo ficou ruim, a gente se mudou!
Após uma pausa, como se estivesse arrumando os
pensamentos, a vendedora então arrematou:
- Meu sonho é me aposentar e o dinheiro que eu
apurar nessas vendas seja apenas para comprar as minhas coisinhas. Agora eu
tenho que pagar o aluguel, a luz, que atrasei no mês passado, e a comida. Minha
filha mais velha mora a duas casas da minha mas não tem coragem de me dar nem
um prato de comida. Se Deus quiser, vou me aposentar.
A amiga discorreu um pouco sobre a sua moradia
atual no que a vendedora de pamonha retrucou:
- A minha casa é pequena mas o meu sonho é comprar
uma casinha lá para a Palpina. Ou então comprar um terreninho, depois arranjar
uns tijolos, umas ripas, uns caibros, as telhinhas, você sabe. Mas eu
precisaria dessa aposentadoria. Com o dinheiro das vendas, no máximo, às vezes
eu vou pintar as unhas. Mas não faço as unhas dos pés. A minha filha mais nova foi
num salão de beleza e viu um serviço bem barato e furaram um dedo do pé dela e
já tá há um ano inflamado. Agora está também saindo pus. Tô até preocupada, mas
o marido dela num tá nem aí, e também a cunhada. Acho que vou ter que levar ela
no médico. Não sei como vai ser porque ela está no sétimo mês. Mulher grávida
pode tomar antibiótico?
A senhora que estava do outro lado, ao ouvir essa
fala, entrou na conversa.
- A gente tem que ter cuidado com as clínicas de
beleza baratas. Para mexer nos pés das clientes a pessoa tem que ter um curso
de podologia. Eu trabalho em clínicas desde os quatorze anos, estou com trinta
anos. Fiz curso de cabeleireiro, tenho o meu diploma, sabe? Na clínica de
beleza que trabalho a gente não engana a cliente apenas para ganhar mais
dinheiro. Eu digo logo: “olha, esse tratamento não serve para o seu cabelo”. O
pessoal diz que tem tratamento sem química, mas isso não existe. Seja
alisamento, luzes, permanente, relaxamento, progressiva, tudo tem química, o
que difere os tratamentos é a quantidade de química. Tudo tem formol. Por menos
que tenha, mas tem formol. A gente tem que ser honesta.
Após um pequeno intervalo para respirar a
cabeleireira, que usava grandes óculos e tinha o cabelo ligeiramente estirado,
continuou:
- Às vezes a pessoa vai para um lugar mais barato e
depois tem que gastar mais dinheiro. É como o povo diz, é o barato que sai
caro. Faz uma alisamento de sessenta reais por trinta reais; aí usaram um
produto de qualidade inferior, e então, para que serviu a economia? Para fazer
a unha, tem que ir a uma podologista, tem que pedir o certificado de curso de
podologia. A senhora tem que ir procurar uma podologista para a filha da
senhora, ela vai fazer o tratamento correto.
E a amiga da vendedora:
- Como ela está grávida acho que tem que levar num
posto de saúde para saber se ela pode tomar o antibiótico.
Enquanto o ônibus avançava num trecho com menos
engarrafamento, a conversa parece ter atingido fundo o coração da vendedora e
ela repetiu por três vezes:
- Eu vou pagar a consulta para a minha filha. Se eu
não ajudar, não tem quem ajude.
E a cabeleireira:
- Eu tenho uma amiga que acho que é a melhor
podologista da cidade. Ela trabalha numa clínica que fica atrás do shopping North
Paradise. O nome dela é Verinha. A senhora chega lá e procura ela.
No que a vendedora falou:
- Nem que a consulta seja duzentos reais eu vou
pagar para a minha filha.
E quando o coletivo quase chegava ao centro da
cidade a cabeleireira levantou-se, despediu-se "vá ver a minha
amiga", passou a roleta e sumiu na multidão. E a vendedora ficou na sua
cadeira, triste, pensativa.
Olhando as calçadas da avenida onde o ônibus agora
avançava, chamou a atenção da vendedora um mendigo que dormia sobre papelões na
escadaria de imponente prédio pertencente a um banco. A cor de suas vestimentas
lembrava a da vendedora de canjica, que se encontrava calada nesse momento.
