sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Casa dos mortos e notas de inverno

Alieksandr Pietróvitch Goriântchicov foi um ex-condenado que viveu por dez anos em uma prisão na Sibéria. Depois, foi morar numa povoação siberiana e após alguns anos, morreu e deixou um relato extraordinário de sua vida no presídio, as ''Cenas da Casa dos Mortos''. Recuperado pelo narrador, parte dos dez anos é relatada no romance ''Memória da Casa dos Mortos''. Um destaque especial é a descrição de vários caráteres dos presidiários, como o parricida, que era um indivíduo estouvado, desorientado, muito insensato, embora esperto. Nunca lhe notei o menor indício de crueldade especial. Ou então o major que cuidava do presídio: Era por natureza um  homem severo e mau, e nada mais. (...) Possuía sem dúvida alguma aptidões; mas tudo, inclusivamente o que era bom, apresentava nele um aspecto incompleto. Ou o velho de sessenta anos, baixinho e de cabelos brancos (...) talvez não tenha encontrado na vida uma criatura tão boa e tão simpatica. Ou Sirótkin, que sob vários aspectos, era uma criatura muito enigmática (...) Era muito preguiçoso e andava mal vestido. Ou Gázin, que era um indivíduo terrível. Provocava em todos uma estranha impressão de horror. A mim parecia-me que não podia existir criatura mais feroz e abominável. Ou então os que praticam um crime apenas com o fim de irem dar à prisão e livrarem-se, deste modo, da vida, incomparavelmente mais forçada em liberdade do que no presídio. Na vida livre vive no último grau de humilhação, nunca come o suficiente e trabalha para o amo desde manhã até à noite. Ou Orlov, que segundo o narrador, nunca na minha vida encontrei um caráter humano mais forte, mais férreo do que o seu. Ou Suchílov cuja característica consistia em... anular a sua personalidade, sempre e em todos os lados e (...) representar nos assuntos comuns um papel não de segunda mas de terceira ordem. Um destaque especial: Lembro-me dessa criatura repugnante, como de um fenômeno. Vivi alguns anos com assassinos, com malfeitores repelentes; mas digo convictamente que nunca, até hoje, encontrei na vida uma degradação moral tão completa, uma depravação tão consumada e com tão insolentes baixezas como as que reunia A...v. Sobre os castigos a que alguns presos eram condenados: Muitos supliciados vinham muitíssimo ferido e no entanto raramente algum deles se queixava. Somente o seu rosto parecia transfigurar-se, empalidecer; os seus olhos brilhavam: tinham o olhar fixo, inquieto; os lábios tremiam-lhes, os dentes batiam-lhes como se quisessem morder e não raro que se mordessem até fazer sangue. Durante a madrugada... então põe-se a sonhar, a recordar o passado, e surgem quadros amplos e brilhantes, evocados pela fantasia; e recordam-se pormenores que, noutro tempo, não teríamos recordado nem nos teriam causado tanta impressão como agora. O presídio segundo o antigo morador da casa dos mortos é, em resumo, um local onde homens perderam as suas liberdades, boa parte de suas juventudes, desperdiçaram seus talentos, e suas almas são cotidianamente destruídas, amassadas pela força das chicotadas e das humilhações e esmagadas pelo peso das horas que se somam formando os dias e anos intermináveis.

''Uma história aborrecida'' é um pequeno texto que trata de episódio na vida de Ivan Ilhitch Pralínski, conselheiro efetivo do Estado, que diz que irá provar a seus colegas de Conselho, S.N. Nikíforov e S.I. Chipulenko, ser capaz de um ato de benevolência inaudita. Com a ideia de despertar sentimentos nobres em outras pessoas, que ele considerava inferiores, adentra à festa de casamento de um humilde funcionário de repartição - Sr. Pseldónimov. A intenção de Prolínski é mostrar uma extrema benevolência, mas deixando absolutamente claro a abissal diferença entre ele e o convidados da festa. Entretanto, em virtude de Prolínski ir se embebedando, à princípio com champagne, mas também com vódca, passa então de importante visitante a um ridículo comensal na festa de Pseldóminov. Termina, portanto, dormindo na casa dos noivos, de tão alcolizado que se encontrava. Por conta da ressaca moral, passa uma semana em casa, antes de ter condição de retornar às suas atividades no escritório.

Dostoiévski fez uma viagem à Europa ocidental, Alemanha, França, Inglaterra, Suiça e Itália, e alguns meses depois, já no inverno, fez um relato aos seus amigos. Esse relato é a obra ''Notas de inverno sobre impressões de verão''. O relato das pessoas e o modo como ele as vê é bem interessante, em particular os parisienses. Em relação à Berlim, ele assevera: Berlim provocou-me a mais desagradável das impressões, de maneira que não fiquei nessa cidade senão um dia. Em Colônia, teve a impressão de ser humilhado ao sentir que um cobrador lhe falava com os olhos: Já vês como é a nossa ponte, miserável russo... Não tens outro remédio senão reconhecer que és um verme, comparado com a nossa ponte e com qualquer alemão, pois na tua terra não há uma ponte como essa. Dostoiévski faz, então, uma comparação dos russos humildes com alguns europeus ocidentais; fala também de coisas que tem vergonha de dizer, mas mesmo assim, atreve-se a falar de algumas delas, como por exemplo, de uma bela fatal frequentadora de salas de festa e quartos de pouc permanência. Ela estava também muito triste. Tinha uma feições delicadas, finas: qualquer coisa de secreto e triste transparecia nos seus olhos, um tanto altivos, algo de reflexivo e triste. Dostoiévski fala extensamente do burguês da França e do que ele pode apreender de sua hipocrisia; uma parte em destaque: o burguês está disposto a perdoar muitas coisas, mas não perdoa o roubo, ainda que um homem ou os seus filhos estejam morrendo de fome. Mas se esse homem roubar por virtude, então tudo se lhe perdoa; naturalmente quer faire fortune e amealhar; pois muito bem, cumpre um dever da Natureza e da sociedade. E é por isso que, no Código, estão muito bem especificadas as diferenças entre o roubo com mau fim, isto é, por um pedaço de pão, e o roubo por uma virtude elevada. Este último está garantido em alto grau, estimulado e organizado com desusada precisão. Ele continua a análise através de uma visão bastante aguçada sobre o grupo que tem uma visão claramente curta: E que indiferença por tudo, que leviandade, que interesses tão insignificantes! O autor continua a descrição dos burgueses, caminhando para a descrição dos belos casais de de seus amante. Finalizando, ele apresenta o orgulho do burguês pela conquista da fitinha da Legião de Honra: A propósito, essa fitinha é feroz. O ono está tão orgulhoso dela que é quase impossível falar-lhe, ir com ele de comboio, estar a seu lado no teatro ou encontrá-lo no restaurante. Pouco lhe falta para que cuspa nos outros, trata a todos com maneiras de valentão descarado, resfolga, arqueja, por pura ostentação, e tanto que acabamos por sentir náuseas... Grande retrato dos européus ocidentais do meio do século XIX.


terça-feira, 5 de novembro de 2024

Do Pequeno Herói aos Humilhados e Ofendidos

No conto "O Pequeno Herói" um rapaz de onze anos vai para uma festa de aniversário que dura vários dias, na casa de um esbanjador que convida para a comemoração cerca de cem pessoas (lembrou-me ligeiramente "O bosque das ilusões perdidas", Le Grand Meaulnes, de Alain Fournier, pelo menos no que diz respeito a uma festa longa, com muitos convidados e num local fora da cidade). A festa tem lugar em uma chácara próxima a Moscou. Nessa festa o protagonista conhece diversas pessoas, em particular, uma moça loura que tira várias brincadeiras com ele, muitas vezes o envergonhando em público, e uma senhora casada, Madame M..., por quem ele se apaixona, mesmo sem entender esse sentimento. Os dias passam e o protagonista vive algumas aventuras. Ao final ele percebe que um gesto de carinho de Madame M... marca o fim de sua infância. 

Na obra "O sonho do tio", Dostoievski relata o ambiente de fofocas numa cidade do interior da Rússia. Maria Alieksándrova urde um plano para casar a sua filha Zina com um príncipe moribundo, que é parente distante de Páviel Mosliakov. Maria, numa conversa com Páviel: Nós atendemos sempre à nossa conveniência, mesmo nos atos mais desinteressados, e fazemo-lo quase inconscientemente, sem darmos por isso! Claro que todos se costumam enganar, atribuindo-os à sua nobreza de alma! Mas Páviel é apaixonado por Zina e estraga todo o plano, com a ajuda das fofoqueiras da cidade interiorana. Zina, por seu turno, é apaixonada por um pobre rapaz que morre tuberculoso. Ao final, Zina não se casa nem com o príncipe, nem com Páviel, e nem tampouco com o jovem tuberculoso, que morre em seus braços. Zina se casa com um governador de província, na fronteira do Império.