Alguém poderia dizer que se tratava de uma confraria. Uma confraria diferente,
forçada, forjada por séculos de excessivos privilégios e exclusões.
O ônibus terminaria a sua jornada em um terminal no
outro lado da cidade. Continuou o seu trajeto por mais uns quinze minutos,
período em que a vendedora cochilou e a sua companheira distraiu-se olhando
pela janela do outro lado.
Próximo à parada de descida, a vendedora de pamonha
ajeitou o seu gigolete, pegou algumas moedas no bolso da calça jeans para
pagar a passagem e tentou convencer o trocador de que deveria descer pela porta
traseira por causa do peso das pamonhas e das canjicas. Avançava resolutamente
em direção a mais um dia de duro trabalho. Seus fregueses certamente a
esperavam na porta de uma fábrica ou de uma esquina movimentada. Com sua dor
quase solitária, mas se expressando firmemente, ela gritaria:
- Olha a pamonha, olha a canjica. Pamonha e canjica
fresquinha!
Entretanto,
assim que ela desceu, a tira da sandália esquerda rompeu-se fazendo-a tropeçar
e derrubar ao chão parte das pamonhas e das canjicas. Na claridade da manhã
pareciam pepitas de ouro que um explorador desastrado derrubara na beira do
caminho. Com a ajuda da amiga, com o joelho ralado e uma mão ensanguentada, ela
se levantou e enxugou o sangue na lateral da calça. A mulher – toda desejo de
liberdade – deixou fugir uma lágrima que correu pelo seu rosto envelhecido.
Enquanto
o ônibus se afastava, ainda consegui ver um pouco de canjica derramada na
sarjeta e alguns transeuntes que ajudavam a vendedora a juntar as pamonhas e os
potinhos que continuavam fechados.
P.T.C. Freire, agosto de 2021.
Esta crônica foi finalista do II Concurso Literário da Semana do
Servidor, promovido pela Secretaria de Cultura Artística da Universidade
Federal do Ceará em 2021. Foi publicada no livro "Coletânea Travessias.
Contos e Crônicas - Vol. II". Organizadores: Joaquim Melo de
Albuquerque, Maria Pinheiro Pessoa, Lady Dayana Oliveira. Imprensa
Universitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), 2021.
domingo, 5 de dezembro de 2021
Todas as cores de 2046
"2046" é um filme dirigido por Wong Kar-Wai, com produção da China, Hong Kong, França, Itália e Alemanha (2004). Antes de falar dele é importante falar do In the mode for love, filme de 2000 (China, Hong Kong, França) do mesmo diretor. A história se passa no início da década de 60 em Hong Kong. O jornalista Sr. Chow (Tony Leung Chiu-Wai) e a secretária Su Li Zhen, interpretada por Maggie Cheung (que fará grande sucesso no papel de Flying Snow, do filme Herói) descobrem que os seus respectivos cônjuges os estão traindo. Os dois começam a sair para jantar e então inicia-se uma cooperação entre eles na escritura de um livro. O Sr. Chow se apaixona por Su Li, mas a paixão não é correspondida, ou pelo menos, a secretária não permite que o relacionamento seja fortalecido. Decepcionado, o jornalista viaja para Cingapura e perde o contato com a secretária, nunca mais eles conseguem se encontrar. Num dos não encontros ouve-se a música 'Quizas, quizas, quizas'. O filme termina alguns anos depois com a secretária saindo com o seu pequeno filho.
Pois bem, falemos do filme 2046. O número refere-se ao quarto de hotel onde o jornalista Sr. Chow, no passado, escreveu um livro com a secretária Su Li Zhen. Agora ele o utiliza como o título de um conto futurista. O filme trata de amores e perdas (de certa forma é a continuação da história In the mood for love). Como falado num determinado momento da história, 'todas as lembranças são vestígios de lágrimas'. O protagonista busca no futuro algo perdido no passado e o trem que parte para o futuro para recuperar esse passado, jamais o traz de volta. Em novos amores, o Sr. Chow não consegue encontrar a essência do que ficou para trás. No elenco, além de Tony Leung (In the mood for love) que interpreta o jornalista, também estão atrizes de filmes de sucesso como Zhang Liyi (O Tigre e o Dragão, Herói, O Clã das Adagas Voadoras e o menos famoso, mas belíssimo O Caminho para Casa), Gong Li (Lanternas Vermelhas) e Faye Wong (Chungking Express). Dois aspectos que me chamaram particularmente a atenção foram as músicas (há inclusive uma que fez sucesso no Brasil há décadas na voz de Francisco Alves) e as cores dos personagens nos cenários. Um filme com várias matizes.