Na história "A granja de Stiepantchikovo e os seus moradores", o narrador, Sierguiéi Alieksándrovitch, relata o plano de várias pessoas que querem fazer com que o seu tio viúvo, pai de Sacha e Ilúchka, se case com Tatiana Ivanôvna, pessoa que sofrera bastante durante toda a sua vida. Tatiana tinha os olhos doces e azuis, e embora já cercados de rugas, havia tal candura na sua expressão, tanta bondade e alegria que era um prazer encontrar o seu olhar. Entretanto, o dono da granja, Coronel Ievgraf Ilhitch Rostâniev, tio do protagonista, homem de temperamento bonacheirão e conciliador, que acreditava em todos, amava secretamente a Nástienhka Ievgráfovna, a preceptora das ciranças. A casa era dominada intelectualmente por um antigo bobo do finado general casado com a mãe de Ilhitch, a generala Krokótkina, Fomá Fomitch Opískin. A descrição de Fomá: Imaginem pois um homem, o mais inútil e pusilânime, receoso das pessoas, sem préstimo para nada, completamente inútil, muitíssimo feio, mas extraordinariamente soberbo da sua pessoa e egoísta, sem possuir a mínima qualidade que pudesse justificar o seu amor-próprio, morbidamente exagerado. Fomá exercia uma grande influência sobre a velha generala que era magra e de aspecto maldosa. A generala vivia com um séquito de bajuladores, com destaque especial para a menina Pieriepelítsina, que possuía um rosto extraordinariamente feio e descolorido. Vários outros personagens moram ou frequentam diariamente a granja, como Páviel Obnóskin, Ivan Miezíntchiko; Anfissa Pietróvna; Praskóvia Ilínichna - filha do general em primeiras núpcias; Ievgraf Lariônitch, que é o pai de Nástienhka; Falálei, de uma família de mujiques, que é perseguido por Formá; Vidopliássove, entre outros. Na história percebe-se claramente o fato de que uma pessoa que tem um pouco de conhecimento no meio de ignorantes, passa a ideia de ser sábio e referência moral. Entretanto, em alguns momentos também é possível que sua máscara caia e seja percebida a verdadeira índole, como Sacha numa reunião, a falar de Formá: Formá Fomitch é um estúpido, um egoísta, um porco, um coração cheio de fel, um tirano, um mexeriqueiro, um mentiroso...

"Humilhados e ofendidos" também é uma grande história. O narrador, Ivan, foi criado por Nikolai Serguetch e Anna Andréivna, que trabalham para o orgulhoso príncipe Piotr Alexândrovitch Valkóvski. Nikolai e Anna são os pais de Natacha, por quem Ivan é apaixonado. Mas essa paixão não é correspondida, já que Natacha ama Alexei Petróvitch, o Aliocha, que é filho do príncipe Piotr. Num ano cheio de tribulações...Relembro, involuntária e constantemente, tod o último ano de minha vida, esse ano tão difícil assim. Quero anotar tudo agora mesmo; creio, aliás, que, se não tivesse inventado tal diversão para mim, já teria morrido de tristeza (...) Sim, inventei uma boa coisa. Natacha sai da casa de seu pai e vai morar com Aliocha. Isso é uma grande ofensa para Nikolai, que cuidara por um tempo em sua casa do jovem Aliocha. O príncipe Piotr Valkóvski - único, maldoso, indecente, vil e dissimulado - vê nessa atitude de Natacha uma artimanha apenas para ela entrar na aristocracia. Ivan tenta ajudar Aliocha e Natacha para que se casem o mais rápido possível. Nesse ínterim, Ivan conhece a pequena Yelena, ou Nelly, neta do velho Smith, que morreu na sua frente e pediu que procurasse a neta, talvez querendo que cuidasse dela. A partir de Nelly, Ivan descobre uma história terrificante, a história da mãe de Nelly, que cansada de sofrer e rejeitada por todos, até mesmo pelo último ser com que poderia contar, pelo seu pai, que ela havia ofendido outrora e que, por sua vez, perdera a razão em face de insuportáveis sofrimentos e humilhações. Urdindo uma trama maquiavélica, o príncipe arranja um casamento para Aliocha com a bondosa Kátia, herdeira de três milhões. Isso produz uma grande aflição em Natacha, que pede a Ivan uma ajuda. Por causa da proximidade com Natacha, o príncipe ameaça essa última e humilha Ivan. Ao mesmo tempo, Ivan descobre uma grave doença de Nelly e fica com a atenção dividida. Após conseguir a separação definitiva do filho com Natacha, o príncipe ainda vai à sua casa humilhá-la. Ivan surpreende o príncipe e o expulsa da casa de Natacha aos murros. Ivan leva a pequena Nelly para contar ao pai de Natacha a história de como sua mãe tentou pedir perdão ao pai por tê-lo abandonado e levado o seu dinheiro, mas quando esse resolve dar o perdão, a mãe de Nelly já havia morrido. O pai de Natacha, que não queria perdoar a filha, se sensibiliza e a perdoa. Nelly, já doente, passa a viver com Nikolai, Anna e Natacha, que a tratam com muito amor. Lobóiev, antigo amigo de Ivan e hoje detetive, descobre e diz ao escritor que Nelly é filha legítima do príncipe - o que roubou o velho Smith - mas não tinha como provar. Antes de morrer, Nelly deixa com Ivan uma carta de sua mãe comprovando a sua ascendência. Mas já não importa.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Infância e adolescência em Tolstoi

A primeira parte da obra "Infância, adolescência, juventude" de Leon Tolstoi, Infância, trata das lembranças iniciais do personagem Vladimir Petrovitch, até a idade de doze anos, quando morre a sua mãe. São as lembranças do preceptor, o severo Karl Ivanovitch, das brincadeiras com o irmão Volodia, da irmâ Liubotchka e da filha da preceptora da irmâ, a pequena Katienka. Lembranças do seu pai Piotre, do administrador Jacok e de sua bomdosa mãe, Natália. Lembrança da resignada e complexa figura Natacha, que falece pouco após a morte da mãe; do mordomo Foka, do cocheiro Filipe, do criado Vacili, entre outros. Relatos de sua estadia em Moscou, na casa da avó, e a extrema vergonha de ter tentado dançar no salão uma dança que não conhecia. Recordação de um dia de caça onde toda a família participou e se divertiu, as brincadeiras e o primeiro amor por Katianka. Há também um aspecto interessante sobre a sexualidade, ou ao menos, sobre a futura sexualidade do pequeno Vladimiro. Ele relata uma estranha atração por um rapaz um pouco mais velho, Serioka Irvine, quando numa brincadeira eles quase chegam a se beijar. Mas também a atração por uma garotinha da sua idade, Sonietchka, com quem dança e conversa num baile onde é executada a mazurca. E a morte da mãe, as pessoas à cabeceira do féretro e as exéquias ocorridas antes do enterro. Falando sobre o peregino Gricha, o protagonista afirma: "Muitas têm ocorrido desde então, muitas recordações perderam já a sua importância a meus olhos e se tornaram como vagas ilusões: o peregrino Gricha, já há muito terminou a sua última jornada, mas jamais há de desvanecer-se na minha memória a impressão e os sentimentos que em mim provocou".

A segunda parte, Adolescência, começa com o retorno de toda a família para Moscou, após a morte da mamã. A descrição da viagem é admirável. Pelo caminho ele passa por algumas vilas e imagina a vida das pessoas que lá estão, pessoas que na maioria das vezes nunca mais se verão. "Uma carruagem com quatro cavalos de posta, corre velozmente ao nosso encontro. Apenas decorrem dois segundos e os rostos que, a uma distância de dois archines nos olham com curiosidade e benevolência, desaparecem já. É estranho que essas pessoas não tenham nada comigo e que talvez nunca mais torne a vê-las". O coche e a caleche que levam o narrador e outras pessoas do seu convívio diário atravessam uma tempestade e a chegada dessa, paulatinamente, culmina com a tormenta sobre eles. "No momento em que nos pomos em marcha, um relâmpago que nos cega ilumina o vale, obrigando os cavalos a pararem. Sem o mais pequeno intervalo estala um trovão ensurdecedor. Foi como se a abóboda celeste se despenhasse sobre nós". Posteriormente, ficamos sabendo da triste história de Karl Ivanovitch, que se alista no exército no lugar de seu irmão para dar uma alegria ao pai, os seus anos de guerra e a fuga após retornar à casa. Relata também os devaneios do adolescente, a conquista do irmão e a morte da avó; as dúvidas e inconsequências da adolescência; o ódio ao preceptor e a curiosidade pelo quarto das criadas; a preparação para a Faculdade de Ciências Exatas, pois lhe agradam as palavras 'seno', 'diferencial' e 'integral'.