quinta-feira, 11 de novembro de 2021
Duzentos anos na casa dos mortos
Há exatamente 200 anos, em 11 de novembro de 1821, nascia em São Petersburgo, na Rússia, um dos grandes escritores da literatura russa, Fiódor Dostoiévski. Para comemorar, vou fazer um brevíssimo comentário, pequeno resumo na verdade, de sete das primeiras obras do romancista russo.
"Pobre gente" é a história de um velho funcionário público, Makar Alieksiéievith, solteiro, que vive numa pensão miserável e é apaixonado (ou teria uma grande preocupação paternal, não é muito claro) por uma pobre moça, Varvara Aliekséievna. Em cartas trocadas percebe-se a vida dura que eles e os seus conhecidos levam: "também nele [no quarto] se respira um ar um pouco úmido; quero dizer: não pretendo dar a entender que cheira mal nos quartos, mas que... enfim, que exalam um cheiro putrefato (...)". Também são relatadas as tarefas sem sentido que executam: "Sentia-me tão feliz! Ansioso por gastar energias, atirei-me ao trabalho sobre a papelada. E em que acabou afinal tudo isso? Aconteceu que ao relancear a vista à minha volta, tornei a encontrar tudo como dantes... cinzento e insípido". Makar tem saudade da antiga pensão em que morara por vinte anos. Apesar do amor que sente, Makar fala que se sente como um pai para Varvara. Já essa conta por carta e também através de um caderno onde fizera anotações, a sua vida presente e pregressa. Na leitura do caderno descobre-se a grande admiração da moça por um colega de pensão que morrera muito jovem, Pietienhka, um leitor voraz e um amante do grande poeta Púchkin. As trocas de cartas e a sucessão de frustrações por causa da miséria de Makar e de Varvara acaba quando essa última recebe uma proposta de casamento e se muda com o marido para o interior. E nunca mais haverá troca de correspondência. Um triste final.
"O duplo" é outra obra muito gostosa de se ler. Conta a história de um funcionário público, esquizofrênico e com outras alterações psicológicas. Logo o primeiro parágrafo suscitaria uma longa discussão. Em primeiro lugar ele mostra um embate entre a realidade do mundo quando alguém está acordado e o mundo dos sonhos. "(...) Durante dois minutos continuou deitado sem fazer um movimento, como alguém que não sabe bem se ainda dorme ou se já está acordado, se já está rodeado do mundo real ou se continuava a sonhar. Em breve, porém, o senhor Goliádkin sentiu claramente que lhe voltavam as impressões habituais. As paredes do pequeno quarto cobertas de pó (...)" Aqui claramente há uma ambiguidade, pois o que significaria 'impressões habituais'? Em segundo lugar ele se relaciona com o início de "Aurélia", de Geràrd de Nerval, obra que relata as impressões de um esquizofrênico. Logo no começo da obra de Nerval aparece uma frase paradigmática: "O sonho é uma segunda vida". Aqui também a questão do que á a realidade dominará toda a história de "Aurélia", em forte correspondência com a obra de Dostoiévski. Enquanto esse último tenha escrito "O duplo" em 1845 e Nervàl tenha publicado a sua obra em 1855, é bem provável que o francês não conhecesse a obra do colega russo. Em terceiro lugar, o parágrafo inicial relata um despertar como também é um despertar o começo do romance "Em busca do tempo perdido", de Proust. Ainda em relação à obra de Proust podemos notar uma semelhança com as incertezas que se dissipam com o acordar, e esse seria o quarto ponto de destaque no parágrafo original de "O duplo". Proust nos fala: "Sem dúvida que eu estava agora bem desperto, meu corpo dera uma última volta e o bom anjo da certeza imobilizara tudo ao redor de mim, deitara-me sob minhas cobertas, em meu quarto, e pusera aproximadamente em seu lugar, no escuro, minha cômoda, minha mesa de trabalho, minha lareira, a janela da rua e as duas portas". Pois bem. O romance "O duplo" é uma sucessão de fatos num período da vida de Iákov Petróvitch Goliádkin, fatos esses caracterizados por uma clara perseguição realizada a ele por um novo funcionário do seu trabalho que tem exatamente a mesma fisionomia, é oriundo da mesma região de Goliádkin e tem exatamente o seu nome. Esse duplo o persegue e o coloca sempre em situações delicadas. Na tentativa de denunciar as vilanias do seu sósia aos seus superiores, o Sr. Goliádkin vai se enrolando numa teia de estranhos acontecimentos que ele não consegue mais sair. Certamente, todos devem tê-lo como um louco e o final de sua história é morar num local isolado, longe da sociedade de São Petersburgo.
"O senhor Prokhártin" é um romance/conto escrito em 1846, que foi todo destroçado pelas tesouras dos censores, de acordo com os estudiosos da obra de Dostoiévski. Segundo o próprio autor, o conto ficou irreconhecível. A censura se deveu ao fato de Dostoiévski tratar dos dias finais da vida de um miserável, enlouquecido e também avarento funcionário público. A pobreza de um funcionário público já havia sido explorada no seu primeiro romance Pobre Gente (1844-46) enquanto que a loucura, também relacionada a um funcionário público (esquizofrênico), fora explorado pelo mestre em O Duplo (1845-46). A edição brasileira preparada por Natália Nunes e Oscar Mendes para a Nova Aguilar, mostra que o senhor Siemion Ivânovitch Prokhártchin, mora no mais sombrio e humilde canto de uma pensão e vive com poucos recursos por causa de seu baixo salário. Ao morrer deixa uns poucos objetos num velho baú e algum dinheiro no interior de um colchão. No leito fúnebre, parece que as preocupações abandonam definitivamente o velho funcionário. "Ali estava, muito tranquilo, como quem tem a consciência em paz, como se não tivesse sido o autor de todas aquelas partidas para enganar as pessoas de bem da maneira mais ignóbil. Já não ouvia o pranto de sua desamparada hospedeira (...). Parecia ter ganho muito em inteligência e conservava o olho direito meio fechado, como se tivesse querido agarrar à pressa alguma ideia muito importante que não tivera tempo de desembrulhar..."
Na "A dona da casa" Dostoiévski apresenta uma bela história de um jovem apaixonado. Vassíli Ordínov é o jovem que se apaixona pela bela Ekatierina, esposa do velho Iliá Murin. Ekatierina foi raptada pelo velho Murin quando seus pais estavam morrendo, numa noite verdadeiramente tenebrosa. "O coração me dizia que algum acontecimento grave se ia dar em nossa casa. Por isso não nos deitamos. A noite passou devagar. De novo na escuridão se levantou um temporal e a minha alma encheu-se de inquietação. Abri a janela... tinha o rosto em fogo e o meu coração não podia achar sossego". Murin leva Ekatierina para a cidade e lá a mantém sob o seu domínio como se ela estivesse presa por algum sortilégio. Na cidade, muito tempo depois, Ordínov encontrará Ekatierina mas será afastado contundentemente por Murin. O estudante irá morar num quarto na casa do casal e lá terá a oportunidade de ver que Ekatierina carrega uma culpa e chora e reza frequentemente em frente às imagens para expiá-la. A fixação de Ordínov por Ekatierina o levará para muito próximo da loucura. Assim, Ordínov abandonará a sua paixão pela ciência, a sua obstinação pela leitura sistemática, o seu desejo de organizar as suas ideias num livro. "Quem sabe se ele teria podido dar ao mundo qualquer ideia grande, original e nova! Talvez estivesse destinado a evidenciar-se na ciência. Pelo menos tinha chegado a pensar nisso, noutro tempo. E uma fé sincera torna-se por si uma garantia para o futuro. Agora, porém, ria-se daquela sua confiança e... não avançava um passo". Ordínov perderá, sem chegar a conquistá-la, Ekatierina. Para sempre.