Na terceira parte, o protagonista fala do seu círculo familiar, agora da perspectiva de um jovem que tem um melhor conhecimento sobre o mundo; as regras que ele impôs à sua vida: a forma como ele se preparou para os exames de ingresso à universidade; como foram os exames de diversas disciplinas; como passavam o dia seu irmão Volodia e seus amigos; a discussão com um senhor no restaurante; as visitas realizadas às pessoas que o seu pai recomendara, como a Senhora Irvine: "Não havia dúvida de que as minhas respostas acerca da minha família a interessavam; eram como se, ao escutar-me, recordasse melancolicamente tempos que tinham sido melhores". O protagonista também faz uma reflexão sobre o amor; sua duvidosa paixão por Sonietchka; a amizade por Dimítri; o desprezo pela irmã e por Katienka, que não o entendia bem. "Nem na infância, nem na adolescência, nem depois já mais velho, nunca tive o vício de mentir; pelo contrário, era quase demasiado e sincero e franco, mas nesse primeiro período de minha juventude era frequentemente assaltado pelo desejo de mentir descaradamente e sem motivo evidente. Digo que mentia descaradamente porque mentia em coisas nas quais era muito fácil que me descobrissem". Depois o protagonista fala de sua aproximação ao piano, que mais do que um amor à música, parecia para ele ser uma forma de atrair a atenção das garotas. Ele também consome um tempo com os romances e faz uma interessante reflexão sobre os personagens de Sue, Dumas e Paul de Kock. "As personagens mais falsas e os acontecimentos mais irreais pareciam-me tão verdadeiros como a realidade. Não me a suspeitar que o autor mentisse, pois ele nem sequer existia para mim; via surgir das páginas do livro personagens reais, vivas, assim como um série de acontecimentos. O fato de nunca ter encontrado criaturas parecidas com as desses romance não me fazia duvidar nem por um momento de que havia de encontrá-las". Durante os verões de sua juventude há ainda lembranças de passeios a cavalos com as meninas da casa, o saboreio de bagas maduras colhidas diretamente das árvores. Às vezes, tinha saudade de algumas pessoas que ficaram no passado, mas devido encontrar-se cheio de esperança e vida, essa tristeza logo se dissipava. É interessante uma descrição do apagar das luzes da casa, que lembra um pouco o que Proust escreverá algumas décadas depois sobre o apagar das luzes quando um viajante chega a um hotel. "Mas as luzes das janelas de cima iam-se apagando, os passos e as conversas eram substituídas pelo ressonar, o guarda-noturno começava a bater na tábua, o jardim tornava-se ao mesmo tempo mais sombrio e mais claro quando desapareciam os raios de luz avermelhada que vinham das janelas; a última luz da casa de jantar era levada para o vestíbulo, deixando um rato luminoso no úmido jardim (...) Finalmente apagava-se a última vela, a janela fechava-se, eu ficava sozinho". Relata ainda sobre a ascenção e declínio do amor entre o pai e a jovem Avdotia Vacilievna, os encontros do protagonista com seus camaradas de universidade, o orgulho de se sentir superior a eles e, por fim, a reprovação ao fim do primeiro ano de estudo.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

O quarto quarenta e cinco

A estrada apresentava-se clara, apenas corujas e sapos eram ouvidos numa lagoa próxima. Mas certa voz assombrosa interrompeu-me o caminho na noite de quase lua cheia.

- Senhor, senhor, me dê um instante.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

A Colação de Grau

Hoje seria um dia especial. Para qualquer pai, a colação de grau de um filho é um dia bastante simbólico. Um cordão umbilical invisível que o unia à infância e à juventude da criança é cortado e o filho encontra-se adulto para sempre. As brincadeiras na piscina, as viagens imaginárias no barco que estava sempre prestes a partir e os filmes de Branca de Neve ficaram irremediavelmente no passado. A partir de agora há um novo futuro e os passos dos formandos vão começar a construir suas próprias estradas.

Encontrava-me numa grande euforia pelo que esperava presenciar dali a poucas horas. Esqueci de informar, chamo-me Melquíades, é um nome estranho eu sei, mas os pais têm essa prerrogativa de escolher os nomes dos pequenos. Quando estava chegando ao meu carro no estacionamento do prédio, escuto um pouco surpreso: - Seu Melquíades, o senhor estacionou o seu carro muito próximo do meu.

Olhei rapidamente e vi que o carro do vizinho é que se encontrava sobre a listra divisória amarela, portanto, a observação dele era um completo absurdo.

- Meu caro, retruquei, acho que o senhor está enganado, seu carro é que avançou na minha garagem.

Enquanto entabulava essa discussão, lembrei-me que em diversas ocasiões já ajudara esse vizinho: levara-o para comprar uma bateria nova, ajudara-o a trocar um pneu e ainda conseguira, certa vez, água destilada para colocar no motor superaquecido. Ajudei-o por ajudar, nada de altruísmo de minha parte. Mas em relação a mim, o seu relacionamento amistoso sempre possuía uma restrição, um senão, um porém, um problema. Eu bem que poderia ter mantido uma distância de segurança, mas não o fiz.  

- Você é um estúpido, acrescentou descontroladamente o vizinho. Eu não conseguia entender perfeitamente aquela agressividade. Pensei que se rebatesse com algum argumento um pouco convincente poderia até ser agredido fisicamente. 

- Vou requer uma reunião para discutirmos a sua insolência, esbravejava o homem completamente transtornado. - Vou lhe expulsar daqui. Tudo era surreal.

Entrei o mais rápido possível no meu carro e saí, deixando o vizinho com o rosto assustador refletindo no retrovisor. Meu ânimo inicial por um importante acontecimento que se aproximava - a colação de grau do meu filho - fora completamente despedaçado por um fato absolutamente singelo. O vizinho sabia que eu não estava errado, sua atitude foi apenas para me maltratar, sabe lá Deus o porquê.

Em direção ao trabalho, quis esquecer, mas a ameaça me perturbara fortemente, pelo menos durante aquele dia. Cheguei chateado no escritório e não consegui concatenar as ideias. Fiquei olhando a folha de papel sobre a mesa como se ela quisesse me avisar que tudo aquilo era pequeno demais: - Você é um idiota!

Saí mais cedo e caminhei em torno da praça central com suas árvores centenárias. As caleches e os coches foram há muito substituídos por carros extremamente modernos. Calaram-se os chicotes, falam agora silenciosamente as placas de silício. - Meu Deus, como passa o tempo!

No anfiteatro lotado, os jovens e familiares acompanhados de suas alegrias ocupavam quase todo o espaço. Sentado no chão, pois não havia mais cadeiras disponíveis, rabisquei um papel para encerrar o dia: - Filho, hoje completa-se um ciclo simbólico na sua vida. Acredito no futuro, apesar dos anos, os seus pesos, tropeços e bocejos.

Eu iria escrever mais alguns parágrafos, mas uma bota chutou para longe a caneta que estava em minha mão. Está bom mesmo assim. Amanhã terei um novo dia de tarefas, vou já para casa dormir.


domingo, 15 de outubro de 2023

Cem anos de Ítalo Calvino

Há 100 anos nascia em Havana, Cuba, Ítalo Calvino, um dos maiores escritores italianos do século XX. Pouco após o seu nascimento, a família retornou para a Itália, uma vez que os pais eram italianos e naquele momento encontravam-se a serviço no país caribenho. Autor de obras importantes como "O Barão nas Árvores", "O Visconde Partido ao Meio", "Se Numa Noite de Inverno um Viajante", "O Cavaleiro Inexistente", "As Cosmicômicas" e "As Cidades Invisíveis", entre outros, Calvino era um mestre na arte dos contos e dos raccontini, continhos ou pequenas histórias. Em uma de suas obras primas, "As cidades invisíveis", por exemplo, Marco Polo vai contando ao grande Kublai Khan como são as cidades do seu grande império. Mas cada descrição de uma cidade, que consome entre uma e duas páginas, é uma descrição completa fechada em si mesma. De certa forma, nessa obra que considero uma das melhores que li do autor italiano, ele coloca em prática os valores que ele acreditava que a literatura do século XX deixaria de legado para a posteridade: a leveza, a rapidez, a visibilidade, a exatidão, a consistência e a multiplicidade (legado esse que foi explorado em outra belíssima obra, "Seis Propostas para o Próximo Milênio"). Quem aceitar o convite de caminhar pelas cidades invisíveis de Calvino, provavelmente ficará preso nas suas armadilhas, ou subirá a um alto pináculo à espera de que um barco passe por ali e o leve a um outro destino. Como na cidade de Tamara: 

"Finalmente, a viagem conduz à cidade de Tamara. Penetra-se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: o torquês indica a casa do tiradentes; o jarro, a taberna; as alabardas, o corpo da guarda; a balança, a quitanda. Estátuas e escudos  reproduzem imagens de leões delfins torres estrelas: símbolo de alguma coisa - sabe-se lá o quê - tem como símbolo um leão ou delfim ou torre ou estrela. Outros símbolos advertem aquilo que é proibido em algum lugar - entrar na viela com carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com vara na ponte - e aquilo que é permitido - dar de beber às zebras, jogar bocha, incinerar o cadáver dos parentes." 

Certamente muitos textos de qualidade surgirão destacando os aspectos literários de Ítalo Calvino por causa dessa efeméride, e qualquer tentativa que eu fizesse para destacar as qualidades desse escritor seriam irrelevantes e nada acrescentariam (mesmo porque deixo isso aos especialistas). Dessa forma, escrevo apenas sobre a sua participação como membro do Partido Comunista Italiano. Na verdade, Calvino começou sua vida literária como articulista/ jornalista do L'Unità, órgão do PCI. Após alguns anos, o escritor se desliga da agremiação e passa a publicar regularmente em diversos meios impressos da Itália dos meados do século XX, e continua a produzir até a sua morte, em 1985. Em sua carta de despedida, assevera: "Juntamente com muitos camaradas, eu esperava que o Partido Comunista Italiano se colocasse à frente da renovação internacional do comunismo, condenando métodos de exercício do poder que se revelaram infrutíferos e antipopulares, dando impulso à iniciativa de baixo para cima em todos os campos, lançando as bases para uma nova unidade de todos os trabalhadores, e neste fervor criativo reencontrasse o vigor revolucionário e o impacto nas massas." Deixou o partido, mas o seu sonho por justiça e igualdade entre as pessoas continuou inabalável pelo resto de sua vida.