"Um romance em nove cartas" é uma brevíssima história apreendida entre nove cartas trocadas por dois amigos que vão se agredindo por um mal entendido até se tornarem inimigos: Piotr Ivânovitch e Ivan Pietóvitch. O nome dos amigos parece já uma pilhéria. A partir das cartas eles marcam encontros para se explicarem um ao outro, mas por motivos variados eles nunca acontecem. Parece ser um treinamento de escrita do grande escritor que está aprendendo com a lida.
"Polzunkov" é um conto bem curto no qual é relatada a história, pelo próprio personagem Polzunkov, que ganhava a vida fazendo palhaçadas na rua, como el quase conseguira se casar e o porquê de não ter dado certo o seu casamento. O fracasso nessa tentativa, a demissão do emprego e a vida de quase mendigo que levava eram aspectos distintos de uma mesma realidade: "Naquela cara podia observar-se tudo: vergonha, descaramento, cólera, o abatimento do fracasso, súplicas de perdão, a consciência do próprio valor e, ao mesmo tempo, a plena consciência da própria insignificância... Tudo isso passava em relâmpagos por aquele semblante."
"Coração Frágil" se refere à história de um pobre funcionário, Vássia Chumkov, e de seu amigo, também funcionário, Arkádi Ivânovitch. Se um leitor aprecia a obra de Dostoiévski e a explora na ordem cronológica de sua escritura percebe que o tema 'funcionário modesto', que aparece nessa obra, revisita os personagens Makar Alieksiéievitch (Pobre Gente), o senhor Goliádkin (O duplo) e Prokhártchin (O senhor Prokhártchin). Vássia ganha um dinheirinho extra copiando documentos em sua casa à noite ou nos finais de semana, o que permite que ele fique noivo de uma moça muito bondosa, Lisanhka. Este representa um momento de grande felicidade, mas o medo imenso de não conseguir finalizar um trabalho e ele perder os recursos extras faz com que ele enlouqueça. Levado para um abrigo para doentes mentais, o casamento jamais acontecerá. Lisa casará com outra pessoa, apesar do amor que ela sentia por Vássia, e Arkádi perderá para sempre o amigo. "Um sentimento estranho se apoderou do desventurado amigo do pobre Vássia (...) Compreendeu de repente o sentido de tudo o que acontecera, compreendeu por que é que Vássia não tinha podido resistir à felicidade e perdera a razão. Tremiam-lhe os lábios, brilhavam-lhe os olhos, empalidecia perante aquela novidade que se revelava".
Uma saudação, então, ao grande Dostoiévski, eterno sobrevivente da casa dos mortos!
domingo, 19 de setembro de 2021
Centenário: Paulo Freire
Hoje comemoramos os 100 anos de nascimento do educador Paulo Freire.
Paulo Freire afirmava que o povo deveria ser reconhecido na sua criatividade, na sua capacidade de produzir conhecimento, de criar arte; aquilo que o movia era uma compreensão crítica da educação, da prática educativa. Ele acreditava na tarefa histórica dos oprimidos libertarem-se a si próprios e aos opressores. Esses últimos precisam que a injustiça não tenha fim para manterem a falsa generosidade. "A ordem social injusta é a fonte geradora, permanente, dessa 'generosidade' que se nutre da morte, do desalento e da miséria".
Para Paulo Freire a conscientização do oprimido possibilita o povo inserir-se no processo histórico como sujeito. A pedagogia tem que enfrentar o dilema do oprimido, querer ser livre e ao mesmo tempo temer a liberdade, entre dizer a palavra ou não ter voz. A superação passa necessariamente pelo reconhecimento de que a realidade opressora lhe impõe um limite. E a luz da consciência é produzida através dos sons e palavras dos fonemas de objetos ligados à vida cotidiana dos camponeses e trabalhadores.
A educação popular, como instrumento da organização social, envolvendo movimentos sociais, pastorais, ONGs, entidades de direitos humanos, tem portanto o objetivo de dar voz e vez aos pequenos e humildes, ampliando os seus direitos e dando autonomia e verdadeira liberdade às pessoas.