Para encerrar essas brevíssimas linhas, um pequeno trecho de um conto de 1968 denominado 'A Memória do Mundo', no qual o protagonista trabalha numa firma em que ele e os seus camaradas têm a função de anotar todos os fatos relevantes para servir como lembranças de uma humanidade que está prestes a desaparecer. De fatos relevantes ele passa a anotar também algumas insignificâncias e daí, parte para enfeitar a realidade com algumas mentiras. Um pouco da arte de se criar e se reconstruir a realidade: "A mentira só exclui a verdade aparentemente, você sabe que em muitos casos as mentiras - por exemplo, para o psicanalista, as do paciente - são tão ou mais indicativas do que a verdade; e assim será para os que tiverem de interpretar a nossa mensagem. (...) Ouça: a mentira é a verdadeira informação que temos de transmitir. Por isso não quis me proibir um uso discreto da mentira, quando ela não complicava a mensagem, mas, ao contrário, a simplificava. Em especial nas notícias sobre mim mesmo, acreditei-me autorizado a ser pródigo em detalhes não verdadeiros (não creio que isso possa atrapalhar alguém). Por exemplo, minha vida com Ângela: eu a descrevi como gostaria que fosse, uma grande história de amor, em que Ângela e eu aparecemos como dois eternos namorados, felizes em meio a adversidades de todo tipo, apaixonados, fieis". 

sábado, 15 de julho de 2023

Do ladrão honrado à Nietotchka

Os personagens de Dostoiévski são complexos e o lugar comum não diminui a intensidade dessa verdade. Lembro-me imediatamente, por exemplo, do major do presídio da Casa dos Mortos, um tipo altivo, dono de todas as situações, orgulhoso, mal até no limite do sadismo, aparentemente sem nenhum traço de humanidade; mas ao final, despojado de sua farda, mostra-se um pobre coitado, um nada, digno de toda a pena. Mas esse major e outros tipos falarei posteriormente. Quero aqui continuar a resumir obras preliminares do mestre russo.

No conto "O ladrão honrado", o personagem Astáfi Ivânitch relata a história de um ladrão honrado, Emiélia Ilhitch. Este último é uma pessoa que anda pelas sarjetas por causa da bebida. Com pena da situação, Astáfi o aloja em seu quarto e divide com ele o pouco alimento. Entretanto, algum tempo depois, uma calça de Astáfi desaparece e esse tem certeza que foi obra de Emiélia. Envergonhado, Emiélia sai de casa, Astáfi se sente culpado e o procura por diversos lugares. Vários dias depois Emiélia retorna para o quarto de Astáfi, bastante doente, e fica convalescendo na cama próximo ao seu benfeitor. Próximo à sua morte, Emiélia pede que Astáfi venda o seu blusão pois ele não precisará no túmulo. E confessa que foi ele quem roubou as calças. Apesar de tudo, Astáfi fica triste com a partida do homem que dividiu com ele, por alguns dias, o seu quarto de dormir.

Em "A mulher alheia e o homem debaixo da cama" Ivan Andiéivitch é um marido extremamente ciumento. Se há razão ou não para o ciúme, isso não vem ao caso. O certo é que ele persegue a sua mulher por vários locais. Em alguns momentos acredita-se que ela o esteja traindo realmente, em outros parece ser apenas uma neurose. Movido por um sentimento destrutivo, Ivan se vê envolvido numa situação absolutamente absurda. Seguindo as pistas de onde poderia encontrar-se a sua esposa e um amante, ele invade uma casa na certeza de desmascarar os dois. Entretanto, a casa na verdade são de desconhecidos. Ele invade o quarto de uma jovem esposa e ao verificar o terrível engano, tentar dar meia volta para sair do quarto e do apartamento errado. Mas nesse momento o velho marido da jovem adentra a casa e ele, sem saber o que fazer, esconde-se debaixo da cama. Entretanto, para a sua surpresa, lá também já encontrava-se um jovem que também encontra-se no esconderijo. O marido entra tossindo enquanto os dois embaixo da cama começam a travar um diálogo quase surreal. Tudo piora quando o cãozinho da jovem acorda e começa a latir com os intrusos. O velho marido vai verificar o que está acontecendo e nesse momento de confusão o jovem vai embora e fica sob a cama apenas Ivan Andiévitch. Agora, sem culpa no cartório, Ivan vai ter que se explicar.

No conto "Uma árvore de natal e um casamento" um rico casal recebe vários conhecidos para um baile infantil na época do natal. Destaca-se entre os convidados um importante funcionário, Iulian Mostakóvitch, que descobre que a jovem filha do casal possui um rico dote que a acompanhará após o casamento. Cinco anos depois ocorre o casamento do senhor Iulian com a jovem filha do casal, agora com dezesseis anos de idade.

Na novela "Noites brancas" um jovem se apaixona por uma bela moça que por sua vez está há um ano à espera do seu amor que partiu numa viagem e prometeu voltar. Como na obra anterior 'A dona da casa', o protagonista se encontra envolvido emocionalmente com uma mulher que não poderá lhe dar a atenção que ele necessita. Isso trará uma tristeza duradoura a ele, embora ele reconheça que os poucos momentos de atenção, na verdade, "um momento de felicidade, não será bastante para preencher uma vida?" Quando percebe que esse momento único é irrepetível, as cores acinzentadas do mundo voltam a ter destaque em sua vista: "Vi empalidecerem as cores das paredes, descobri novas teias de aranha em todos os cantos. Não sei por que, quando relanceei a vista através da janela, pareceu-me que o prédio fronteiro também envelhecera e que se tinha posto mais escuro e arruinado, que o estuque da pilastras estava todo gretado, que as cornijas se fendiam e enegreciam, e que as janelas estavam cheias de manchas e de sujidade."

A obra "Nietotchka Niezvanova" trata da história de uma órfã cuja mãe casou-se com um músico fracassado, Iefímov, presunçoso, orgulhoso, dono de um inútil amor-próprio, que se sentia um gênio - pelo menos durante a sua mocidade. A informação sobre essas características foram passadas à protagonista por um antigo amigo de seu padrasto, o violonista B***, que por sua vez, conhecia as suas próprias limitações: "E quando agora a pureza da minha execução e o aperfeiçoamento da minha técnica chamam a atenção, posso dizer que apenas as devo ao meu estudo perseverante e incansável, ao pleno conhecimento, quero dizer, à apreciação objetiva das minhas faculdades, à minha renúncia espontânea e ao meu constante combate à vaidade e à preguiça, satisfazendo-me com as minhas próprias possibilidades". Nietotchka passa a infância acreditando que o músico fracassado é o seu pai. Ela tem um carinho e uma admiração muito especial ao pai adotivo, e acha que sua mãe é a causa da miséria da família, embora a indisposição do pai ao trabalho devido à sua irascibilidade e o vício com a bebida devessem ser considerados os principais fatores da situação da família. Nietotchka, na verdade, tinha um apego tão grande ao pai que, segundo as suas próprias palavras, havia qualquer coisa de romance. Mas apesar disso, o pai a obrigava a roubar os poucos copeques e rublos da mãe. "Mas ele estava esperançoso em obter o dinheiro por meu intermédio. Vejo agora que, por ele, eu estava disposta a tudo e que não recuaria diante de nada deste mundo. Mas só Deus sabe o que este 'tudo' significava então para mim. Eu sabia o que aquele dinheiro significava para a minha pobre mãe; sabia que ela podia cair doente de comoção e inquietação se se visse sem ele e escutava no meu íntimo a voz do remorso. Ele, pelo contrário, não via nada disso". Após algum tempo o pai adotivo e a mãe de Nietotchka morrem e ela vai morar na casa de um príncipe. Lá ela conhece a princezinha Kátia que tem mais ou menos a mesma idade. Depois de algum desentendimento, elas finalmente se tornam amigas e passam a ficar o dia juntas, se abraçando e se beijando dezenas de vezes, num amor inexplicável que nasce entre as duas. Mas a mãe da princezinha ao saber disso, a leva de Petersburgo para Moscou e a deixa lá por vários anos. Nietotchka vai morar com a irmã mais velha de Kátia, Alieksandra Mikháilovna, fruto de um antigo casamento da mãe de Kátia. Alieksandra trata Nietotchka como a uma filha. Essa última percebe que Alieksandra não é feliz com o seu marido Piotr, e que há um grande segredo na vida deles. Nietotchka tem momentos de tristeza e de alegrias até descobrir uma carta escondida num livro da biblioteca, que parece dar uma pista sobre esse segredo. Quando Piotr descobre Nietotchka na sua biblioteca e com uma carta de amor em suas mãos - nessa época ela já tinha dezessete anos - começa uma grande confusão envolvendo também Alieksandra. Nesse ponto a história acaba; claramente é um romance inacabado. É uma pena que nunca saberemos qual é esse segredo.