Encerro essas brevíssimas linhas com uma pequena reflexão sobre o ensinar, do livro "Pedagogia da Autonomia":
Ensinar exige risco, aceitação do
novo e rejeição a qualquer forma de discriminação É próprio do pensar certo a
disponibilidade ao risco, a aceitação do novo que não pode ser negado ou
acolhido só porque é novo, assim como o critério de recusa ao velho não é
apenas o cronológico. O velho que preserva sua validade ou que encarna uma
tradição ou marca uma presença no tempo continua novo. Faz parte igualmente do
pensar certo a rejeição mais decidida a qualquer forma de discriminação. A
prática preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a substantividade do
ser humano e nega radicalmente a democracia. Quão longe dela nos achamos quando
vivemos a impunidade dos que matam meninos nas ruas, dos que assassinam
camponeses que lutam por seus direitos, dos que discriminam os negros, dos que
inferiorizam as mulheres. Quão ausentes da democracia se acham os que queimam
igrejas de negros porque, certamente, negros não têm alma. Negros não rezam.
Com sua negritude, os negros sujam a branquitude das orações... A mim me dá
pena e não raiva, quando vejo a arrogância com que a branquitude de sociedades
em que se faz isso, em que se queimam igrejas de negros, se apresenta ao mundo
como pedagoga da democracia. Pensar e fazer errado, pelo visto, não têm mesmo
nada que ver com a humildade que o pensar certo exige. Não têm nada que ver com
o bom senso que regula nossos exageros e evita as nossas caminhadas até o
ridículo e a insensatez.
domingo, 4 de julho de 2021
O sacrifício
O Sacrifício (Suécia, 1986) é o último filme dirigido pelo diretor russo Andrei Tarkovski, que teve a fotografia de Sven Nykvist e a atuação de Erland Josephson, Susan Fleetwood, Valérie Mairesse, Allan Edwall, Gúdrun Gisladóttir, Sven Wolker, Filippa Franzén e Tommy Kjellqvist. O filme começa com a obra inacabada de Leonardo da Vinci, "A adoração dos reis magos", e parte da "Paixão segundo Mateus" de Johann Sebastian Bach, claríssimas referências religiosas que vão ser contrapostas logo na sequência com a fala ateísta do personagem Alexander, um antigo escritor, famoso jornalista, ator e crítico teatral. Ele mora numa ilha com sua mulher Adelaide, a filha Julia e um pequeno garoto que é mudo. Alexander está plantando uma árvore seca com a ajuda do seu filho e conta ao pequeno a história de um monge que assegurou ao discípulo que se ele regasse uma árvore seca, ela poderia renascer; após três anos regando diariamente a árvore ressequida, numa certa manhã o monge enxerga flores que nascem dos seus galhos.
Alexander chegou à ilha há algum tempo, e fala ao filho pequeno enquanto o vento balança o capim no campo aberto: "Fiquei triste porque esse lugar não era nosso (...) Então, pensei que se morasse aqui poderia ser feliz até a morte. Não tenho medo, a morte não existe. Não, existe o medo da morte e é um medo horrível. Faz as pessoas fazerem o que não devem".
terça-feira, 22 de junho de 2021
Stalker
Um professor e um escritor, conduzidos por um guia - o Stalker - vão para uma região misteriosa, conhecida como a Zona. Nessa região, completamente vigiada pelo exército para impedir o acesso de qualquer aventureiro, dizem que existe um quarto onde todos os desejos mais ardorosos e sinceros das pessoas são realizados. Entretanto, a viagem até ele é cheia de dificuldades, em primeiro lugar porque os eventuais visitantes necessitam fugir das balas das metralhadoras dos soldados que vigiam a entrada, e em segundo porque na Zona há armadilhas misteriosas e às vezes mortais construídas pela própria Zona. Na viagem o Stalker, o professor e o escritor fazem diversas reflexões sobre a vida, incluindo uma sobre o desejo, que segundo um deles, são coisas efêmeras e basta dar-lhes um nome para perderem o sentido. Quanto mais próximos da região central da Zona, mais complexos os caminhos vão se tornando, mas os acontecimentos que lá ocorrem dependem mais das pessoas que entram do que da Zona propriamente dita.






